2011 Filmologia

Edição #05

Editorial

O Feminino

Já se tornou lugar-comum iniciarmos nossos editoriais com alguma referência ao passado de nossas ideias. Referimo-nos, certamente, à suas antiguidades, o que, em se tratando delas mesmas, das ideias e de suas “velhas idades”, constrói um olhar em perspectiva que afinal representa muito bem a nossa própria ansiedade em realizar determinados desejos que se firmaram há tempos. É um “tornar-se matéria” das vontades que, como se pode ver na presente edição, será algo finalmente realizado. Então, temos isso: “uma edição feminina do Filmologia”. Coisa velha, ideia das mais procuradas internamente desde o início. Mas é necessário realizar uma edição sobre o olhar de uma mulher, olhar de mulher e não só sobre o cinema de uma mulher. Não é esse o caso.

É preciso dizer que houve, de fato quase literal, uma verdadeira batalha em nossa redação no momento em que fomos escolher essa mulher e o olhar específico que queríamos representar aqui nesse novo número. De alguma forma, busca-se um signo, um simbolo feminino, uma busca fácil no que toca ao Feminino no cinema: já conhecemos classicamente esta imagem em Marilyn, Gardner, Grahame, Hepburn, Huppert, Bardot, Deneuve… Mas queríamos uma outra imagem. Diremos que “árdua” é uma palavra que talvez não dê tanta conta do que foi essa complexa escolha que se desdobrou em turnos e numa elaborada forma de desempate – pois houveram inacreditáveis empates parciais. Era preciso, sobretudo, procurar um olhar feminino sobre o mundo. Isso é certo: faz parte do desejo de tocar tal cinema. Mas era preciso também reencontrar, hoje, imagens da feminilidade, produzidas por ela mesma, imagens que, ao contrário do que se pensa, são menos frágeis do que chocantes em sua beleza fruída pela técnica, por uma certa lógica da montagem. Flertamos com certos nomes que ficarão guardados para uma próxima oportunidade, sem dúvida. Mas escolhemos um.

Então, firmemos um pacto com o leitor: diferente da longa e trabalhosa (mas deliciosa) tarefa de cobrir uma filmografia gigantesca como a de Wes Craven, no número anterior, votemos e constituamos uma espécie de edição que seja “consumida” rapidamente não só por nós, no ato de elaborá-la e pensá-la, mas sobretudo pelos leitores, no ato da descoberta e da discordância: é sobre uma curta filmografia que vamos falar aqui, entretanto cheia de significados e imagens marcantes; filmografia (novamente, como na maioria dos outros números) sem desvios de si mesma, repleta de um “fazer cinema” que, à altura de seu surgimento, representava, de alguma forma, qualquer coisa como uma vanguarda marginal, uma certa afronta às imagens de uma década em especial da indústria hollywoodiana, a dos anos 1940; mas não só isso: queríamos uma filmografia que colocasse a mulher (seu corpo, sua sensibilidade, sua duração) em quadro. O que fizemos, então? Escolhemos Eleanora Derenkowskaya, mais conhecida como Maya Deren, ucraniana que muda cedo para os Estados Unidos e que lá realizará quase todos os seus filmes.

Cineasta que tem sua escrita e olhar bastante particulares, que tem uma obra composta de sete curtas e um média-metragem, e uma coerência que realmente impressiona no que toca à superfície de seus filmes. Filmes que se fazem sempre no ato de distorcer os tempos, de reencontrar objetos e corpos quase que inconscientemente, num grande (e estranho?) ato de torná-los símbolos. É a presença desse “tempo-corpo”, “corpo-no-tempo”, que vai chamar nossa atenção no que toca ao grande desejo que tivemos de capturar, na pequena extensão de um breve número como este, um “olhar feminino”. O cinema de Maya Deren nos deixa tudo em claro. Ele une tudo o que tentamos procurar e propor aqui, ao passo que versa especialmente sobre um tempo: tempo de restituição feminina, que dará conta também de colocar em exposição o “horror” conforme é enxergado pelo olhar feminino. Algo que, às vezes, somente uma mulher pode nos dizer, nos mostrar e nos fazer entender.

Porque o que vamos ver em At Land (1944) e em Ritual in Transfigured Time (1946), para ficarmos em apenas dois filmes “sobre mulheres” de Deren, é na verdade uma busca por uma espécie de Feminino absoluto (aquilo que pode causar paixão e também desespero), que talvez passe por um certo “demonismo” ou “paganismo” regidos pela lógica dos sonhos e que provavelmente é encontrado nos espelhos que povoam o cinema de Deren. Busca que não acontece facilmente para suas protagonistas. Haverá sempre o efeito da técnica e o símbolo. A mulher dereniana deve vencer o primeiro para se tornar o segundo, imagem-total, transcendente, material e imaterial. Há maior imagem da restituição do Feminino do que aquelas que habitam e constroem tais filmes de Maya Deren? Não se sabe. Mas é certo que Deren constitui o que buscamos nesse exato momento, aquilo que está entre o amor à técnica que constrói seus sentidos e a fuga, por parte de suas protagonistas sem nome, justamente da tortura essencialmente criada pelas ferramentas da montagem.

Restituir o Feminino através da liberdade dos corpos das atrizes é uma grande batalha diabólica contra a narrativa, que aqui sempre existirá tortamente, misticamente. Essa é uma batalha que quisemos abraçar, para poder observar, raciocinar, sentir, desgostar. E essa é uma edição realmente especial. Nela, podemos dizer que, além de contarmos com todas as intimidades dos olhares corriqueiramente lançados por aqui, contamos também com uma espetacular “participação” da própria Deren. Participação que acontece através de seus poemas, que foram traduzidos especialmente para esse número por Fernando Mendonça – e aqui o autor das traduções pede para que entendamos que ele não é um profissional dessa área e que tal trabalho consiste numa primeira e (para ele) arriscada experiência que resolveu encarar. Com isso, com esse breve e profundo contato que tivemos com a face e com a ideia de cinema de uma mulher, nossa edição começa agora.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Maio / Junho de 2011

Edição #05 (Vol. 2, N. 3)

> Maya Deren

Artigos

Notas sobre a temporalidade do espelhoAndré Antônio

Um pretenso experimento tão-só meu…Bruno Rafael

Tempos de um realismo particularRanieri Brandão

A montagem e a locomoção – Ricardo Lessa Filho

Declaração – Fernando Mendonça

Poéticas – Maya Deren

Filmes

Meshes of the AfternoonNuno Balducci

Witch’s CradleRodrigo Almeida

At Land – Ranieri Brandão

A Study in Choreography for Camera Fernando Mendonça

Ritual in Transfigured Time André Antônio

Meditation on Violence – Ricardo Lessa Filho

The Very Eye of Night – Bruno Rafael

Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti – Ranieri Brandão