A Mulher das Dunas (Fragmentos) – Kobo Abe

Parceiro habitual de Hiroshi Teshigahara, o escritor Kobo Abe (1924-1993) foi o autor dos livros e roteirista de Otoshiana, A Mulher das Dunas, A Face de Um Outro e O Mapa Arruinado. A seguir, fragmentos do romance A Mulher das Dunas, tradução de Ernesto Yoshida, em publicação da Aliança Cultural Brasil-Japão.

Uma vez que a terra é varrida por correntes de ar e de água, talvez seja inevitável que se forme a areia. Enquanto o vento soprar, o rio correr e o mar agitar-se, a areia brotará do solo, grão após grão, e serpenteará por toda parte como um ser vivo. A areia jamais repousa. Silenciosa, porém infalivelmente, ela vai violentando, destruindo a superfície da terra…

Essa imagem da areia em movimento causou nele um impacto e uma excitação indescritíveis. A esterilidade da areia, ao contrário do que se imagina, não se deve simplesmente à sua aridez, mas, ao que parece, ao seu incessante movimento, que a torna inóspita para todos os seres vivos. Quanta diferença em relação à monotonia com que os homens se mantêm o tempo todo agarrados uns aos outros!

Com certeza, a areia é um ambiente hostil para a vida. Mas será o sedentarismo absolutamente indispensável à vida? A abominável competição não resultaria justamente do apego à imobilidade? Se todos abrissem mão da fixidez e deixassem levar-se pela corrente de areia, não haveria mais competição. De fato, no deserto nascem flores, vivem insetos e outros animais. São criaturas que, tirando proveito da grande capacidade de adaptação, escaparam do círculo de competição. Como aquela sua família de cincidelas…

Enquanto desenhava na mente a imagem da areia em movimento, o homem por vezes se tornava prisioneiro da ilusão de que ele próprio começava a se mover.

/…/

Confrontado com a areia, tudo aquilo que possui uma forma se torna vazio. A única certeza é o movimento da areia, uma negação de todas as formas. E, no entanto, do outro lado da fina parede de madeira, a mulher continuava a lutar contra a areia. Que diabo esperava ela conseguir com aqueles seus frágeis braços de mulher? Era o mesmo que tentar erguer uma casa no mar afastando as águas. Quando está na água, o navio deve flutuar adaptando-se às propriedades da água.

Essa imagem subitamente o libertou do sufocante sentimento de opressão que, de maneira misteriosa, o ruído da mulher a tirar a areia provocava nele. Se um navio pode flutuar na água, por que não na areia? Se todos se libertassem da idéia fixa de casa, não precisariam consumir suas energias inutilmente na luta contra a areia. Navios flutuando livremente na areia… Casas voejando, vilas e cidades amorfas…

/…/

Teve a sensação de derreter-se instantaneamente dos pés à cabeça num cenário em chamas, porém no seu âmago restava um filete de gelo que jamais se derreteria. Por alguma razão sentia-se culpado. Uma mulher que parecia um bicho… Uma alma reduzida a um ponto, sem hoje nem amanhã… Um mundo onde as pessoas julgavam poder apagar os outros homens sem deixar qualquer vestígio como se fossem traços de giz num quadro-negro… Nem em sonho imaginara que ainda houvesse em algum canto do mundo um ninho de selvagens como aquele. Mas tudo bem…

/…/

- Qual a sua opinião?… Eu realmente não consigo deixar de questionar um sistema de educação que atribua algum fundamento à vida humana.

- O que quer dizer com “fundamento”?

- Estou falando de uma educação ilusória, que tenta convencer as pessoas da existência de algo que não existe. É por isso que me interessa profundamente o fato de a areia, mesmo sendo um corpo sólido, ter consideráveis propriedades hidrodinâmicas.

- Em outras palavras, quer uma educação realista?

- Não; citei o exemplo da areia porque… Afinal, o mundo não é como a areia?… Se olharmos para a areia como uma coisa estacionária, dificilmente captaremos sua essência…. Não é a areia que está em movimento; é esse movimento que é a areia… Não sei como explicar…

- Mas estou entendendo. Sim, é inevitável que no ensino aplicado entrem elementos relativistas.

- Não é isso. Cada qual tornar-se areia… Olhar as coisas com os olhos de areia… Depois que se morre, não há porque ziguezaguear temendo a morte…

- O professor deve ser um idealista… Será que o professor tem medo dos alunos?

- Mas é que os alunos, bem, acho que eles também são como a areia…

/…/

Dizem que o grau de uma civilização é proporcional ao estado de limpeza da pele. Caso o homem tenha uma alma, é na pele que ela está alojada, sem dúvida alguma. Basta pensar em água e a pele imunda se transforma em milhares e milhares de ventosas. Fria e cristalina como o gelo, porém macia como uma pluma, a pele é a gaze que envolve a alma…

/…/

Obviamente, ele também não era nenhum romântico a ponto de sonhar com uma relação sexual em estado puro. Talvez isso seja necessário apenas no derradeiro instante, quando se exibem as presas diante da morte… As folhas de bambu se apressam em produzir as sementes quando começam a secar… Os ratos famintos copulam freneticamente enquanto migram de um lugar para outro… Os tuberculosos, sem exceção, sucumbem à erotomania… O rei ou o soberano instalado no alto de uma torre, e que agora só poderá encontrar a decadência, dedica-se com fervor a formar seu harém… Os soldados à espera de um ataque do inimigo aproveitam cada minuto para se masturbarem…

Sobre a areia acumulada pingava suor, e em cima disso caía mais areia… A mulher tremia nos ombros, o homem era um líquido fervente quase a transbordar… Não conseguia entender como, em tais circunstâncias, podia sentir-se tão terrivelmente atraído pelas coxas da mulher… a ponto de querer arrancar todos os nervos do próprio corpo e, um por um, enrolá-los nas coxas dela… O apetite de uma planta carnívora devia ser exatamente assim… rude, voraz, impetuoso… Uma experiência única, que nunca sentira com “fulana”. Naquela cama com “fulana”, eles eram um homem e uma mulher sentindo… um homem e uma mulher olhando… um homem olhando um homem sentindo e uma mulher olhando uma mulher sentindo… uma mulher olhando um homem olhando um homem e um homem olhando uma mulher olhando uma mulher… A racionalização sem limite do ato sexual refletida no jogo de espelhos… Felizmente, o desejo sexual, com seus milhões de anos de história desde a ameba, não se gasta assim tão facilmente. Mas o que ele precisava agora era desta paixão voraz…

No final, ele nada havia começado, nada havia concluído. Parecia até que não era ele quem tinha saciado o desejo, mas uma outra pessoa que lhe tomara emprestado o corpo. Por sua natureza, talvez o sexo não pertença a este ou àquele corpo individual, mas sim a toda a espécie… Tão logo termina de cumprir seu papel, o indivíduo deve retornar a seu lugar de antes. Somente os afortunados voltam ao contentamento… Os que estão tristes, ao desespero… Os que estavam morrendo, ao leito de morte… Como pôde ter a desfaçatez de tomar tal engodo por uma paixão selvagem?… Teria realmente havido algum mérito se comparada ao sexo de bilhete múltiplo?… Se soubesse que se sentiria assim, era melhor ter-se tornado um asceta de vidro.

/…/

No alto do penhasco, uma névoa leitosa rodopiava enquanto formava enormes ondas. Uma parte sombreada, manchada com o que ainda restava da noite… Uma parte que brilhava como fios de metal incandescentes… Uma parte que se movia com suas gotas de vapor cintilantes… Essa combinação de sombras, repleta de fantasias, provocava nele delírios sem limites. Por mais que olhasse, não se cansava de olhar. Cada instante transbordava de novas descobertas. Desde as formas reais até as formas sobrenaturais que ainda não tinha visto, nada parecia ser em vão.

Seleção / Transcrição – Fernando Mendonça

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290