Otoshiana (1962, Hiroshi Teshigahara)

Um homem é assassinado e começa a vagar por aí, em forma de alma penada. Mas a assombração só vai perceber aos poucos a situação em que se encontra: a de não poder interferir fisicamente ou sequer interagir com coisa ou pessoa alguma. Surgem diversas tiradas cômicas que em sua estranheza dão a Otoshiana um cheiro oriental difícil de se confundir.

Filme de 62, essa trama sobrenatural que se desenrola seria reciclada diversas vezes ao longo dos anos. Só que na era do Teshigahara não, então vem a necessidade de se fazer entender. Daí somos arremessados imediatamente à época em que o filme foi filmado. Uma época em que Hitchcock e Perkins, depois de contarem que (spoiler para quem nunca ouviu falar em Psicose, 1960) Norman Bates é a mãe, dedicam todo o restinho do clássico a explicar o que acontece na cabeça do psycho-mor do cinema. (fim do spoiler para quem nunca ouviu falar em Psicose).

Mas o didatismo, não soterra o filme, da mesma forma que não pôde abafar a genialidade de Psicose. Otoshiana possui uma combinação de silêncios gigantescos e crueza que frequentemente desconcertam. Mais do que tudo, prevalece a visão crítica ao cotidiano da pobreza, afundado no marasmo e na inércia de quem está condenado a ele. Só resta mesmo o aguardo da morte – que aqui se traveste de branco, por ironia. E na medida que o filme segue fica mais e mais difícil separar os vivos dos mortos.

Bruno Zanile

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290