As dunas da minha vida

1.

Algumas histórias precisam ser contadas. Disso sabem os artistas, narradores, contadores, mas também aqueles que simplesmente recebem histórias, assistindo um filme, lendo um livro, vivenciando um episódio marcante; nestes também impera a primeira necessidade do compartilhar. O presente texto, ao qual assumo logo meu verbo, não pretende nenhuma análise, raciocínio crítico ou consideração estruturada sobre o cinema de Teshigahara, mas encontrando-se num dossiê sobre o cineasta, certamente não poderá fugir de seu nome, sua vida e carreira, das histórias que por ele foram contadas. Mas aqui a história é minha.

2.

Alguns filmes precisam ser assistidos. Disso sabem os cinéfilos. E por muito, muito tempo de minha vida, eu soube que precisava assistir A Mulher das Dunas (1964). É quando o filme clama. Quando ele seduz o espectador bem antes de lhe oferecer suas imagens. Como uma semente no aguardo de água, o filme discretamente abre o espaço para suas raízes, voltando sempre à memória, deixando um incômodo, aquele vazio preenchido pelo não-visto e a esperança de que seu tempo não tarde. Foram anos assim.

Ouvia sempre minha amiga, profª Maria do Carmo Nino, falar desse filme com um amor constrangido, uma saudade nunca satisfeita, pelo filme um dia visto, há décadas, numa cotidiana visita aos cinemas de Paris. “Nando, como eu gostaria de rever esse filme…”, eram suas palavras habituais diante da lembrança. E meus ouvidos muito atentos não deixavam escapar o brilho que ela emanava no olhar, pois desde cedo aprendi que no brilho deixado por um filme nos olhos de alguém, há uma verdade que não pode ser encontrada em sinopses, críticas ou reflexões escritas. Foi nisso que me apeguei. Por anos ouvi Maria reviver o filme em seus olhos, desejá-lo de novo, amá-lo. Até que o dia do encontro foi marcado.

3.

Cinéfilo aplicado, recém-nascido no mundo virtual, desde meus primeiros downloads de filmes, nunca deixei de me emocionar com a tecnologia. E ao dar meus primeiros passos na rede, não poderia deixar de procurar o filme que já fazia parte de mim, mas que ainda não me alcançara os olhos. Nem foi preciso procurar. Marco de meus primeiros acessos no fórum Making Off, eis que A Mulher das Dunas é destacado com uma Recomendação Especial, e ali estava, diante de mim, a oportunidade de deixá-lo nascer.

Há episódios numa história de amor com o cinema que não podem ser apagados. E muitas vezes eles não se restringem à duração ou projeção de um filme, mas a todo um acontecimento que faz dele um núcleo, uma motivação para vivê-lo além das imagens. Por isso posso dizer que só terminei de assistir A Mulher das Dunas quando, alguns dias depois, entreguei uma cópia de DVD nas mãos de Maria, deixei-a ver o nome escrito sobre o disco e diante de sua nascente lágrima retribui com o meu brilho no olhar.

4.

Desde então, meu envolvimento com Teshigahara tornou-se uma aliança inquebrável. Ter descoberto seus desertos e me descoberto neles foi um acontecimento que precisei compartilhar com mais e mais pessoas. Foi daí que, poucos meses depois, exibi o filme no Cineclube Dissenso, na época, ainda em formação, com um grupo de amigos na UFPE que gozava em assistir filmes sem saber de antemão quais seriam as projeções (nossas insuperáveis sessões surpresa). A sessão, inesquecível, e com a presença indispensável de uma Maria muito gripada mas incorrigível em seu amor ao filme, foi uma unanimidade; segundo o amigo Rodrigo Almeida, organizador do Cineclube, também a primeira unanimidade do grupo diante de uma obra-prima.

Satisfeito o primeiro amor, continuar minha relação com Teshigahara e me aventurar no restante de sua filmografia foi o passo óbvio a ser dado. O que justifica minha exaustiva aproximação ao seu cinema, traduzindo legendas dos filmes para o português (Otoshiana – 1962, foi a primeira legenda que eu traduzi, o pontapé inicial de uma linda ‘carreira’ do tradutor que eu me tornaria no Making Off), exibindo outros filmes no Cineclube (Ako – 1965, também seria a primeira unanimidade do atual período que o Cineclube vive no espaço do Cinema da Fundação), até chegar ao presente especial permitido pelos amigos deste site.

5.

E aqui eu preciso registrar minha gratidão.

Aos parceiros Ranieri Brandão e Ricardo Lessa Filho, editores do Filmologia, por terem comprado esse amor, mesmo sem experimentar pessoalmente o brilho do meu olhar. Ver este Dossiê lançado, homenagear e divulgar o nome do Teshiga, é não somente a realização de um sonho, mas o cumprimento de uma missão que recebi exatamente enquanto assistia pela primeira vez ao filme A Mulher das Dunas. Não me esqueço das palavras carinhosas da amiga Michelle Valois, quando, ao receber aquelas ‘levas’ de filmes e mais filmes que eu lhe gravava – e dentre eles estava esse Teshiga –, identificou em minha cinefilia um reflexo de minha fé cristã, chamando-me de ‘cinéfilo missionário’, um ‘evangelista da sétima arte’ (que exagero bonito de lembrar). A todos os demais amigos redatores, pelo investimento na escrita, por compartilharem comigo esse calor e por juntos estarmos fazendo do Filmologia uma voz no deserto, muito obrigado.

Fernando Mendonça

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290