2011 Filmologia

Edição #07

Editorial

Outras direções

O único ponto de contato com formas humanas reconhecíveis em Wall-E (2008), de Andrew Stanton, se dava sobretudo no espanto criado ao se perceber que a raça humana transformara-se, catastroficamente, numa massa de carne instituída por membros atrofiados. Mas o horror mesmo provinha do contrário: o que hipertrofiava ali era o volume, o peso do corpo dos seres humanos que precariamente habitavam o filme. Partia, portanto, de uma extrema violência cartoonesca a tomada de consciência que Stanton contava sem rodeios: desaprendemos a nos mover. Tocávamos as formas humanoides senão pela mediação (“o espanto”) dessa surpresa nefasta que se antecipava, e que nos impedia de enxergar diretamente as nossas representações, mais imóveis do que os ágeis robôs do filme, os “verdadeiros heróis” daquela espécie de pós-História. Ser humano era, então, ser um outro.

Pertencem a essa natureza, talvez, o inchaço e a estafa que de algum modo entregam a edição que o leitor tem agora disponível. Ela é movida à necessidade de tornar exata a sua localização na tenra procura pela sobrevivência fora dos excessos e dos números gigantes. Pois esse parece ser ao mesmo tempo o bem e o mal da geração de cinéfilos a qual fazemos parte: todos os filmes estão disponíveis. Com isso, para a sobrevivência da cinefilia, é preciso saber fugir dos filmes quando necessário – de todos eles, pelo lógico ou pelo inverso dos caminhos. E é preciso, por outro lado, fazer existir a possibilidade de rever. O amor, aquele suposto autêntico, surgido pela ação da distância, subcutâneo, “icomaníaco”, aquele que cultivamos pelos filmes e corpos de atores que os constituem, não nasce dessa hipertrofia dos olhos, do contato ininterrupto com todas as obras da humanidade. Ele surge talvez do contato obsessivo e pausado com os mesmos filmes, essas formas infinitas.

É sob o signo da saturação, da velocidade de informações e de filmes que chegam até nós 32 horas por dia que provavelmente enxergamos e construímos essa edição, como uma pequena afronta a tudo isso, tecida em aparente tranquilidade, em números pequenos e em lentidão. Já fomos, nos últimos anos, bombardeados pelas milhões de imagens ao nosso redor, fomos vítimas de uma Hiroshima cinematográfica, catástrofe atômica e autofágica, decerto movida por noções quantitativas, que adoecem a memória e os afetos, retirando-lhes certos sentimentos e jogando-os em espaços que não cumprem a promessa de serem vistos. Por isso, por essa perda de ideias jogadas nos borrões intocáveis da velocidade, temos já um comportamento explícito: quando saímos de um número como foi o anterior, sentimos o peso que nos interrompe o fôlego e que nos faz reavaliar a função de ver tantos filmes, de se deter brevemente e sem volume de tempo em infindáveis imagens diversas compostas por frações de inexatos milissegundos.

Por que então, embriagados de velocidade, não podemos utilizar como antídoto ao desgaste cerebral e de retina causados pela fricção constante com as imagens, o estacionamento e a estagnação sobre uma figura, apenas? Sobre um filme, apenas? Sobre uma cena, apenas? Sobre um ator, apenas? Por que não nos libertarmos da “prisão” do autor? Por que não substituir o rosto desse autor, na capa da edição, pelo poder de uma única imagem iconográfica, índice por excelência de sua única obra? Por que não olharmos com atenção Charles Laughton como ator, e Charles Laughton como diretor de um único filme, o pesadelo arquitetado por uma iluminação nada secreta, chamado O Mensageiro do Diabo (1955)? É disso que nosso presente número se alimenta e trata, de uma pausa no ritmo, de uma pausa nas muitas imagens dos muitos filmes, de uma retenção necessária à cinefilia, voltando-se à observação atenta de nossos ícones e dos movimentos que eles realizaram com seus corpos. É então neste pequeno intervalo que tocamos pela primeira vez o cinema norte-americano clássico nas páginas de nossas edições, através do desequilíbrio, da estranheza onírica e da objetividade macabra do filme de Laughton.

Não deixa de ser um fato curioso que logo neste número “curto”, neste “importante intervalo” que tentamos desenhar, encontramos tantas dificuldades e empecilhos para entregá-lo no prazo que estabelecemos, e que, com isso, tenhamos estourado totalmente (em um mês!), pouco-a-pouco, dia-a-dia, stress a stress os novos limites que estipulávamos, o que nos faz pensar no quanto tocar uma unidade mínima é algo de fato bastante complicado e também em como esse atraso parece emoldurar a calma natural que pretende-se transmitir com a nossa pauta. Aqui tentamos marcar uma nova época e novos direcionamentos editoriais para o Filmologia. Mais abertos, mais respirantes, mas ainda tradicionais no que diz respeito ao funcionamento clássico de uma revista de cinema. É aqui onde reabastecemos nossos olhares com cuidado e afeto, onde temos um espaço para a libertação das obrigações do tempo e do mercado, coisas que existem até no meio da “crítica independente”. É aqui o local onde cremos ser possível exercitar a calma do olhar que retém e o reaprendizado do ato de amar o cinema através de um único filme qualquer, filme-catalizador, filme-mundo.

Ranieri Brandão

Setembro / Outubro de 2011

Edição #07 (Vol. 2, N. 5)

> Um homem, um filme

Artigos

Do filme solitárioUm texto à seis mãos


O Mensageiro do Diabo

O Outro Lado da Porta - Fernando Mendonça


Deus, os cordeiros e o loboRicardo Lessa Filho


O diabo está lá fora - Rodrigo Almeida


CalcificaçãoRanieri Brandão


Cena em quadro

Charles Laughton

Sob a luz da ausência – e também da retórica – Ricardo Lessa Filho

(Ser) Apenas Um Corpo – Fernando Mendonça

Rostos isolados ou três contatos com Charles Laughton – Ranieri Brandão