Hokusai (1953, Hiroshi Teshigahara)

“Um corpo de homem seduz a arte quando lhe mostra desconhecer os afazeres de sua própria alma ao deixá-lo.” Disse o tempo. “Pois o tempo seduz a arte, num fingimento de quem é noivo da eternidade, quando, na verdade, consegue apenas nos atingir. Tíbios mortais, em vez dos tantos deuses que se nutrem de sua terna noiva”, disse o homem, diante do tempo.

A discussão com o tempo é hercúlea. A discussão do homem com o tempo. Não deste modo, carnavalizada através do lavor verbal, capricho de um ser carne e o outro ─ ser Deus? Astro? Ser ressalva?

E eis que, em meio a isto, dá-se a arte…

A arte é longa, a vida é breve”, vai dizer Baudelaire no seu poema Azar; soneto, cujos dois quartetos, onde há esse verso, é uma (intencional) imitação doutro poeta: Longfellow; verso que também esteve no seio filosófico de Hipócrates…

Quantos homens a pensar isto…

Eu só me tornarei um verdadeiro pintor, quando chegar aos cem anos” disse Hokusai Kats Uchita. E eis a total labuta… agora perante o tempo, não o combatendo; em paciência, não rivalizando…

Porém: o tempo é teste de tormentos, disse Emily Dickinson…

Hokusai, curta dedicado à obra/vida desse artista, interioriza em nós o tempo original da arte; celebra-o junto a sanidade da pedra. Há a obra, sua concretude, e a crista da cena percorrendo-a, através de um padrão de avidez do primeiro olhar, ou para demonstrar uma reversibilidade no animado, adentrando numa noção fotográfica, quando alguns trechos da narração vistoriam a abordagem de uma espécie de diário de Hokusai. Nesses momentos, até se desconhece se se faz a leitura ou a escrita.

Noutros momentos a narração ainda se abre para outra intersecção coloquial. A voz da leitura (escrita?) distancia-se ainda mais do narrador tradicional, espoliando a fibra racional, enquanto aprecia as probabilidades do frescor imaginísticos de Hokusai ─ a voz incorpora então a própria obra do artista, contando-se, sem a existência dele, somente a partir das ilustrações das quais se apoderou. Esse artifício é a maior mobilização de instintos dimensionais e sentimentais, porque molda a ficção indômita que já se pleiteava lá, descobrindo profundidades na pintura para nós. Assim com em A Face de um Outro e Ako, a câmera não acompanha o vigor expansivo da voz. No entanto, ela, aqui, desiste de ser “forasteira fotográfica”. Havendo a fuga climática da voz, ela enreda-se toda no significado da palavra, na dicção do dizer.

Entre as raríssimas imagens animadas que constam em Hokusai, a única que corresponde fielmente a alguma pintura é a do mar, o de uma onda a erguer-se em rebelião. Essa surge justamente intercalando a sua pintura correspondente. O mar (o imutável); suas ondas (que tentarão sempre tocar o céu).

Bruno Rafael

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290