2011 Filmologia

Edição #08

Editorial

Overdose

O mundo, quando filtrado pela primeira vez através de olhos de criança, talvez seja primitivamente diagnosticado, por algum tipo ainda puro de semi-inconsciência, como peça de dimensões homéricas, de mitos impronunciáveis e difíceis de apre(e)nder. Há muito para se ver, ao mesmo tempo em que há ainda muito a se negar pelas vias da dilapidação. A matéria-prima que compõe o planeta e as imagens de cinema que o fazem ter duas vezes o seu peso original surgem então num esplendor cegante, que só pode ser visto naquela fase em que, ainda bebês, enxergamos um mundo turvo e em preto e branco. De alguma forma, a sede de informações torna-se ainda maior pela ansiedade da falta de definição, pelo foco jovem demais – por enquanto desajustado e sem linguagem –, vivo mas aparentemente mudo. Forma-se aí a natureza da overdose, da experiência transcendental: uma viagem solitária, hiperbólica, que, se alcançada pela morte ou pela vida consciente, torna-se impossível de ser comunicada, de ser posta como vivência crucial, ali onde não se interdita nada, onde sorve-se tudo – tudo até demais – na luta pelo relato deslumbrante e assustador de uma viagem lisérgica e estranha por entre imagens irrepetíveis da existência e da destruição.

Ora, esta é uma edição há muito planejada, leitor. É como se tivéssemos arquitetado, com antecedência demoníaca, uma alegre data específica para nossa overdose proposital, para nosso retorno algo improvável às imagens que compuseram e transtornaram a tênue linha de paz, estabilidade e calmaria que vivíamos na infância. Junto a isso, chega-se também à “missão” complexa de comunicar determinadas experiências que tais imagens souberam destacar em nós quando crianças ou até mesmo agora, no final de 2011 / começo de 2012, nos registros de nossas vidas atuais. Reminiscências, permanências, intelectualizações. Nosso extrapolamento aqui presente, ainda que a princípio “espontaneizado” somente a partir do ato de revisão dispensado a todos estes filmes decepados e reagrupados pela rememoração afetiva e intelectual, é um perigo consentido e até mesmo desejado. De algum modo, tocando a ideia inicial de cobrir o maior número de filmes das velhas sessões de cinema da TV – Sessão da Tarde, na Globo, e Cinema em Casa, no SBT, em especial; mas também algumas outras e certamente as insuperáveis exibições em VHS – que dominavam as tardes (e noites) dos anos 90, talvez nos direcionemos contra nosso último editorial (mas talvez não: quase todos os filmes abordados vivem a sua própria unidade de filme isolado da noção de “obra”), desejando atingir aqui um esgotamento e uma hemorragia mortais que, acreditamos, é essencial para compreensão do fenômeno profundo que essas imagens projetadas e gravadas em nossas TV’s causaram a título de trauma – quando a palavra “cinefilia” nada significava – em nossos primeiros contatos com o mundo através da representação.

Movidos por essa força extrema, por esse ritmo de “dossiê inchado” da infância e de seu arquivamento em textos os mais variados possíveis, as cores chegam pela primeira vez às capas do Filmologia. Não deixa de ser curioso observar que a chegada da policromia, nos olhos infantis, parece representar, por alguma via obscura e melancólica, uma certa perda da inocência, um marco do início de um extravio. Foi assim, pois, que precisamos atravessar um certo processo de amadurecimento para chegarmos a esta edição com o fôlego e a responsabilidade necessários. Olhamos para estes filmes tão icônicos para nós no momento em que ficamos mais “velhos” individualmente e como grupo, quando o Filmologia, em sua formação original, começa a morrer para se renovar, como se costuma acreditar a respeito de um ano que passa e de mais um Natal (época das luzes, das cores) que falece no renascimento de Cristo. Aqui atestamos a saída de nossas páginas dos membros Nuno Balducci e Bruno Rafael, e recebemos entre nós Pedro Neves, nosso novo colaborador. Continuamos nossas atividades agora nos permitindo certas atitudes mais “adultas”, provenientes desse certo amadurecer enquanto equipe: a partir desta edição, nossos números passam ser a trimestrais e mais lentos, algo que desejamos e pedimos ao menos desde Philippe Garrel.

Por isso, é mister nos arriscarmos. Preparamos aqui um itinerário longo, um caminho robusto de olhares e de pequenas seções que compõem esse número traçado por graves (ou não) cristalizações de memórias. Porque é disso mesmo que se trata: de eleger imagens de recordações, de representações, de um debruçar-se atento e ao mesmo tempo carinhoso sobre elas. Então, não é de se espantar que tenhamos elegido, como filme-farol e como objeto afetivo que restitui a nós toda a angústia frente à impossibilidade de vencer a nostalgia e o mundo, o Conta Comigo (1986) de Rob Reiner, que figura um Filme em foco especial com textos de todos os membros. E, para completar, que tenhamos colocado John Hughes na posição de um verdadeiro artesão dessa estética que tomou conta de determinada imagem definitiva dos filmes “saudáveis” que víamos, dedicando ao cineasta um pequeno olhar dentro desse olhar mais amplo sobre obras desconexadas e desmembradas que tentamos descrever aqui. No meio de tudo isso, contamos ainda com mais uma novidade: listas individuais dos filmes que mexeram positivamente conosco em 2011.

É portanto neste número que a angústia persiste na alegria do questionamento a respeito de como podemos reencontrar um olhar antigo, ou, mais ainda, sobre como podemos reencontrar a cegueira primordial, a grande clarividência. Como voltar a algumas impressões concretizadas da infância sem pervertê-la? Como a infância pode ser revivida em nós, agora que já vimos demais? Sabemos que um cinéfilo carrega sua identidade dentro de olhos transfigurados em corações insones. Então voltemos à infância desde órgão, voltemos às imagens que o desvirginaram para sempre. Voltemos às imagens que parecem dizer, afinal, com ou sem exagero, tudo ou quase tudo sobre quem nós hoje somos. Bom novo ano a todos.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Novembro – Dezembro de 2011 / Janeiro de 2012

Edição #08 (Vol. 2, N. 6)

> Infância

Conta Comigo e os focos

Por Alguma VerdadeFernando Mendonça

A caminho do descobrimentoRicardo Lessa Filho

Jurando de mindinhoRodrigo Almeida

O último dia de juventudeRanieri Brandão

Elegia da infânciaPedro Neves

A nostalgia e o mitoAndré Antônio

Especial John Hughes

Apresentação

Clube dos CincoRodrigo Almeida

Mulher Nota MilRanieri Brandão

Curtindo a Vida AdoidadoFernando Mendonça

Antes Só Do Que Mal AcompanhadoRicardo Lessa Filho

A MalandrinhaRanieri Brandão

A Garota de Rosa-ShockingPedro Neves

Esqueceram de MimFernando Mendonça

Artigos

O Melhor da JuventudeRicardo Lessa Filho

Como encenar a morte?Ranieri Brandão

Filmes – Lado A

Deu a Louca nos MonstrosRicardo Lessa Filho

A FortalezaRodrigo Almeida

O Garoto que Podia VoarFernando Mendonça

Manequim – A Magia do Amor – Ranieri Brandão

A Princesinha / MatildaPedro Neves

As Patricinhas de Beverly HillsAndré Antônio

História Sem FimRanieri Brandão

Brinquedo AssassinoFernando Mendonça

Quero Ser GrandeRicardo Lessa Filho

Batman & RobinAndré Antônio

De Volta para o Futuro I, II e IIIRanieri Brandão

A Pequena SereiaPedro Neves

Os GooniesRicardo Lessa Filho

AracnofobiaRodrigo Almeida

Os Heróis Não Têm IdadeRanieri Brandão

GremlinsFernando Mendonça

Enchente – Quem Salvará Nossos Filhos?Rodrigo Almeida

O Grande Dragão BrancoRanieri Brandão

A Árvore dos SonhosPedro Neves

Férias FrustradasRicardo Lessa Filho

Jurassic ParkRodrigo Almeida

Eu Vi o Que Você Fez, Eu Sei Quem Você ÉFernando Mendonça

La BambaRicardo Lessa Filho

A Bolha AssassinaRanieri Brandão

Uma Cilada para Roger RabbitPedro Neves

Filmes – Lado B

A Família Addams I e IIAndré Antônio

Top Gun – Ases IndomáveisFernando Mendonça

Viagem InsólitaRanieri Brandão

Corra Que a Polícia Vem AíRicardo Lessa Filho

Querida, Encolhi as CriançasRodrigo Almeida

A CoisaFernando Mendonça

Uma Escola AtrapalhadaRanieri Brandão

O Pestinha IIRanieri Brandão

O Monstro do ArmárioRicardo Lessa Filho

Porkys I, II e IIIFernando Mendonça

FlashdanceRanieri Brandão

Christine – O Carro AssassinoAndré Antônio

Quem é Essa Garota?Pedro Neves

Edward – Mãos de TesouraFernando Mendonça

Caçadores de EmoçãoRanieri Brandão

Difícil de MatarRicardo Lessa Filho

A Inocência do Primeiro AmorRanieri Brandão

Velocidade MáximaFernando Mendonça

Os Estragos de Sábado à NoiteRicardo Lessa Filho

Caravana da CoragemRanieri Brandão

Meia Noite e Um Ranieri Brandão

Karatê KidRicardo Lessa Filho

A Lagoa AzulFernando Mendonça

> Um ano, alguns filmes

2011, recortes