2013 Filmologia

Edição #12

Editorial

Close ups, p&b e cicatrizes

Há pouco mais de um ano, nos movíamos na direção de uma pequena – mas significativa – renovação: traçávamos, com o nosso Dossiê Infância, uma visita ao vivo museu das imagens que nos viram crescer e, para isso, passávamos radicalmente, em reflexo à História do Cinema, da monocromia à explosão das cores. Os trilhos do último dia de inocência emprestados do Conta Comigo (1986) de Rob Reiner, o filme em foco daquele movimentado trimestre, estabelecia uma nova fase: um ano inteiro de cores a guardarem o frontispício de nossas palavras. O que quer dizer, um ano inteiro de cenas de filmes no lugar do corpo ou do rosto do autor, estética e escolha que nos caracterizava desde o primeiro número e que, já naquele dedicado a Charles Laughton e seu O Mensageiro do Diabo (1955), tentávamos romper.

2012 veio e nos atravessou à sombra de um diálogo interessante e talvez não-percebido entre as mãos de Laughton e aquela outra, cadavérico-fetichista, do Grillet de Glissements Progressifs du Plaisir (1974), que vinha a ilustrar nossa comemorativa edição #10: em segredo, elas descreveram um aperto entre si, tendo como testemunhas o terror(ismo) da dupla decalagem dos “filmes errados”, e a montagem como jogo de brechas por onde passam o sentido e o defeito, enfim reconhecidos como partes de uma mesma linguagem de ruínas. Daí seguimos – atrás, com Mambéty; à frente, com Alonso. Agora, vencido um ano aos golpes de três edições “em cores”, podemos dizer que aqui assistiremos a volta daquilo que foi reprimido de nossas ideias, pouco mais de um ano atrás: da fotografia de cena, nós retomamos o rosto, o close up no autor. E mais: voltamos ao p&b de nossas origens, porque como sempre, a cada nova edição, parecemos encenar um novo começo, com as dificuldades e delícias de sempre. Não à toa, no tema “do reprimido”, acabamos, conscientes ou não, escolhendo Erich von Stroheim, o cineasta dos filmes roubados, das versões originais destruídas e da melancolia da ausência das imagens que foram soterradas pela ignorância (dos produtores) e pelo tempo. O primeiro cineasta do período “mudo” que abordamos no Filmologia.

Não por acaso também, na imagem de nossa capa há um salto (um relevo) violento da cicatriz na testa de Stroheim, que dirá muito sobre ele (o eterno mutilado), e que é também um signo preciso sobre nós, uma cartografia de nossa pequena história recente. Entre amputações (e o close up, nos turbulentos primeiros anos do cinema, representava, como letra desconhecida, essa suprema decapitação) e enxertos (de alguma forma, nossa rubrica “Extracampos” é justo isso, valiosamente isso), parecido com o que ocorreu aos filmes de Stroheim, nossa equipe inflou e diminuiu. Da mesma maneira que foram encontradas, depois de anos, as cenas perdidas (ou as stills perdidas de cenas perdidas) dos filmes monumentais do austríaco que foi a Hollywood para ver seus desejos e delírios parcialmente destruídos, encontramos, no número passado, o texto delicado e afetivo (“rosto-paisagem…”) junto à pessoa de Diego Hoefel, nosso novo membro. Diego chega neste momento “de retorno”, e o insight do “close up = amputação” foi certeiramente reacendido por ele no texto que abre esta nossa nova aventura: uma edição sob o signo de um close up dessa vez nada desmaterializador.

Além de textos sobre os oito filmes que compõem o sumário – dos doze que Stroheim teve participação, sendo às vezes creditado ou não como diretor –, contamos também com a participação especial de Edson Costa, mestrando em Imagem e Som (UFSCar), que traduziu um texto da lendária Lotte Eisner publicado nos Cahiers du Cinéma número 72 (junho de 1957) quando da morte de Stroheim. O leitor perceberá que desta vez vamos a público sem trazer os já tradicionais textos “fora de pauta” da Extracampos, que voltarão na edição seguinte. Em seu lugar, abrimos 2013 republicando as listas particulares dos filmes que marcaram nosso 2012, divulgadas em 31 de dezembro último e publicadas em link na seção de críticas.

Para encerrar, queremos salientar ainda mais um “até logo”, tão típico deste parágrafo que nos separa por três meses: uma certa ideia, muitas vezes adiada (inclusive agora) por nós, nos assombrará ainda por mais noventa dias, esperando, impacientemente, sua materialização. Dividimos e compartilhamos a mesma ansiedade com o tema da próxima edição (um cinema que necessita de palavras), mas por enquanto, temos que lidar com seu último e temporário aborto. Fiquemos com Stroheim nos escoamentos do presente e continuemos com a mente nas promessas do futuro, a esculpir com cuidado as formas e as ideias que nos esperam a seguir. Uma boa leitura a todos.

Ranieri Brandão

Novembro, Dezembro de 2012 / Janeiro de 2013

Edição #12 (Vol. 4, N. 1)

> Erich von Stroheim

Artigos

Gestos Silenciosos: Méliès, Griffith, StroheimDiego Hoefel

O Movimento Invertido: apontamentos da imagem e do realFernando Mendonça

Corpo-Stroheim, uma pequena nota – Ranieri Brandão

Algumas lembranças sobre Erich von StroheimLotte H. Eisner

Filmes

Maridos Cegos Rodrigo Almeida

Esposas IngênuasRodrigo Almeida

O Redemoinho da VidaRicardo Lessa Filho

Ouro e MaldiçãoFernando Mendonça

A Viúva AlegreRicardo Lessa Filho

Marcha Nupcial Ranieri Brandão

Minha RainhaRanieri Brandão

O Grande GabboDiego Hoefel

> Um ano entre nós

2012, Recortes