2010 Filmologia

Edição #01

Editorial

Um cinema de identidades

Numa cena de Cidadão Kane é apresentada a declaração de princípios sobre o que o jornal do personagem-título vinha a oferecer em termos de posicionamentos e de coisas as quais deveria legar à sociedade. De certa forma, era com esta declaração que Orson Welles também se anunciava (era seu primeiro longa-metragem) como detentor de um cinema que, ainda hoje, precisa ser olhado com atenção à técnica e à narrativa. Daí o cinema partiria para a modernidade e, claro, como diria Eric Rohmer, para o clássico que parece ser a mesma coisa hoje, posto que os melhores filmes provavelmente são aqueles que olham sem esperteza e sem louvação fácil alguma para o passado.

Aqui estamos nós do Filmologia, de volta com a nossa segunda edição: a declaração dos nossos princípios já foi proposta, as cartas já se acomodaram, há mais de dois meses, em cima da mesa, e tentamos prosseguir com nossa firme forma de ver os filmes e o cinema. O retorno dos leitores, ainda que pequeno, foi-nos essencial. Os textos informaram sobre nossa face; as discordâncias e acertos internos nos trouxeram novamente a este local talvez privilegiado e, certamente, repleto de responsabilidades e educações díspares e rigorosas dos olhares. Afinal, estamos aqui defendendo a identidade dos filmes conforme cada olhar os enxerga e também a nossa própria identidade frente às reações que eles nos causam.

Desta forma, nesse desejo por identidades, chegamos ao nome de Hiroshi Teshigahara para ser o homenageado da presente edição. Um homem do cinema do nome, do rosto/corpo sem nominação e do retorno ao nome, mas com o rosto identificado nas obras que este nome produz. A ideia da homenagem surgiu de Fernando Mendonça, nosso redator, admirador do cinema do cineasta japonês. Há tempos que se anunciava a possibilidade deste especial, visto que Teshigahara ainda é um cineasta pouco visto (embora tenha fãs ardorosos, mais até do que outros cineastas da Noberu Bagu – a Nouvelle Vague japonesa) e que possui poucos e fabulosos filmes não tão difíceis de se ter acesso. Filmes que traçam uma carreira espantosa em coerência e em fidelidade aos motivos pelos quais observa a vida de seus personagens, geralmente construtores de obras artísticas, homens do esporte ou aqueles que necessitam veementemente apenas de um reconhecimento pelas vias de seu trabalho ou de sua loucura esfaceladora das noções de identidade. Agradecemos sobretudo ao Fernando porque foi ele quem traduziu a maioria das legendas dos filmes e foi ele quem, por caminhos diversos, acabou nos apresentando melhor este cinema.

Mais uma vez, nesta edição a equipe foca a carreira de um realizador a partir da exposição crítica de quase todos os seus filmes. São dezesseis no total, que cobrem seu trabalho de 1953 até 1992. Encontram-se também, como é de nosso costume, artigos sobre a carreira do diretor. Temos a presença de Maria do Carmo Nino, Artista Plástica e Professora da UFPE, convidada especial desta edição, que ficou a cargo do texto a respeito de Antonio Gaudí, um dos últimos e mais fascinantes filmes de Teshigahara. Além disso, temos a transcrição de alguns trechos do livro de Kobo Abe, A Mulher das Dunas, feita pelo Fernando, obra que foi adaptada por Teshigahara no filme homônimo de 1964, talvez seu trabalho mais cultuado e conhecido. Os abecedários de Elinaldo Barros continuam nesta edição, que traz listas em ABC sobre cineastas brasileiros e atrizes de cinema – este último, sem dúvida o mais belo abecedário que Elinaldo já fez.

Não é de se espantar que se encontrem diversas palavras repetidas espalhadas pelos textos (“corpo”, “rosto”, “vida”, “mistério”). O cinema de Teshigahara, no foco constante que constitui este número de Filmologia, executa algumas procuras incansáveis e indissociáveis de si mesmo: a do rosto por uma identidade, a da obra por um rosto, a da identidade por um nome, a de um nome por uma narrativa. Vamos a estas procuras, então.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

Agosto / Setembro de 2010

Edição #01 (Vol. 1, N. 2)

> Hiroshi Teshigahara

Artigos

A estética da metamorfose e do corpoRicardo Lessa Filho

Locais para o nomeRanieri Brandão

As dunas da minha vida – Fernando Mendonça

A Mulher das Dunas (Fragmentos)Kobo Abe

Filmes

HokusaiBruno Rafael

IkebanaRanieri Brandão

Tokyo 1958Nuno Balducci

Jose Torres I / II - Ricardo Lessa Filho

OtoshianaBruno Zanile

Sculptures by Sofu – Vita - Fernando Mendonça

A Mulher das DunasRicardo Lessa Filho

AkoBruno Rafael

A Face de um OutroRicardo Lessa Filho

O Mapa Arruinado Nuno Balducci

Summer SoldiersRanieri Brandão

Sculpture Mouvante – Jean Tinguely - Ranieri Brandão

Antonio Gaudí – Maria do Carmo Nino

Rikyu / Gô-HimeFernando Mendonça

> Abecedários Elinaldo Barros

Abecedário – cineastas brasileiros

ABC do céu de estrelas