2010 Filmologia

Edição #02

Editorial

As velhas imagens nacionais e esquecidas

Há mais ou menos um ano, quando a ideia de trazer o Filmologia à tona estava tomando uma forma quase tocável, Ricardo Lessa Filho e eu encontramos dificuldade nas decisões de cunho técnico (estético) e no momento em que tentamos estabelecer alguns nomes para focar nos futuros especiais sobre diretores, se estes fossem de fato existir. Era a suposta longa época do “nós contra o mundo”, no bom sentido da confrontação pacífica, mahatmagandhiana, com este “mundo”, simplesmente. Era o tempo da negação de apoio, da incerteza da validade de nossa própria ideia conjunta – nunca fomos empresários! Falo num período que durou uns dois anos e pouco, embebido em desemprego e em estagnação do mercado de trabalho no jornalismo: os mesmos rostos, as mesmas novidades de mentira das mudanças de cenário e da igualdade das palavras: isso tudo continua e sabemos que vai acontecer aqui no Filmologia também. Não havia equipe formada, não existia uma linha clara quanto ao que faríamos com e na revista especificamente – e talvez ainda não haja. Se trataríamos só de filmes lançados atualmente; se teríamos edições, e, em caso afirmativo, qual a periodicidade destas; como encontrar alguém de nossa cidade – que nesse sentido parece a cidade fantasma onde os bandidos se refugiam em Céu Amarelo, de William A. Wellman – que quisesse escrever de graça e com o mesmo entusiasmo que nós sobre cinema. Havia só o desejo de olhar para os filmes e para os seus discursos com mais atenção e cuidado, a velha utopia que, sabemos, pode durar até esta presente edição, até a próxima ou, quem sabe?, até daqui a três anos e bem mais. Uma atenção que Maceió ainda não teria visto em seus meios midiáticos mais conhecidos e divulgados – em suma, ainda se trata de uma pretensão juvenil. Entre os nomes de nossa predileção e de nossa memória mais urgente, vasculhamos aqueles mais amados mas ao mesmo tempo um tanto turvados e esquecidos pelo olhar crítico “especializado” (isso existe?) e sua velocidade contemporânea, que só retoma certas figuras cruciais em datas de aniversário de vida ou de morte, embaladas em notícia de momento.

Vieram até nós os nomes de Aki Kaurismäki, logo em seguida, incisivamente, o de Rainer Werner Fassbinder e o do brasileiro Walter Hugo Khouri, nome pesadíssimo e mais do que necessário para compreender certa parte da história de nossa cinematografia. A aceitação de Khouri entre nós funcionou com uma troca de olhares de confirmação. Um bom nome a ser dito e a ser discutido com a seriedade que queríamos e queremos (e nem sempre alcançamos) para o Filmologia. Khouri: por ser brasileiro, por ser esquecido e, algumas vezes, por ser um tanto mal-visto. Duplamente mal-visto, digamos: pouco olhado com a atenção que seus melhores filmes pedem, e olhado com atenção demais pela crítica “especializada” (ela de novo), ponte entre o “grande público” e os filmes. “Crítica” esta que coloca o cineasta ao lado de Bergman e Antonioni e às vezes decepa sua criatividade própria em detrimento dos dois nomes internacionais, o que acabou por mitificar algo negativamente a sua obra em alguns “setores”, tida como objeto de alienação, já que não se filia aos movimentos das ruas e da política anti-ditadura, ao menos em conteúdo formal e temático claros e objetivos: filmar a rua, filmar o povo, destruir a cenografia e a interpretação formal-dramatúrgica dos atores. Khouri, reafirmo, era um retardatário, alguém que acreditava que o cinema não tinha idade, como a filosofia e a literatura. Acreditava em clima, em atmosferas cinematográficas.

Digo isso porque esse especial sobre Walter Hugo Khouri calhou de cair justamente na época em que o Cine SESI Pajuçara lança uma mostra bem abrangente sobre o “novo” (ou “novíssimo”) cinema brasileiro, com filmes e palestras. Também porque não tivemos tempo de pensar essa mostra e trazer aqui alguns textos sobre ela e porque, de algum modo, as imagens que dela verteram (com algumas exceções) passam ao largo das que veremos na presente edição do Filmologia. Trata-se de uma mostra de imagens novas, reluzentes que, em alguns momentos, se incubem também da fácil tarefa de nos enganar. Numa matéria sobre o evento, publicada dia 19 de outubro, na Gazeta de Alagoas, assinada pela jornalista e editora de cultura do periódico, Alexsandra Morone, afirma-se no subtítulo que este é um dos melhores momentos do nosso cinema. Melhor momento do quê? De público? Sim, com certeza, isso é ótimo, um grande incentivo às produções em grande escala. Mas, também decerto, existe ainda alguma espécie de covardia, de falta de ousadia criativa no cinema feito no Brasil desde a tal ‘retomada’, um medo de soar ruim demais ou, para ficarmos nos problemas de Khouri, “incompreensível demais”, muito arriscado. Salvo alguns nomes, o que se vê ainda é que esporadicamente podemos conciliar sucesso de grafia de cinema com bilheteria estrondosa. Quando se diz que o cinema do Brasil evolui, geralmente está escondida a continuação da frase, mais explícita: “…porque está com uma estética de filme internacional”, ou, para continuarmos aqui, de “filme de ação profissional”. As questões abordadas por Tropa de Elite 2 – esqueçamos por um momento as palavras “filme de ação”, utilizadas por Morone em seu texto, termo um tanto jornalístico, claro, e isso não está tão mal: precisa-se de um termo, sempre, em jornalismo – me parecem justas quanto ao assombro de sua bilheteria avassaladora. Se serão sorvidas, compreendidas e debatidas como o filme parece pedir, e se são essas de fato as questões que levam o público às salas – voltemos às palavras “filme de ação” e vejamos que talvez sejam elas quem movam as platéias -, a conversa é outra. Não é um dos melhores momentos, mas um momento prestes a se tornar melhor, assim queremos esperar. Principalmente porque temos agora essa mostra do Cine SESI, que pode talvez traçar uma visão mais clara sobre nosso estado de coisas em cinema, um olhar mais apurado sobre o cinema que podemos querer ou não, longe da celebração típica de festival (embora nós, maceioenses e alagoanos, precisemos sempre celebrar eventos assim, visto sua raridade) e perto da seriedade de olhar.

Não é bem uma reclamação nem um desagrado, a afirmação acima. Mas é que, nesta edição sobre Walter Hugo Khouri, cineasta que de fato merece um resgate de olhar (ou algo que traga os velhos olhares de volta, para serem combatidos ou filiados – e os leitores encontrarão essas duas posições bem expressas aqui), nos deparamos obrigatoriamente com uma “sub-pauta” que Fernando Mendonça e eu acabamos por perceber: como mal conservados estão nossos filmes, e, em especial, alguns do cineasta o qual abordamos nessa edição. Mal conservados, mal-vistos e difíceis demais de se encontrar, de se ter acesso por vias mais fáceis e até legais – às vezes comete-se certos crimes para ver um filme, Truffaut atestaria. Tivemos que deixar de fora dessa edição filmes impossíveis de localizar e essenciais na filmografia de Walter Hugo Khouri, como Estranho Encontro (1958), O Último Êxtase (1973) e O Anjo da Noite (1974), esse último, um curioso filme de terror. Se um dia conseguirmos ter acesso a tais obras, poderemos inserir os respectivos textos a seu respeito nesta edição. Torçamos por isso.

Como foi posto em conversa por Fernando e eu (e em breve comentário com o Nuno e o Bruno Rafael), esta é uma “edição feia”: algumas imagens dos filmes debatidos aqui estão corroídas, misturadas, desfeitas e desfocadas. Tivemos dificuldades de encontrar fotos dos filmes na internet e também, inclusive, de encontrar fotos do próprio Khouri. Algumas imagens, como as de Paixão e Sombras (1977), destroem todo o jogo cromático proposto por Khouri (que podemos só sentir e que aparece com mais nitidez, por exemplo, na cópia a qual tivemos acesso de As Deusas, 1972) naquele que talvez seja seu filme mais autobiográfico, dedicado a Sternberg (logo, a um cinema do tom monocromático, importante e abstrato, cinema do mestre do estúdio, tal como Khouri – lembremos que tudo se passa nos últimos dias de um estúdio da Vera Cruz), e que sintetiza com mais força as angústias e incertezas de seu trabalho com o cinema. O cinema brasileiro estará num melhor momento quando aprender também a olhar para trás e para aqueles que desde essa época ainda trabalham e não tem o tal retorno de público – que, quer queira quer não, acaba por definir, ainda que erroneamente, o que deve ser visto. E, mais ainda, quando aprender a preservar os filmes de cineastas como o nosso querido Khouri, e também Ody Fraga, Jean Garrett, John Doo e outros tantos. Ficamos aqui com dois olhos a menos, dois ouvidos a mais (alguns filmes possuem o som totalmente desgastado, abafado) e ainda tivemos a sorte de ser salvos, aqui e ali, por algumas imagens dos filmes analisados nesse número, quando de suas exibições no Canal Brasil. Fernando Mendonça vai falar muito bem sobre esse grave problema de imagens mal-conservadas em seu texto, A imagem nacional, publicado na seção de artigos, que abre essa edição com o tom de urgência necessário, vindo do debruçamento sobre os filmes de Khouri, e que também serve como parte do título deste editorial. Ainda assim, continuamos com os olhos à fragilidade da imagem, desfocados e, no caso dessa edição sobre Walter Hugo Khouri, com algumas palavras também em falta. Estamos no olho de um grande desfalque, no centro de uma “edição feia”, como já disse e não podemos nos esquecer.

Os leitores sentirão falta, certamente, dos textos de Ricardo Lessa Filho nesta edição. Infelizmente ele não pôde participar da concretização desta ideia que tivemos há quase um ano, porque está viajando, passando uma temporada de estudos fora do país. Entretanto, ele participa aqui com uma carta, enviada do seu “exílio voluntário”, sobre a dificuldade de passar tanto tempo sem ter contato com filmes e outras novas imagens que lhe perturbem de alguma forma – o conforto é lembrar das já-vistas, já-vividas. Ricardo estará de volta a tempo de participar do nosso próximo número. Neste número, o próprio Khouri aparece com um artigo sobre sua relação com Xuxa e Vera Fischer, que “pescamos” do blog de Matheus Trunk. Como sempre, também damos prosseguimento aos abecedários de Elinaldo Barros. Um deles, aquele sobre filmes brasileiros, de forma quase que proposital está ligado diretamente à “sub-pauta” que nos surgiu: foi bem difícil encontrar imagens dos filmes que ele elencou entre o A e o Z. Algumas estão com uma péssima resolução e resolvemos deixá-las lá, desse jeito original mesmo, sem nenhuma intrusão feita em programas de processamento de imagens e afins, para que tudo fique tão claro quanto os pixels gritantes de algumas imagens que fomos obrigados a escolher. Pixels que deformam todo um mundo em quadro.

Pois bem, falaremos aqui em imagens no cinema de Walter Hugo Khouri, no desejo incontrolável, eterno e vazio de seus personagens, nas suas narrativas rigorosas e repletas dos ditos “tempos mortos”, das montagens que obedecem aos estados emocionais de seus personagens, dos seus incontáveis Marcelos-alter-egos, de seus excessos, seus defeitos. Em seu desejo por desejos, passado aos personagens, desejo por imagens impossíveis de serem encontradas e tocadas, falamos em imagens sobretudo vivas cinematograficamente. Em nossas mãos pudemos ter, mesmo que nos escapasse a toda hora pela inconstância do registro já gasto que o tempo deseja apagar, o contato e o toque deslumbrante com o cinema de Walter Hugo Khouri. Espero que aproveitem essa nossa experiência deliciosa e traumática na mesma força e medida em que ela se deu em nós. Até breve.

Ranieri Brandão

Outubro / Novembro de 2010

Edição #02 (Vol. 1, N. 3)

> Walter Hugo Khouri

Artigos

A imagem nacionalFernando Mendonça

Suor paliativo ou calafrio calcário – Bruno Rafael

Das imagens desejadas pelos corposRanieri Brandão

Minha vida com Xuxa e Vera FischerWalter Hugo Khouri

Filmes

Estranho Encontro - Fernando Mendonça

Na Garganta do Diabo – Fernando Mendonça

A IlhaRanieri Brandão

Noite VaziaFernando Mendonça

O Corpo ArdenteNuno Balducci

As Cariocas (segundo episódio)Fernando Mendonça

As Amorosas Nuno Balducci

O Palácio dos AnjosRanieri Brandão

As DeusasBruno Zanile

O Último ÊxtaseFernando Mendonça

O Anjo da Noite – Fernando Mendonça

Paixão e SombrasBruno Zanile

O Prisioneiro do SexoTexto 1 (Bruno Rafael) | Texto 2 (Ranieri Brandão)

As Filhas do Fogo – Ranieri Brandão

O Convite ao PrazerFernando Mendonça

Eros, o Deus do AmorBruno Zanile

Amor Estranho AmorBruno Rafael

Amor VorazRanieri Brandão

Eu Fernando Mendonça

ForeverRanieri Brandão

As FerasBruno Rafael

Paixão PerdidaBruno Rafael

> Abecedários Elinaldo Barros

ABC dos astros do cinema

Pequeno abecedário de filmes brasileiros

> Carta do exílio

Sobre a distância do olhar e da memóriaRicardo Lessa Filho