2011 Filmologia

Edição #06

Editorial

Amor e fantasmagoria

Estamos atrasados: quando nos demos conta, o dia 21 de junho havia passado enquanto nossos olhos, por motivos alheios a nós mesmos, permaneciam fechados. O Filmologia fazia ali seu primeiro aniversário, não alardeado nem comemorado e nem sequer mencionado em nossas páginas. Quando resolvemos empreender essa ideia – ainda hoje, podemos dizer, arriscada e apaixonante –, jamais pensamos no quanto é difícil assumir e reassumir dia-a-dia, mês-a-mês uma posição algo política que, desde o começo, tentamos manter: não privilegiar os mesmos nomes e não dedicar atenções especiais somente a cineastas cujas linhas de pensamento se entrelaçam em golpes de igualdade e em definições de “bom ou mau gosto”. Gostamos, basicamente, da discrepância, do exagero na quebra das edições e de ideias, de uma certa pluralidade que não pensa em estabelecer limites. É isso o que nos cobra uma atenção quase doentia na escolha de nomes e temas a serem abordados dentro dessa linha de não adotar ninguém fora do tempo de exposição de um novo número, embora nossos corações sempre prefiram certas coisas à outras. É da natureza das emoções, transformar, todas elas, em contradição. Se nesse primeiro ano passamos por emoções diversas, de Kaurismäki, Teshigahara, Khouri, Tarr, Craven e Deren, estes cinemas de presenças e de figuras que encaram sua existência material em níveis de percepção bem peculiares, então é hora de nos voltarmos, literalmente, para o mundo dos espectros, para a presença de reminiscências, para o que sobra do signo e do referente. Precisamos tocar o amor.

O leitor já deve ter percebido há algum tempo que ao cinema, esta arte de fantasmas e restos mortais que vivem sempre no presente, escapa qualquer noção de totalidade. É impossível para ele acompanhar todos os atos e todos os registros humanos sem que haja, em seu interior, momentos de profundo silêncio ou de profundo sono, e de rupturas necessárias entre as imagens que precisam de séculos para se apagar em nossas memórias e em seus depositários brancos de película ou papel. O cinema só acompanharia tudo integralmente se a ele fosse revelado o nome do pai de Deus, e aí reside também um segredo que a razão desconhece. Quando ao cinema é dada a capacidade de perceber o seu direito ao sono, o seu respeito à vida, estado de coisas que só podem ser filmadas aos pedaços em segmentos e por olhares estilhaçados, ele então se torna independente, íntegro e passará a registrar a presença de seus atores, presenças na vida (porque o cinema é a arte de se saber vivo ou morto), e não só as intenções de sua representação. Presenças que caminham, como tudo, para seu fim inevitável no término do filme ou da vida. Aquele fim que, sabemos, só pode se dar na transformação de um corpo na vida em um fantasma de cinema. É isso o que mais ou menos fomos obrigados a descobrir ao escolher e confeccionar este nosso presente número, que carrega algumas observações a respeito de um cinema que sabe o estrago que faz ao roubar os instantâneos da vida humana e revelá-los a partir de recortes e de representações em anteparos de um esbranquiçamento essencial para a projeção. Um cinema que, em seu íntimo, o mesmo de seu criador, sabe-se um tanto criminoso. O cinema de Philippe Garrel.

Daí as elipses, daí o tom constante de autobiografia, daí as deambulações presentes como temas dessa edição, talvez as únicas coisas que o cinema consiga representar muito bem, porque todas elas, buracos e isolamentos em suma, são filhos do sonho ou do desmaio, ensaios da morte, filhos do que há de belo e negro na individualidade misteriosa desse Universo que passeia e se expande para além da mente. Aqui, talvez tenhamos que falar bastante em rasgos de narrativa e em ausências (mais de eventos do que de figuras, que na verdade giram em torno dessa “falta”, dessa incompletude), porque, de algum modo – ou de todos os modos –, os filmes de Philippe Garrel, melancólicos, erráticos, suicidas e donos de uma doçura e ternura brutais, são um inventário de presenças que se vão e de eventos que só existem como linha de força (e não como imagem) a capturar sobretudo emoções que retornam a um determinado ponto vivo-mas-passado, sobrevivente ao presente, de onde emanam – mas não escapam – centros dramáticos e traumáticos os mais variados em seus pequenos detalhes. Detalhes que serão sempre os mesmos em seus motivos: o amor, com o poder de sua pureza inconsequente e inconsciente, é aquilo que governará todos os movimentos de câmera e dos atores.

Porque, no decorrer de nossos contatos íntimos – o que gera sempre saudáveis olhares distintos – com o cinema de Garrel, pudemos enxergar segredos que, como o próprio cineasta chegou a afirmar numa entrevista, são revelados com um senso e uma clareza de destruição do amor e da vida muito diretos, porque ambas as coisas são incompreensíveis. Tais segredos, em Garrel, estão todos ligados aos primórdios das imagens de intimidade, locais onde nem sempre a luz consegue tocar com firmeza – ela surge sempre em quantidade insuficiente ou demasiado excessiva – para nos evidenciar o que se passa. Pois é na intimidade, na autobiografia, nos momentos em que a película se torna página de diário, nos delírios de suavidade e de tristeza, nos registros e nas capacidades de revelação da luz e da sombra através da impressão em filme, que para Garrel nasce o amor, força gravitacional que, em paralelo, é precisamente aquilo com o que podemos nos munir para representar a incompletude dos abismos e a vastidão do Invisível que nos influencia.

Com esta representação específica do amor é que perceberemos a “radicalidade” com a qual filmes como La Cicatrice Interieure (1972) e Le Bleu des Origines (1979) se movimentam para registrar o tempo e uma certa predominância das figuras femininas que povoam todo o imaginário do cinema de Garrel ao longo de suas “fases”, uma mais “experimental”, outra – já recente – mais “narrativa”; ou como os personagens de La Naissance de l’amour (1993) e Le Coeur Fantôme (1996) pairam como se fossem reminiscências de seus próprios corpos lançados na vida sem piedade alguma pela violência desses eventos compostos por rupturas amorosas, eventos que Garrel faz serem imanentes e centrais às suas esqueléticas narrativas cheias de blocos de imagens, intercalando-se e completando-se nessas flutuações de tempo e de instantes.

É aí, caro leitor, que nos aproximamos do cinema de Philippe Garrel para aprender a amá-lo ou a não conseguir se envolver com ele em todas as suas dificuldades, seus tormentos, seus pesos e levezas, seus empecilhos, suas digressões, seus tempos presentes impossíveis de serem driblados, seus centros de problemas para eles mesmos infilmáveis mas que, no entanto, ainda que graficamente invisíveis, regem seus próprios mundos com uma força de gravidade incrível, que só acha igual, entre todas as coisas que conhecemos na natureza, na força de aglutinação que possui o amor e, claro, os buracos negros nas inacreditáveis e intocáveis regiões escuras do Espaço Sideral.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Julho / Agosto de 2011

Edição #06 (Vol. 2, N. 4)

> Philippe Garrel

Artigos

Uma história das presençasRanieri Brandão

O axioma enigmático – Ricardo Lessa Filho

A última geração do amor - Fernando Mendonça

Viagem ao coração de um cinema

Filmes

Les Enfants DésaccordésAndré Antônio

Marie pour MémoireRicardo Lessa Filho

Le Révélateur Rodrigo Almeida

AnémoneRanieri Brandão

Le Lit de la Vierge Fernando Mendonça

La Cicatrice Intérieure André Antônio

Les Hautes Solitudes Ranieri Brandão

Un Ange PasseFernando Mendonça

Le Berceau de Cristal André Antônio

L’Enfant SecretNuno Balducci

Le Bleu des OriginesRodrigo Almeida

Liberté, La Nuit – Ranieri Brandão

La Rue FontaineRicardo Lessa Filho

Elle a passé tants d’heures sous les Sunlights…Ranieri Brandão

Les Baisers de Secours Fernando Mendonça

J’Entends plus la GuitareRicardo Lessa Filho

La Naissance de l’amourRodrigo Almeida

Le Coeur FantômeAndré Antônio

Le Vent de la NuitRanieri Brandão

Sauvage InnocenceFernando Mendonça

Les Amants RéguliersRicardo Lessa Filho

La Frontiére de l’aubeRodrigo Almeida

Un Été Brûlant – André Antônio