2011 Filmologia

Edição #04

Editorial

Em torno do sangue e do romance

Desde sempre estivemos mais ou menos driblando um problema que, cedo ou tarde, surgiria na vida da redação e, de modo geral, na vida de todo cinéfilo. Este problema, qual seja, assim se dá: como abordar uma vastidão. Esta não é uma pergunta, mas uma colocação. A vastidão aborda-se a partir de algum local específico. Agora sim, falemos numa pergunta: como adentrar na vastidão do cinema feito nos Estados Unidos? Nos perguntávamos frequentemente, há algum tempo, sobre por qual porta ou por qual janela queríamos sondar/aproximar nossas percepções sobre toda uma certa natureza de cinema. Em primeiro lugar, saiu uma frase, numa velha troca de e-mails, sobre entrar nesse mundo “pela porta dos fundos”. Em segundo, já consequência disso, era mister fugirmos, talvez por agora, por estreia nesse universo, de nomes já confirmados e debatidos há tempos. Claro, voltaremos a estes em algum outro momento, com a especificidade de nossos olhares, mas não por agora.

Não sabemos ao certo se nossa nova edição entra por aí (e nem se sai), por estas tais portas e janelas (locais a se debater com o cuidado da metáfora), mas é certo que, para dar uma boa olhada no cinema feito em Hollywood ou fora dela, ainda nos EUA, dois elementos talvez se tornem obrigatórios: romance e sangue. Efetivamente, para contrabalancear tudo o que já foi dito nas edições anteriores, escolhemos o sangue, a coisa mais explícita e escancarada, tão típica das narrativas norte-americanas, impossíveis de não se aproximarem demais dos objetos que filmam, às vezes mais até do que poderiam e deveriam. Escolhemos o sangue na forma mais material e física da palavra e do objeto, o sangue filmado, significado, estilizado, mitologizado, mas também escolhemos o romance, essa coisa transfigurativa. Eis aí uma parcela importante dessa cinematografia e do nome de Wes Craven, cineasta que inicia sua carreira no cinema nos anos 70, ali na geração da “nova Hollywood” de Scorsese, DePalma, Coppola, Lucas, mas aparentemente bem longe deles, mais marginal, menos esteta e formal, um nome menor que os filmes que faz.

Isto posto, inevitavelmente chegamos a pequenas obras seminais para a formação juvenil dos anos 70, 80 e 90. Aniversário Macabro, A Hora do Pesadelo e Pânico, por exemplo, são filmes que tocam fundo em determinados espaços bucólicos e mentais que supostamente até então eram inexplorados pela selvageria e violência explícitos. Nesses filmes, os locais virgens da sociedade norte-americana (as casas brancas de madeira no subúrbio, os lindos bosques do interior, os desertos engolindo as rodovias) são finalmente violados em favor da brutalidade, do desequilíbrio de direção e de encenação, das discordâncias diegéticas entre música e imagem, e de um poder imenso da loucura. Sob o signo do desconforto e de figuras (Freddy Krueger, Ghost Face) e imagens que se tornaram, com o passar do tempo, icônicas (coloque-se aí, a cabeça da velha mulher explodindo, em A Maldição de Samantha), chegamos, sem unanimidade interna, a Wes Craven, o homem que se divide entre a filmagem direta e honesta das formas e ideias e entre limites de absurdos tão grandes que em alguns casos seus filmes podem ser (e às vezes até devem ser) tomados por estúpidos e patéticos – e, de fato, o são, mas em diversos níveis e atendendo à mesma diversidade de discursos. Essa é também uma natureza do cinema de Hollywood e de seus becos e estúdios.

De certo modo, aproveitamos o lançamento de Pânico 4 nas salas de exibição, que acontecerá agora em abril, para publicarmos um especial decerto bem oportuno. Aqui está uma espécie de guia por dentro dessa filmografia complicada e em alguns momentos bem torta, mas sempre sincera. Nesta edição, temos novamente a estreia “oficial” de um novo membro, o Rodrigo Almeida, de Recife – PE. Sua chegada na equipe nos fez repensar, com um misto de alegria e tristeza, nosso (já velho) projeto de edificar uma crítica em e para Maceió, projeto que, como vimos nesses primeiros meses de existência, parece ainda inalcançável, já que as conversas e pedidos mais interessantes e os e-mails mais preciosos (elogiosos ou não) vêm de outras regiões do nordeste ou do sul. A alegria se dá porque sabemos que de alguma forma estamos ampliando o debate ou as observações não só aqui no nordeste, como inicialmente queríamos, por notar certa anemia nesse sentido, mas em outros locais mais longes geograficamente de nós.

Ingressemos então nesta edição, a mais longa de todas as que já fizemos. Nela, sem dúvida alguma, todos nós da equipe, em acordo ou desacordo com o cinema de Wes Craven, estivemos irrepreensivelmente em torno do sangue e do romance, esses signos maiores, ambos criminosos e hipnotizantes, que unem desde sempre a cinefilia e o gosto pelo cinema.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Março / Abril de 2011

Edição #04 (Vol. 2, N. 2)

> Wes Craven

Artigos

Sobrenome: subversão ou o romântico do horrorRicardo Lessa Filho

O silenciar da almaFernando Mendonça

Formar um povoRanieri Brandão

Os melhores segundo (parte d)a equipe

Filmes

Aniversário MacabroRodrigo Almeida

Quadrilha de SádicosFernando Mendonça

Stranger in Our HouseRicardo Lessa Filho

The Evolution of SnuffAndré Antônio

Benção MortalRanieri Brandão

O Monstro do PântanoAndré Antônio

Convite para o InfernoRanieri Brandão

A Hora do PesadeloAndré Antônio

Chiller – Um Frio Corpo sem Alma Fernando Mendonça

Quadrilha de Sádicos 2 Bruno Rafael

CasebustersRanieri Brandão

A Maldição de SamanthaRanieri Brandão

The Twilight Zone (7 episódios)Ranieri Brandão

A Maldição dos Mortos-VivosBruno Rafael

Shocker – 100.000 Volts de TerrorRicardo Lessa Filho

As Criaturas Atrás das ParedesBruno Rafael

Nightmare Cafe (6 episódios) Fernando Mendonça

Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy KruegerRanieri Brandão

Um Vampiro no BrooklynRanieri Brandão

PânicoAndré Antônio

Pânico 2Rodrigo Almeida

Música do Coração Ricardo Lessa Filho

Pânico 3Fernando Mendonça

AmaldiçoadosRodrigo Almeida

Vôo NoturnoRicardo Lessa Filho

Père-Lachaise (segmento de Paris Je T’aime)Rodrigo Almeida

A Sétima AlmaAndré Antônio

Pânico 4 – Filme em foco especial