Ako (1965, Hiroshi Teshigahara)

O que buscamos é a fuga esfíngica. E nisso a consagração na despistagem.

E nisso o afã dos belos.

E mais além, paixão, talvez

sobre arengas de areia;

que ela também nos recalque.

Essa liberdade que aflige, porque é concubina do efêmero, porque

canibaliza a substância de meu peito! Desde minha boca

está descendo a soma com a nudez desdenhosa dalguma estrela,

que me nega até uma constância de fulgores,

porque nunca saí eu das lendas de suas pontas.

Esse poema escrito aí em cima sobre o viver (o viver juvenil) não é por acaso. Escrevi-o quando mais sofria do “bárbaro escape dos meus dias”. E é como se o houvesse feito logo após ver Ako, ou Os incompreendidos. Também Conta Comigo… enfim…

Assim como o poema, também não é por acaso que há em Ako uma matizada reiteração de uma poética cena de Os incompreendidos, onde Antoine Doinel está sendo ligeiramente movimentado nalgum recipiente giratório.

Através da lente de Teshigahara, essa cena multiplica os viventes, escoltando a unidade do giro até um denso pragmatismo. A vida, agora são vidas; o giro é enfim a voragem (ou vertigem?) existente no caminho para a precoce ruga (ou no resumo da fuga?).

Entre instantes que corroem sua crista verídica, durante as percepções euforicamente abertas, estão os “baldes a transbordar”, ou seja, a feitura do extravasamento. Em Ako, isto paira, porém, nalgum bloco de humanidade renegado, tanto quanto ambicionado. Embora recomendado pelo vital, o extravasar, cujos sons são dons, os têm interceptados pelo que prepondera implicitamente no perdimento circular: um corrompido saudosismo talvez; talvez um dever enraizado. Obscuro fica, se a basilar preocupação de Teshigahara se estabelece junto ao maquinal ou junto ao emocional. Às vezes, um se apresenta; às vezes, o outro. Mas sempre o surgimento de um é o lacrar-se do outro qual uma sombra.

O fato mesmo pleno é que todo o receptáculo do filme repercute sob a aura dos folguedos pós-trabalho, e o maquinal respeita a divisa, ao mesmo tempo em que contamina os eixos dos quais se erguem as fantasias e necessidades dos personagens.

Fato este contrário ao que ocorre entre o trabalho e o entreter-se. Estes, aliás, nem se acham em porções de divisas; eles intercalam-se, preenchem os vestígios um do outro. De tanto haver tal entrecruzamento, nem o tempo suscita numerosidades. Quantos dias passaram-se? Sete? Onze? E estamos afinal diante da polpa única dum dia…

Para vitalizar essa estratégia de tempos, de não-desligamentos, novamente Teshigahara se apropria do ato de fotografar e da voz sem fonte vista; simploriamente dispersa. Agora, ambas as ferramentas estão inarticuláveis. Fixando-se no rosto, a foto bebe-o, lendo-lhe bastante a reação de receber, a partir de distintas óticas, o organismo da idéia parcialmente conquistada. O fotografar não mais está atraído pela voz, mas pela licença o pensamento donde ela se revestiu. Já a voz, sua cartilagem, parte de noções espectrais. Cada pontuaçao sua revela o legado de todos; de todos os que, habitando a flor juvenil, cheiram a círculos, e respiram a ruptura durante a vigência da oposição ao que o circulo tem de imposição maiúscula.

Bruno Rafael

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290