2013 Filmologia

Edição #15

Editorial

Reocupando as Ruínas

Não é vontade de contradição. Mas precisamos reconhecer que, ao invés do concluído no editorial anterior (o tempo não passa, para alguns filmes), o que movimenta as presentes linhas é uma dolorosa consciência desta passagem, do tempo que vai e leva consigo a vida e o fôlego, anulando em definitivo a condição do atraso, ou nela encontrando o impulso para o adensamento, para o corpo-a-corpo. Mesmo que não haja mais corpo. Na vontade por um idioma ainda não visitado por nossas edições, foi minha a sugestão para a equipe de uma homenagem póstuma, coisa que nunca fizéramos, rendida a alguém de carreira também pouco visitada entre nós e, certamente, nossos leitores. Falecido no último mês de Maio, aos 54 anos, Aleksey Balabanov terminou por nos simbolizar esta rotina tardia do cinema russo, geralmente descoberto com atraso por um Ocidente que se pensa à frente ou com alguma vantagem na atualização das culturas. Como atestam seus filmes, é natural do homem chegar tarde à esperança. Ironicamente compreensível que, coisa típica das artes, se aguarde o fim de uma trajetória para nela buscar a iniciação. E, sem muitos remorsos, aceitamos o seu convite.

A extrema concisão deste especial, sem artigos gerais ou análises mais amplamente verticalizadas, decorre também do assumido primeiro contato, do sentido que não sofrêramos de colonização prévia junto ao cinema que agora nos aproximamos. Todas as ideias e percepções vivenciadas diante dos filmes que compõem o sumário — a quase completa filmografia do cineasta, com a falta de um único documentário inacessível, From the History of Aerostatics in Russia (1990) —, o foram cumuladas durante a própria redação dos textos. Descobrimos os filmes ao mesmo tempo em que os expusemos, assumindo os riscos da pressa. Mas isto porque já não se pode falar em adequação do tempo, pelo menos na situação em que estamos. Qualquer palavra sobre Balabanov se fragiliza como tardia, por mais que sua obra fique.

Nosso desejo segue na contracorrente de uma das cenas mais assombrosas que o cineasta legou: o desfecho de Morfina (2008). Nele, o médico viciado que protagoniza o longa, no meio de uma fuga das autoridades, entra numa sala de cinematógrafo. Não tem dinheiro para comprar o ingresso, por isso barganha seu relógio com a bilheteira, para que possa entrar (esta eterna negociação com o tempo, para que haja o cinema). No escuro da sala lotada, ignora os episódios burlescos que preenchem a tela com um filme mudo e se injeta uma última dose da droga, para assim relaxar e voltar alguma atenção ao filme que passa. Começa a gargalhar, em coro com o público, mas encerra seu último riso sacando a pistola que trazia consigo e atirando contra a própria cabeça. Ao lado, um homem olha para o suicida, limpa despreocupado o sangue que lhe alcançara o rosto, e volta a se divertir com a sessão. Ninguém mais percebe o episódio. E assim ambos os filmes se encerram, num último reflexo do fim.

Os textos que aqui reunimos, orientam-se por esta necessidade de percebimento, de que alguma atenção seja dada aos objetos que apontam. Para que a morte não seja vã. Ainda que não sintamos a certeza de permanência na obra total de Balabanov — mais uma vez deixamos isto para o tempo —, acreditamos que a reflexão sobre a mesma é urgente, pelas questões que levanta sobre um estado humano a ser reposicionado dentro de um mundo em ruínas. Espaços de reocupação. Em paralelo, aproveitamos a deixa para reocupar e relocar a estrutura interna de nossa equipe, subdividindo as participações de cada membro em três eixos: soma-se ao Editor e aos Redatores, o grupo fixo de Colaboradores, que se configura por uma participação mais ativa dentro das edições trimestrais, sem o compromisso de atualizar com tanta frequência as demais seções do site. No grupo, que conta com Rodrigo e Diego, já conhecidos de todos, entra o parceiro Edson Costa Jr., que colaborara nas últimas edições com uma Tradução inédita e um Extracampo, além da contribuição no recente retorno do Filme em Foco, durante o intervalo que vivemos desde o dossiê alagoano (em Outubro, com olhares sobre O Som Ao Redor, de Kleber Mendonça Filho). Para o próximo intervalo entre edições, prevemos mais algum movimento, seja dentro de cada seção, seja no pequeno e rotineiro especial de fim de ano, com nossas listas de experiências favoritas com o cinema, em 2013. Enquanto o ano não termina, ficamos com estas leituras que também resistem ao fim. Pois ainda há tempo.

Fernando Mendonça

Setembro / Outubro / Novembro / Dezembro de 2013

Edição #15 (Vol.4, N. 4)

> Aleksey Balabanov

Filmes

Egor i NastyaRanieri Brandão

Dias FelizesEdson Costa Jr.

O Castelo Fernando Mendonça

TrofimRodrigo Almeida

IrmãoRodrigo Almeida

De Monstros e HomensRanieri Brandão

Irmão 2Ricardo Lessa Filho

O RioFernando Mendonça

GuerraDiego Hoefel

O Blefe do Homem MortoRanieri Brandão

Não DóiEdson Costa Jr.

Cargo 200Ricardo Lessa Filho

MorfinaRodrigo Almeida

O FoguistaDiego Hoefel

Eu TambémFernando Mendonça

> A propósito de um ano

2013, Recortes

2013, A Ruína, O Recomeço - Fernando Mendonça