2011 Filmologia

Edição #03

Editorial

Sobre alguns mundos humanos (e um pouco sobre nós)

No final de outubro de 2010 lançamos nossa um tanto tumultuosa edição sobre Walter Hugo Khouri, uma edição “itinerante”, que foi se completando aos poucos. Ali se encontrava, talvez, um resumo e um registro das direções de olhares diversos da equipe, algo que o Filmologia sempre quis divulgar em termos de opinião e de escrita. Entretanto, era uma edição incompleta: faltava-nos um membro, e, com sinceridade, certos textos deixaram, interna e externamente, muito a desejar dentro do caminho que sempre quisemos trilhar, esse da discordância sustentada por argumentos que, a nosso ver, necessitam deixar de lado toda e qualquer infantilidade e pobreza de olhar. Era, então, tempo de dar uma pausa (prematura? já prevíamos algumas rescisões entre nós mesmos, afinal, a crítica de cinema é um sonho maquiavélico) e olhar internamente nossos próprios fatores, nossas próprias posições. Resolvemos adiar, em um mês, o lançamento da presente edição. Primeiro, tínhamos que ter tempo – logo aquele, perfeito para isso, o das festas de final de ano – para nos repensar, para rever textos, discursos e atitudes quanto a estes e quanto aos filmes em si. Segundo, tão importante ou mais do que isso, queríamos ter tempo para pensar e pesar as imagens que apareceriam neste nosso novo número.

Sim, pois o nome de Béla Tarr surgiu-nos mais ou menos à época da edição sobre Hiroshi Teshigahara, ainda em agosto passado, e já estava decidido que, cedo ou tarde, ele entraria no nosso foco. Mais uma vez, um nome conhecido apenas num pequeno meio restrito. Um cinema a se descobrir mais amplamente, pois nos parece ser mais conhecido e louvado apenas a partir de um certo período da sua carreira. Um nome assombroso dono de um cinema ainda maior do que isso, repleto de imagens as mais inesquecíveis e rigorosas (mais do que qualquer palavra, embora elas existam e marquem de fato, com força, sua presença) que pudemos ver nos últimos anos. De todas as formas (boas, más), o cinema do húngaro Béla Tarr instiga discussões as mais diversas e variadas. É um cinema espiritual? É um cinema da matéria? Da desgraça humana? É, visto hoje, depois de seus filmes mais conceituados, como um cinema esquemático, miserável e auto-indulgente? Todavia, é fato que ele pode ser presa fácil do que se chama de “cinema de autor”, do tal “perigo da repetição”.

Decerto, podemos afirmar, trata-se de um cinema muito particular, e, sobretudo, de um cinema sobre mundos. Não há de se encontrar aqui, nesta edição, entretanto, respostas definitivas sobre estes mundos tão íntimos (e ao mesmo tempo, tão universais) em nossos escritos: há olhares sobre os filmes de Béla Tarr, há posicionamentos sobre todos aqueles mundos que parecem destruídos e ao mesmo tempo imortais. Estes mesmos, que possuem uma grandiosidade talvez nada eloquente, muito embora provavelmente possamos dizer que são grande parte da constituição destes filmes sobre figuras no limite de seus universos, no limiar do sofrimento humano e da deterioração total.

Nesta edição do Filmologia, olhamos para filmes fantásticos e pouco falados dos primeiros anos de Béla Tarr (Family Nest, The Prefab People), onde certa angústia provocada pelo socialismo na Hungria parece motivar suas narrativas secas; e também demos grande atenção aos filmes mais conhecidos internacionalmente do diretor – ainda assim apenas por um nicho - do final dos anos 80 até agora (Condenação, As Harmonias de Werckmeister, O Homem de Londres), onde a técnica de Tarr construirá imagens difíceis de esquecer e que darão conta de todo um universo impassível e em agonia. Contamos também com um texto de Fernando Mendonça, dividido em treze partes, sobre o inigualável, impossível e apocalíptico Sátántangó, obra de sete horas e meia de duração.

Temos aqui, neste número temporão, a estreia “oficial” do nosso novo membro, André Antônio. Agradecemos ao André pela confiança depositada no momento em que aceitou o convite para participar do nosso pequeno coletivo. É o mesmo agradecimento que, sinceramente, fazemos ao nosso ex-membro, Bruno Soares, que acreditou também na ideia, mas que, em certo momento, resolveu deixar o Filmologia. Também poderemos encontrar aqui, nesta nova edição, os últimos abecedários de Elinaldo Barros, sobre atores e atrizes nacionais. É quando o Filmologia abandona um pouco os velhos dados do bom e velho crítico alagoano à sorte de quem os tenha guardado na mente com a curiosidade necessária para procurar filmes e atores desconhecidos por aí. Numa outra pequena seção dentro deste número, lançamos olhares a partir de alguns filmes que foram aos cinemas em 2010. Não é uma lista dos melhores do ano passado, mas sim ideias sobre o que certos filmes do período carregam ou não dentro de si e que, pensamos, merecem um olhar mais delicado e cuidadoso a seu respeito.

Como sempre, só podemos desejar ao leitor uma boa leitura e que ele consiga embarcar na intensa experiência estética e humana de assistir aos filmes de Béla Tarr. Uma experiência, como nós do Filmologia podemos dizer, para o bem e para o mal, de fato bastante enriquecedora.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Janeiro / Fevereiro de 2011

Edição #03 (Vol. 2, N. 1)

> Béla Tarr

Artigos

Uma galáxia de loucurasRicardo Lessa Filho

Salvar o fracassoRanieri Brandão

Filmes

Hotel MagnezitRanieri Brandão

Family Nest Ricardo Lessa Filho

The OutsiderRicardo Lessa Filho

MacbethRanieri Brandão

The Prefab PeopleAndré Antônio

Almanaque de OutonoBruno Rafael

CondenaçãoTexto I (Ranieri Brandão) | Texto II (Nuno Balducci)

SátántangóFernando Mendonça

Journey on the Plain Ranieri Brandão

As Harmonias de WerckmeisterBruno Rafael

PrologueRicardo Lessa Filho

O Homem de LondresAndré Antônio

> A partir de um ano que passou por nós

A virtualidade das presenças: Toy Story 3, Tropa de Elite 2 e Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas PassadasRanieri Brandão

> Abecedários Elinaldo Barros

Atrizes brasileiras

Atores brasileiros