2012 Filmologia

Edição #11

Editorial

Adeus, Civilização!

Devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única pré-condição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural. Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade. Gostaríamos de perguntar: não existe, então, nenhum ganho no prazer, nenhum aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade, se posso, tantas vezes quantas me agrade, escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância, ou saber, no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto, como também, na verdade, prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado? Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios, que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e técnicos. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias, meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz; se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas, meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito. Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?

Sigmund Freud, O Mal Estar na Civilização

Quando assisti pela primeira vez aos filmes do argentino Lisandro Alonso, especialmente os dois primeiros, La Libertad (2001) e Los Muertos (2004), senti um desconforto imenso ao final da exibição, em particular por dois motivos. Primeiro, pelo espaço, por conta desse retorno absoluto ao ambiente distante da civilização e ao contato direto, talvez indiferenciado, do homem com a natureza, que, por mais que todos os meus amigos reforcem como importante para nossa própria constituição, vez ou outra indo tomar um banho de cachoeira ou açude para entrar em contato com essas forças invisíveis e mágicas, realmente confesso não ser o meu modelo ideal de resgate ou acalanto das raízes existenciais. Contudo, os filmes do cineasta são certamente mais enfáticos, graças a materialidade do personagem em seu meio natural, algo também alcançado por Cao Guimarães em Alma do osso, distanciando-se dos argumentos transcendentais por uma valorização plácida do ordinário. O cinema de Alonso é o contrário do exótico e da natureza como espaço burguês de recreação.

As películas aqui citadas me fizeram lembrar, em meio a uma perturbação não bem explícita, do fundamental texto O Mal Estar na Civilização (1930), de Sigmund Freud, onde o psicanalista questiona como a cultura, pensando de maneira indiferenciada da civilização, implica a presença do sofrimento e da ampliação das palhetas de sofrimento: sugere, assim, que apesar de todos os avanços tecnológicos, não necessariamente nos tornamos pessoas mais felizes com o progresso. Há um pouco dessa constatação na trajetória de Alonso, não através da civilização, mas da distância dela, afinal, como diz Freud o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça; seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”. Misael Saavedra e Argentino Vargas, respectivamente protagonistas de La Libertad e Los Muertos, parecem presenças arquetípicas desse argumento, permanecendo sempre enigmáticos, pois a intimidade deles com o espaço não se reflete numa intimidade do espectador com eles ou com seus espaços, abrindo um vasto campo de suposições.

O segundo motivo do desconforto, antes que prossiga e termine me esquecendo, é que justamente por enveredar por esse cinema que testemunha a aproximação do homem com a natureza, por brincar com uma encenação mínima, já chamada por alguns de pós-dramática, Alonso cria um ritmo próprio para o espectador. Transforma, assim, o tempo de seus planos com seus personagens imantados de verdade, não no que nos acostumamos chamar de “tempos mortos”, o próprio cineasta refuta essa expressão, mas um tempo contemplativo, que obriga os espectadores se liberarem um pouco de suas amarras estéticas e técnicas para conseguirem se aproximar, eles próprios, da crueza e potência das imagens. Diante de um cenário em que o verde natural domina, em que ecoam os sons dos mais diferentes seres, em que o elemento humano alcança uma assustadora simbiose com o ambiente, seria no mínimo evasivo chamar a duração da experiência de tempo morto. Dos garotos entediados sentados numa viela, da minuciosa rotina de um lenhador isolado; do ex-presidiário retornando vagarosamente à sua casa no coração da floresta ao momento em que ele visita um cinema transformado em fantasmagoria para assistir ao filme que protagoniza, Alonso defende o tempo de seus planos quase como uma utopia.

A experiência criada – a ausência de diálogos, uma dilatação extremada de qualquer ímpeto de narrativa – estimula os espectadores a buscarem sentido no mundo ordinário, em ambientes desprovidos de estimulantes cenográficos, apaziguando a velocidade que parece imbricada em nossa própria existência urbana. Parece difícil se acostumar no começo, mas aos poucos vamos diminuindo também o ritmo do olhar agitado, começamos a caminhar mais calmamente, dispostos a parar embaixo de uma árvore, sentar até o corpo cair livre, deitado, sob a brisa de um final da tarde. Alonso também aponta retornos à civilização sempre na negativa, Fantasma (2006) e Liverpool (2008), cada qual a sua maneira comprovam o imenso tédio de voltar. No primeiro, usa a cena em que Argentino Vargas anda lentamente no salão de entrada do cinema que exibe Los Muertos para contrapor seu ritmo – também seu enquanto cineasta – do ritmo dos que andam lá fora, nas calçadas entupidas, sem tempo de soltar um olhadela para o lado. Para Alonso é preciso olhar, olhar de novo e continuar olhando. No segundo, ele estigmatiza as presilhas afetivas que nos fazem voltar aos nossos recantos, assim como a necessidade de se desfazer das presilhas para conseguir partir, afinal, qualquer que seja a situação, a volta não assegura um ressurgimento da felicidade.

A introdução foi certamente longa, mas serve para anunciar que o especial sobre Lisandro Alonso marca a primeira edição no Filmologia sobre um cineasta latino-americano não brasileiro, atravessando sua breve filmografia, composta de quatro longas e dois curtas, com olhares polifônicos. Vale dizer que além dos integrantes já conhecidos, contamos mais uma vez com um convidado contribuindo no especial: Fábio Ramalho, doutorando em comunicação pela UFPE e um particular interessado no cinema produzido na América Latina, escreve um artigo panorâmico sobre o cinema do argentino, refletindo sobre como podemos ainda pensar leituras e ênfases de seu trabalho, quando aspectos que antes haviam ganhado predominância começam a mostrar sinais de desgaste. Também seguimos adiante com a seção Extracampos, com três textos que fogem da temática central de nosso material. O primeiro é assinado por Rafael Dias, que sob forte influência deleuziana, escreve sobre o corpo na Trilogia da Morte do cineasta norte-americano Gus Van Sant. Com um tom dominado por lembranças, o gaúcho Diego Hoefel parte de algumas das suas experiências primevas na sala de cinema e reminiscências do dia-a-dia para discutir duas perspectivas diferentes do rosto e sua relação com a paisagem, a partir de Os Incompreendidos (1959) e Jean Gentil (2010). Seguindo um pouco a mesma linha de escrita pincelada como crônica de uma crise existencial, a última produção é de Álvaro Brito, que já participou da mesma seção na edição passada, inferindo algumas questões sobre Proust e Stroszek (1977). No mais, desejamos a todos uma boa leitura.

Rodrigo Almeida

Agosto / Setembro / Outubro de 2012

Edição #11 (Vol. 3, N. 3)

> Lisandro Alonso

Artigos

Uma marca incertaFábio Ramalho

Dois destinosRanieri Brandão

Imagens hápticas – Ricardo Lessa Filho

Filmes

Dos En La VeredaRodrigo Almeida

La LibertadRicardo Lessa Filho

Los MuertosRodrigo Almeida

FantasmaFernando Mendonça

LiverpoolRanieri Brandão

Sin Título (Carta para Serra)Ranieri Brandão

> Extracampos

Corpo-Cadáver e Corpo-AbismoRafael Batista Dias

Rosto Paisagem em Jean GentilDiego Hoefel

O Sabor da Madeleine – Álvaro Brito