Jose Torres I / II (1959/1965, Hiroshi Teshigahara)

Constelação

Se na maioria das vezes a imagem do documentário de cinema existe para resgatar ou proliferar uma história (e como conseqüência uma memória), então a sua relevância enquanto processo fílmico às vezes pode residir muito mais na aproximação e no modo de contá-la do que nas possibilidades estéticas e narrativas que possam rodeá-la, porque no estado das coisas referentes à sua realização, Jose Torres (1959) vem para ser a confirmação de um latente fascínio dentro da obra de Hiroshi Teshigahara (a do ser que emerge sob a imagem), que no pandemônio de sombras, consegue encontrar o homem e faz dele seu ecrã vital: porque Torres, o lutador, é antes de tudo uma imagem-corpo em busca de seu reconhecimento enquanto signo de valor, enquanto elemento cinematograficamente esportivo.

A julgar os corpos e os músculos como uma forma de encontro entre o cinema e o ser, Teshigahara encontra a lenda antes de ela existir, pois José Torres no ano da filmagem ainda era um desconhecido medalhista de prata olímpico (perdendo na final das Olimpíadas de Melbourne, em 1958, para o genial László Papp, o maior boxer olímpico da história). Torres enquanto ainda um ilustre desconhecido não lotava os ginásios, os eventos, mas havia ali uma aura grandiosa, cujo confronto das sombras evidencia a narrativa documental para algo que vai se libertar das amarras da obviedade. O didatismo não existe em Jose Torres, porque se existisse o didático impediria que suas imagens (tão pessoalmente comoventes) fossem enquadradas e organizadas numa seqüência naturalmente de cinema.

Os jabs e uppercuts não deixam mentir sobre o imenso talento de Torres, algo que mutuamente a tomada de posição autoral não deixa equívocos acerca do talento de Teshigahara – o esteta do corpo e do homem, o cinema que sente sempre o ser. O cineasta parece conseguir finalmente em Jose Torres filmar duas utopias: a do homem porto-riquenho que vence na América e a da lenda estrelar captada antes de alcançar sua constelação.

E se Jose Torres foi o filme de uma estrela que ainda não tinha alcançado a sua constelação, a sua extensão documentarial finalmente alcança e potencializa esse estrelato; Jose Torres II (1965) tem essa consecução fortificada logo em seu plano inicial: no braço do povo que o ama, o boxer Torres já não era mais um espírito com feitos desconhecidos, agora o homem já tinha virado lenda e é justamente nessa legendariedade que reside o confronto e as dificuldades de Hiroshi Teshigahara, pois se no primeiro documentário o objeto filmado foi o homem e o atleta talentoso, mas ainda com a aura não-lendária, em Jose Torres II não basta somente filmá-lo, porque a essência sobre-humana formou-se e a imagem do cinema de documentário não existe para soterrá-la, mas para expô-la sem perder a sua legitimidade quando posta ao lado do primeiro filme. E com sensibilidade privilegiada, o cineasta discute com as próprias imagens que criou o significado da adoração, poisTeshigahara filma Torres não somente como um herói dos ringues, mas também como um contraponto as cinebiografias: lançando o mito à multidão, só sobrará então o homem descascado, o ser à mercê da imagem, a imagem à mercê do ser.

Jose Torres II concentra sua força narrativa nos preparativos finais da luta que vale o título unificado dos meio-pesados pelo Conselho Mundial de Boxe (CMB ou WBC em inglês) e pela Associação Mundial de Boxe (AMB ou WBA em inglês) contra Willie Pastrano. Nos dias que antecedem a luta vemos um Torres calmo, com uma imensa confiança em suas habilidades, e eis a grandiosidade revelada: Teshigahara filtra a lendária alma do boxeador para concentrar-se nas suas mais singelas nuances, o homem Torres emerge perante a imagem como um ser tangente, capaz de se relacionar com qualquer pessoa que se aproxime. Se há de fato um indiscutível fascínio de Teshigahara pelo lutador, há também uma incontestável admiração pelo homem, porque ambos no fundo não podem ser separados.

É delicioso ver no filme o próprio passado do boxe: do modo de lutar absolutamente distinto dos dias atuais até a maneira como os lutadores ainda que amados conseguiam alcançar um nível de proximidade com seus fãs imensamente maior do que nos dias de hoje (num sentido carnal, essencialmente). A luta (luta?) entre Torres e Pastrana não é outra coisa senão um balé (balé?) de músculos em movimento, ansiando o encontro pelo movimento perfeito, pelo milésimo ideal para que o golpe (golpe?) seja diferido. O balé dos corpos suados encontra seu parceiro ideal no balé da câmera lenta de Teshigahara, que diminui os frames magistralmente para reexibir os golpes de Torres que levaram Pastrana ao chão: são segundos dourados que só podem ter seu esplendor realmente demonstrado na baixa velocidade dos frames, porque de algum modo ao usar a técnica, o cineasta japonês parece revelar a aura (aquela quimera) por trás da carne.

E ao fim com a justíssima e incontestável vitória por nocaute técnico, Torres vai de encontro ao público, que domina seu corpo de um modo nunca antes conseguido por qualquer um de seus oponentes: é a lenda despida, o herói maculado pelo seu sangue e pelo sangue do oponente, que encontrando nas lágrimas extasiadas do povo que o devora, faz explodir a sua estrela suprema, podendo finalmente descansar na sua merecida constelação.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290