2013 Filmologia

Edição #13

Editorial

A genealogia do afeto

A consciência de um artista paira, sobretudo, nas convolações afetivas que ele transporta e transborda em sua arte. O afeto em si é uma dupla entidade (fantasmática e real), e é dessa bifurcação da aura que se pode extrair o monumento da criação e lançá-la para alimentar o mundo faminto das essências. O cinema de Valerio Zurlini, que descreve as páginas da presente edição do Filmologia, é um cinema da emancipação desse afeto que, ao se deslocar para dentro da imagem projetada como artéria vital, transcende os cumes emocionais da História – e do Cinema.

Tentar compreender a genealogia de Zurlini é concomitantemente uma tentativa de conceber (e apreender) um hemograma dessa História (do mundo) e desse Cinema (italiano, “pós-neo-realista”?), cujas vasodilatações do corpo proporcionam aos músculos mais oxigenação e evidenciam que ali, naquele corpo sacro, jorra sangue, que em suas cercanias não existe outra chave de leitura possível senão a do afeto genealógico pelo emozionante que trespassa o infinito do tempo e da imagem de cinema, e que, enfim sobrepondo-os, transcende as escolas e ideologias possíveis, arrematando, para além de uma angústia rouca e indelével ao cinema, o suplício do afeto.

Dos dois filmes que se complementam – porque aonde um termina (La Stazione, 1952) o outro ganha a vida (Quando o Amor é Mentira, 1955) – Zurlini vai, na sutileza misteriosa desse suplício, petrificando os rastros afetivos da História do Homem, das paixões circinadas, esgotadas nos vórtices da vida calejada, balbuciada à luz da perda dos sentidos da “realidade”, pela ponte emotiva que afoga seus personagens, que elidem a vida a um único arsenal possível: o do amor. Mas nas sombras afetivas das figuras de Zurlini existe a sóbria consciência de seu tempo (do Horror, de fato, acoplado), porque tanto em La Stazione quanto em Quando o Amor é Mentira, a afetividade da aura é soterrada pelas cicatrizes do pós-guerra: a tristeza “genealógica” dos homens e mulheres italianos incide nessa conscientização real acerca de seu tempo. É por isso que Zurlini, o “poeta da melancolia” é, antes de tudo, um trágico, um cineasta estupendo do Memento Mori.

É da consciência do fim que Zurlini constrói os seus filmes mais extraordinários (que aparecem, grosso modo, todos a partir de 1959). Verão Violento, o primeiro deles, é essa façanha de um amor que de tão trovejante silencia as mais estrondosas bombas fascistas, e é aí, nesse momento de reversão, que Zurlini faz emergir o imenso contracampo de seu cinema: opondo-se ao Horror pelo afeto (amor), ele edificará árias cinematográficas porque faz um uso dilacerante da mis-en-scène. É monumental apreender as disposições estilísticas no espaço sideral que Zurlini evoca da história do cinema italiano, e sua mis-en-scène nada mais é do que um artefato geracional desse processo. Exala-se ali as silhuetas concebidas pelo percorrer da câmera em meio ao coliseu sacro-santo do cinema. Nada é aleatório, despojado; é tudo percebido pelo compasso perfeito da métrica e da rítmica – lembremos dos olhares trocados em seu cinema, e como eles nos transportam para um outro mundo, sobretudo porque o que se troca em seus filmes não são somente olhares, mas lamentos afetivos velados nos globos oculares.

Se a equipe do Filmologia decidiu por Zurlini, é porque hoje, tão próximo ao aniversário de três anos do site, o que invade a todos os integrantes é uma constatação não somente de um afeto maior (bigger than life?) pelo cinema, pelas pessoas, pelas coisas do mundo (como o próprio cinema de Valerio), mas à luz do tempo, por uma melancolia aprofundada, pelo cotejo de que, assim como os personagens zurlinianos, somos finitos e trágicos. Nas outras páginas deste número, na seção Extracampos, voltamos com texto de Edson Costa Jr. (que colaborou na edição passada com a tradução de Lotte Eisner) e do professor da UFCE, cineasta e amigo Marcelo Ikeda. Edson escreve sobre Jonas Mekas, ao passo que Ikeda, trincando a estrutura desta seção, encontra o filme de Caetano Gotardo, O Que se Move, em texto já publicado em seu blog e que republicamos aqui.

E a revista, nos hiatos temporais cada vez maiores para as atualizações, reverbera, em sua (cosmo) gênese inconsútil, numa necessidade de compartilhar o seu espírito. E é por isso que Zurlini se faz nesse momento uma das escolhas mais acertadas de sempre.

Ricardo Lessa Filho

Fevereiro / Março / Abril de 2013

Edição #13 (Vol. 4, N. 2)

> Valerio Zurlini

Artigos

Zurlini e o tempo do depoisRicardo Lessa Filho

ContracamposRanieri Brandão

Filmes

La StazioneDiego Hoefel

Quando o Amor é MentiraDiego Hoefel

Verão ViolentoRicardo Lessa Filho

A Moça Com a ValiseFernando Mendonça

Dois Destinos – Ricardo Lessa Filho

Mulheres no FrontRodrigo Almeida

Sentado à Sua DireitaRanieri Brandão

A Primeira Noite de TranquilidadeRodrigo Almeida

O Deserto dos TártarosFernando Mendonça

> Extracampos

Jonas Mekas, o idílio e a felicidadeEdson Costa Jr.

O Que se MoveMarcelo Ikeda

A Genealogia do Afeto

A consciência de um artista paira, sobretudo, nas convolações afetivas que ele transporta e transborda em sua arte. O afeto em si é uma dupla entidade (fantasmática e real), e é dessa bifurcação da aura que se pode extrair o monumento da criação e lançá-la para alimentar o mundo faminto das essências. O cinema de Valerio Zurlini, que descreve as páginas da presente edição do Filmologia, é um cinema da emancipação desse afeto que, ao se deslocar para dentro da imagem projetada como artéria vital, transcende os cumes emocionais da História – e do Cinema em si.

Tentar compreender a genealogia de Zurlini é concomitantemente uma tentativa de conceber (e apreender) um hemograma dessa História (do mundo) e desse Cinema (italiano, “pós-neo-realista”?), cujas vasodilatações do corpo proporcionam aos músculos mais oxigenação e evidenciam que ali, naquele corpo sacro, jorra sangue, e que em suas cercanias não existe outra chave de leitura possível senão a do afeto genealógico pelo emozionante que trespassa o infinito do tempo e da imagem de cinema, e que, sobrepondo-os, transcende as escolas e ideologias possíveis, arrematando para além de uma angústia rouca e indelével ao cinema, o suplício do afeto.

Dos dois filmes que se complementam – porque aonde um termina (La Stazione, 1952) o outro ganha a vida (Quando o Amor é Mentira, 1955) – Zurlini vai, na sutileza misteriosa desse suplício, petrificando os rastros afetivos da História do homem em si, das paixões circinadas, esgotadas nos vórtices da vida calejada, balbuciada à luz da perda dos sentidos, da “realidade”, pela ponte emotiva que afoga seus personagens, que elidem a vida a um único arsenal possível: o do amor. Mas nas sombras afetivas de seus personagens, Zurlini tem a sóbria consciência de seu tempo (do Horror, de fato, acoplado), porque tanto em La Stazione quanto em Quando o Amor é Mentira, a afetividade da aura é soterrada pelas cicatrizes do pós-guerra: a tristeza “genealógica” dos homens e mulheres italianos incide nessa conscientização real acerca de seu tempo. É por isso que Zurlini, o “poeta da melancolia” é, antes de tudo, um trágico, um cineasta estupendo do Memento Mori.

É da consciência do fim que Zurlini constrói os seus filmes mais extraordinários (que aparecem, grosso modo, todos a partir de 1959). Verão Violento (1959) é essa façanha de um amor que de tão trovejante silencia as mais estrondosas bombas fascistas, e é aí, nesse momento de reversão, que Zurlini faz emergir o imenso contracampo de seu cinema: opondo-se ao Horror pelo afeto (amor), ele edifica árias cinematográficas porque faz um uso sideralizante da mis-en-scène. É monumental apreender as disposições estilísticas no espaço sideral que Zurlini evoca da história do cinema italiano, e sua mis-en-scène nada mais é do que um artefato geracional desse processo. Exala-se ali as silhuetas concebidas pelo percorrer da câmera em meio ao coliseu sacro-santo do cinema. Nada é aleatório, despojado; é tudo percebido pelo compasso perfeito da métrica e da rítmica – lembremos dos olhares trocados em seu cinema, e como eles nos transportam para um outro mundo, sobretudo porque o que se troca em seus filmes não são somente olhares, mas suplícios afetivos velados nos globos oculares.

E se a equipe do Filmologia decidiu por Zurlini, é porque hoje, tão próximo ao aniversário de três anos do site, o que invade a todos os integrantes é uma constatação não somente de um afeto maior (bigger than life?) pelo cinema, pelas pessoas, pelas coisas do mundo (como o próprio cinema de Valerio), mas à luz do tempo, por uma melancolia aprofundada, pelo cotejo de que, assim como os personagens zurlinianos, somos finitos e trágicos. Nas outras páginas deste número, especificamente na seção Extracampos, voltamos com texto de Edson Costa (que colaborou na edição passada com a tradução de Lotte Eisner:) e do professor da UFCE, cineasta e amigo Marcelo Ikeda. Edson escreve sobre Jonas Mekas, ao passo que Ikeda, trincando a estrutura desta seção, encontra o filme de Caetano Gotardo, O Que se Move, em texto já publicado em seu blog e que republicamos aqui.

E a revista, nos hiatos temporais cada vez maiores para as atualizações, reverbera, em sua (cosmo) gênese inconsútil, numa necessidade de compartilhar o seu espírito. E é por isso que Zurlini se faz nesse momento uma das escolhas mais acertadas de sempre.

Ricardo Lessa Filho

Fevereiro / Março / Abril de 2013