2012 Filmologia

Edição #10

Editorial

O Grau Zero da Cinefilia

Ainda me lembro da ocasião em que, num diálogo com o amigo e editor Ranieri, soube de um leitor que escrevera para comentar alguns aspectos deste nosso site, elogiando, apontando equívocos, sugerindo alterações em detalhes de forma e conteúdo. No meio da conversa, o leitor abordara o design do Filmologia, os espaços brancos, vazios, a economia de cor. E numa recomendação bastante sincera, ele declarou o que até hoje me parece a melhor descrição deste espaço: pediu para tomarmos cuidado com o layout e a disposição de tudo, pois do jeito que estava, o Filmologia mais parecia um site de poesia — mais do que de cinema, ele quis dizer. Completando nesta edição a marca de 2 anos em atividade ininterrupta (algo que nos parecia inalcançável), insistimos em não abandonar o perspicaz comentário daquele leitor. Pois nada nos define melhor: o Filmologia é um site de poesia.

É com o cuidado do verso que nos aproximamos do cinema. Com a certeza de que nas imagens que amamos pulsa uma poética responsável pelo que nos leva a discutir, refletir, perpetuar tudo o que vemos e ouvimos nas sessões compartilhadas. Nossa postura crítica, que vai muito além do exercício da escrita avaliativa, fundamenta-se na certeza de que os filmes, quaisquer que sejam, não nos pedem uma explicação, um juízo de certo/errado ou a aplicação de fórmulas que os desgastem e esvaziem — tornando-os pratos frios servidos em bandeja, como ilustrava Bazin. Vivemos os filmes nas letras porque ouvimos neles um pedido de permanência, de continuidade ao que proporcionaram nas telas; escrevemos sobre eles, os revivemos na procura da imagem síntese (procedimento que já é marca das páginas do Filmologia, pois não só de textos vive a crítica) porque acreditamos numa cinefilia que não se encerra ao fim de uma projeção, ao término de um download.

Visando este prolongamento do olhar e da compreensão poética que habita o cinema, dedicamos à edição atual um reflexo da alegria que nos toma pelo aniversário de dois anos: pela primeira vez, lapidamos um Especial que homenageia dois autores, coincidentemente (mas propositalmente), ambos donos de carreiras no Cinema e na Literatura, irmãos na Imagem e no Verbo. Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, expoentes do estilo literário (Nouveau Roman) que mais longe foi no diálogo com o cinematográfico, dentro do século passado, preenchem a nova edição do Filmologia com o deslumbre de seus cinemas, seus filmes que assumem, diante do mundo e da própria linguagem audiovisual, um estranhamento muito particular, muito pautado pela busca do ‘novo’. Não falamos aqui de um certo cinema literário, ou mesmo um cinema francês; o que encontramos é justamente a motivação que fez no movimento do Novo Romance um fôlego de inventividade para a representação humana. Como bem demarcou Robbe-Grillet em sua publicação de Por Um Novo Romance — compilação de textos que situava sua literatura e a de seus amigos não como fruto de uma escola, de uma cartilha, mas produto e sintoma de um tempo que ansiava pela novidade, pelo renovo das formas: “O romance [e aí acrescentamos o cinema], desde que existe, foi sempre novo.”

Eis a novidade que perseguimos. Este fascínio quase infantil que faz Robbe-Grillet e Duras ‘brincarem’ com o cinema, montando e remontando filmes, desdobrando as imagens em camadas abissais, revirando toda uma ética e política da expressão a favor da liberdade que nos reconecta a um estado primário das coisas, cada vez que experimentamos ou voltamos a uma de suas obras. Inspirados pela declaração de Duras sobre a procura de um estado primitivo da linguagem, junto às câmeras, o desejo por uma espécie de grau zero do cinema (este grau zero da écriture barthesiana), comemoramos nosso aniversário sob o compromisso de continuar fazendo do Filmologia um encontro de vozes, nossas, dos autores refletidos, e de vocês, que leem e justificam o nosso esforço.

Conscientes do atraso (de exato um mês) em nossa edição, esperamos compensar a espera com um trabalho que mais uma vez envolvemos de afeto, feito em dias e horas que sempre vem desafiar o tempo preciso do pensamento, este mesmo que a poesia abraça. Ampliamos o escopo, ainda, com a feliz abertura aqui iniciada pelos ‘Extracampos’, pauta alternativa, sobre temas e filmes diversos, não vinculados ao rotineiro núcleo editorial, e assinada por autores que não compõem a equipe fixa do Filmologia. Os cinco textos agrupados ao fim de nosso presente sumário iniciam um histórico de colaborações que, esperamos, se prolongue e alargue o nosso olhar. A partir daqui, contaremos sempre ao lançamento das edições, com este espaço reservado, quem sabe à espera de sua própria colaboração, leitor, que de repente se interessa em participar do Filmologia de uma forma mais direta, e não sabia como fazê-lo. Não se acanhe em nos procurar, seja para opinar, corrigir, sugerir, ou simplesmente dizer que existe e lê conosco. O cinema, que é feito de muitas vozes no tempo e no espaço, guarda semelhança com a poesia e a crítica porque, segundo Otávio paz, estas nos revelam a ‘outra voz’. É isso o que desejamos aqui. Fazer do Filmologia não apenas o nosso lugar, mas o lugar do Outro, do Novo que nos espera sempre. Vamos a eles, então.

Fernando Mendonça

Maio / Junho / Julho de 2012

Edição #10 (Vol. 3, N.2)

> Por um novo cinema

Artigos

A ruptura do desejo invisível (ou a erupção da ausência)Ricardo Lessa Filho

Trans-versos – Ranieri Brandão

O EspectadorMarguerite Duras (tradução de Ricardo Lessa Filho)

Alain Robbe-Grillet

L’ ImmortelleRodrigo Almeida

Trans-Europ-ExpressFernando Mendonça

L’Homme Qui MentRodrigo Almeida

L’Éden et AprèsRicardo Lessa Filho

N. A Pris Les DésRanieri Brandão

Glissements Progressifs du PlaisirRicardo Lessa Filho

Le Jeu Avec Le FeuFernando Mendonça

La Belle CaptiveRicardo Lessa Filho

Un Bruit Qui Rend FouFernando Mendonça

C’est Gradiva Qui Vous AppelleRanieri Brandão

Marguerite Duras

Détruire dit-elleRanieri Brandão

Nathalie GrangerRicardo Lessa Filho

India SongRodrigo Almeida

Son Nom de Venise dans Calcutta DésertFernando Mendonça

Le CamionRicardo Lessa Filho

Baxter, Vera BaxterRanieri Brandão

Curtas (1978/1979)Fernando Mendonça

Le Navire NightRicardo Lessa Filho

Agatha et Les Lectures IllimitéesRanieri Brandão

Il Dialogo di RomaRodrigo Almeida

Les Enfants Rodrigo Almeida

> Extracampos

Borges, Resnais e a Vertigem da DescriçãoMatheus Cartaxo

O Tempo da Poesia: Clarice e OzuCamille Reis

Imagens Mentais – Douglas Deó Ribeiro

A Flauta Mágica: Magia e Simbolismo na Construção do Olhar – Juliana Barros de Souza

Toda a Memória do Cinema – Álvaro Brito