2013 Filmologia

Edição #14

Editorial

Arqueologia do presente

Já é lugar-comum, expressão corriqueira, boato corrente, certeza confirmada dia-a-dia, estética aceita, que nós do Filmologia costumamos chegar atrasados aos filmes. É um comportamento que, ao longo dos três anos completados em junho último, cultivamos a partir de determinado momento como política: chegar depois é ter no tempo a companhia ideal para ver e pesar os filmes; chegar depois é ter tempo para pensá-los e saber que, para certos filmes, o tempo não passa. Quando nos debatemos de pronto com algumas obras, por vezes os textos não dão conta daquilo que vimos – são injustos, prematuros, impulsionados por ódios e amores que podem se desmanchar numa revisão. A isso, é inevitável, respondemos tendo que assumir os riscos de nossas palavras.

É preciso paciência, certo cuidado, dedicação para com os filmes. Tudo isso para dizer que este número foi pensado, ao contrário do que se pode imaginar, há quase dois anos. Para tecer a edição, gerir e maturar ideias, necessitamos de todos esses setecentos e tantos dias – e necessitaríamos de bem mais. Mas nem todos entre nós tiveram esse dilatado espaço para pensar os filmes: Fernando, por exemplo, teve seu primeiro e doloroso contato com os trabalhos que compõem o sumário desta edição há apenas duas semanas. Resultado: dores de cabeça, febre, dores na vista, na coluna, uma virose enfim, que é essa amiga fiel das ideias que depositamos aqui – coisas que os demais membros também compartilharam juntos, nos limites da exaustão, nos significados das palavras trocadas, das escolhas difíceis. Este não foi um número fácil de escrever, simplesmente porque ele revela-se como uma série de palavras desequilibradas, muito novas e que não sabemos ainda ao certo seu ofício e serventia. Os textos são propostas de discussão, antes de mais nada, impressões de um cinema que (re)nasce perto de nós.

E se a coisa assim se apresenta é porque, ao mesmo tempo em que escolhemos para figurar um especial este “cinema jovem” que surge dentro de um novo fôlego de produção em Alagoas, nos vimos cara-a-cara com filmes que possuem a nossa idade, filmes que ainda estão em seus primeiros movimentos e que partem da matéria e do substantivo para encontrar seus problemas e faltas. Daí uma série de perguntas nos bastidores, que frequentemente nos fizemos, nesta que, certamente, foi a aventura mais debatida, discutida e assustadora que realizamos: porque cinema alagoano? Como explicar ao leitor – alagoano ou não – a escolha de um cinema que ainda precisa descobrir sua própria história (impressa nos livros de Elinaldo Barros e onde mais?), que possui alguns filmes tão frágeis, às vezes sem um traço sequer de cinema, constando apenas seu aparato? Os filmes dariam uma edição rica, levantariam uma discussão verdadeiramente pulsante, viva? Porque não um micro-especial na seção de artigos, ao invés de uma edição inteira, com capa, editorial, textos e textos divididos apenas entre três (e não cinco: Rodrigo Almeida e Diego Hoefel não participam desta edição) membros do site? Não estaríamos aqui “queimando” a chance de fazer uma edição sem tantas perguntas e dores, sem tanto receio, e com mais chances de um retorno talvez não tão enfurecido? Ou, mais complicado ainda: como tentar escrever, telegrafar, sem parecermos pedantes ou frios, a atual história extra-oficial desses filmes sem película para depositar seus rastros que, depois de anos, pretendem colocar o cinema feito em Alagoas no mapa?

Estacionamos aqui: “Mapa”. Esta talvez seja uma boa palavra a ser traída por esta nossa iniciativa, porque ela é perigosa, arriscada, desconfortável – e nossa publicação é de natureza diversa daquela feita pela Revista Graciliano, mais informativa, mais direta, menos tautológica. Os filmes, muitos deles, são ainda testes que não sabemos aonde vão parar, que destino tomarão; estão no presente tanto quanto nós: eles, à procura de um cinema que abrigue suas ideias, e nós de palavras que dêem conta delas. Daí que em muitos momentos e textos sejam os próprios filmes que venham falar sobre seus próximos, que revelem a precisa arqueologia deste momento de ebulição e vontades. A tarefa dedicada a este “cinema jovem”, então, não é outra senão aquela que pretende apenas raspar a sombra do Impossível: tocar este presente, congelá-lo pela duração de uma edição, temporariamente. A capa, uma cena de A Banca (2012), de Aloísio Correa, é eleita por uma explicação de Fernando, que a sugeriu e que dentro desse poço de dúvidas sem fim emerge como pequena luz que nos orienta na desgastante viagem que fizemos, escrita nas páginas abaixo, pelo cinema feito em Alagoas entre 2010 e 2013, um recorte por si também bastante difícil de fazer, pendendo ao esquecimento e à injúria: pela ideia do movimento meio desesperado, de um cinema que foge”. Exato. Imagem escolhida, ideia que resume todo um esforço, o quebra-cabeças mental que os filmes e nós, com eles, tentamos montar.

Um cinema que foge porque nossas letras nem sempre o alcançam e porque nem sempre as palavras pesadas para falar sobre ele são as melhores ou mesmo as piores – bem como ele mesmo, um cinema que, ainda que dentro do conceito que move o Filmologia (não repetir temas, a edição seguinte sempre “rompendo” com a anterior), assusta perante a instável busca pelo aprendizado da narração, acionada pela inocência posada, pela maquiagem “profissional” de algumas produções, pela franqueza dos que são miseráveis e não-atores, e pelo dispensável risível. Frente a isso, entre dezenas de conversas e preocupações, resolvemos escrever, rigorosamente, apenas o essencial, apenas o que as ideias pedissem – e com esse mesmo rigor, tentar descrever nossas impressões, essa espécie de colaboração que, num site de cinema surgido em Alagoas, parece ser o único gesto possível a se levar adiante: apesar dos pesares, da relação nem sempre saudável entre cinefilia (note-se que aqui não se escreve “crítica”) e cineastas, entregar nossa atenção a esses filmes é aquilo que podemos fazer de mais interessante, nossa singela contribuição. Não para “ensinar” – porque, como já dito, aqui fala um sentimento de cinefilia, de vontade de ver o novo nas velhas formas ou o velho nas novas – mas sim para nos testarmos como sujeitos que vivem o cinema também através da escrita.

Para a realização deste gesto, contamos com a presença indispensável da amiga Lis Paim, montadora e cineclubista, que quase desde o princípio está conosco na construção desta ideia e que teve a paciência de vê-la ser adiada, duas, três, quatro (?) vezes, vezes sem fim, num ano sem fim e a fio. Lis escreve um artigo que, tocando o movimento por dentro, o disseca a partir de uma perspectiva bem pessoal e rigorosamente completa: tour de force abismal, estudo de caso profundo, meticuloso e essencial, o texto de Lis é sem dúvida o emblema maior dessa história que tentamos reconstituir aqui, provavelmente o documento mais importante que publicamos neste número. Quem nos ajuda também é nosso parceiro – já membro honorário? – Marcelo Ikeda, com texto publicado em seu blog e cedido gentilmente sobre o único longa presente nesta edição: Derrubaram o Pinheirinho, de Fabiano Amorim. E já que esta é uma edição comemorativa, o leitor perceberá que nossa logo mudou para adequar-se aos nossos desejos e à nossa nova idade. O espírito, entretanto, é ainda o mesmo: imprecisão, apagamento em algumas passagens, uma crítica nada definitiva dos filmes e coisas.

Entre desistências e ausências sentidas junto aos 23 filmes e 24 textos que compõem esta edição de fora ficaram filmes importantes como Mirante Mercado, de Hermano Figueiredo, ou os filmes de Celso Brandão, que mesmo tendo feito trabalhos nesse período que delimitamos, foi deixado de lado em prol dos novos realizadores (Celso, Hermano e também Lobão merecem um destaque à parte, num futuro que não podemos dizer se próximo ou distante) – voltamos a desejar o de sempre, para terminar como começamos, e terminar como sempre terminamos, no seio seco do lugar-comum: uma boa leitura a todos. E até a volta.

Ranieri Brandão

Maio / Junho / Julho / Agosto de 2013

Edição #14 (Vol. 4, N. 3)

> Sobre um jovem cinema

Artigos

Sobre Alagoas, Cinema, Terra e ÁguaLis Paim

Quantos anos duram uma “Morte”?Ricardo Lessa Filho

Derrubaram o PinheirinhoMarcelo Ikeda

Curtas

A BancaFernando Mendonça

Barro do MuquémRicardo Lessa Filho

BRÊDARicardo Lessa Filho

Criatura / ZoéRicardo Lessa Filho

Exu – Além do Bem e do MalRicardo Lessa Filho

FarpaFernando Mendonça

FênixRanieri Brandão

Hoje NãoRicardo Lessa Filho

Interiores ou 400 anos de SolidãoRanieri Brandão

KM 58Ranieri Brandão

MatadorRicardo Lessa Filho

Memórias de uma Saga CaetéRanieri Brandão

MeninaFernando Mendonça

MissRanieri Brandão

MwanyRicardo Lessa Filho

O Que Lembro, TenhoFernando Mendonça

Os Ratos Não DescansavamFernando Mendonça

Panorama da CarneRanieri Brandão

SuccubusRicardo Lessa Filho

TodaviaRanieri Brandão

Um Vestido Para LiaFernando Mendonça

> Cobertura da IV Mostra Sururu de Cinema Alagoano