Antonio Gaudí (1984, Hiroshi Teshigahara)

Apetite de mundos

“[...] eu sei que para mim, para quem as flores fazem parte do desejo, há lágrimas à espera nas pétalas de uma rosa. Sempre me aconteceu a mesma coisa, desde a infância. Não há uma única cor escondida no cálice de uma flor, ou na curva de uma concha, à qual, por alguma sutil simpatia com a alma das coisas, a minha natureza não responda. Como Gautier, sempre fui um daqueles pour qui le monde visible existe.

Oscar Wilde

Quando vi o documentário não convencional de Hiroshi Teshigahara sobre o arquiteto catalão Antoni Gaudi fiquei de imediato extasiada com o enorme privilégio que o diretor japonês proporcionou para a presença imponente do silêncio. A opção pela quase completa ausência de narrativa verbal e o acompanhamento das imagens por um fundo musical experimental ao mesmo tempo eclético e etéreo de autoria de Toru Takemitsu, são elementos primordiais para que se estabeleça um ritmo com uma atmosfera pouco ortodoxa, algo inquietante além de extremamente sensual, proporcionando com estes momentos fílmicos uma experiência estética contemplativa e absolutamente diferente da visita efetiva aos espaços na vivaz cidade de Barcelona.

E não poderia, no entanto, se passar de forma diferente, visto que o que caracteriza os espaços privados e principalmente os públicos desta jovial cidade é naturalmente a presença constante de pessoas, moradores ou, em sua maioria, visitantes, que ocupam os lugares para sempre marcados pelo gênio deste singular arquiteto, nascido na mesma região de outros dois grandes artistas, Pablo Picasso e Salvador Dali. De certo modo são justamente os inúmeros transeuntes que complementam e dão sentido à sua obra: a arquitetura, diferentemente da pintura, é uma forma de expressão artística que encontra na experiência fenomenológica, no confronto com todos os nossos sentidos, a sua plena razão de ser. Uma paisagem está longe de ser reduzida a um dado mensurável e estável relativo ao meio ambiente e muito menos apenas no contorno morfológico de suas inúmeras concretudes, vai além da simples morfologia de seu espaço, existindo em um entrelaçamento dinâmico sobre os olhares e vivências das relações sociais que nelas se cruzam ininterruptamente. E a paisagem de Barcelona respira Gaudi por todos os seus poros.

Quando Teshigahara visitou Barcelona pela primeira vez ao lado de seu pai Sofu, no final da década de 1950, ficou profundamente impressionado pela visão da paisagem catalã marcada pela genialidade de Gaudi. Em seu documentário, realizado vinte e cinco anos depois deste primeiro impacto, ele nos apresenta magistralmente em imagens seu êxtase pela luxúria dos detalhes da imaginação inigualável e extravagante do arquiteto. As cenas de abertura, filmadas durante a primeira viagem, em 16mm e sem som, nos inserem dentro do espírito das ruas da cidade e da cultura catalã, através de visões panorâmicas, assim como de parques e fontes, para em seguida focalizar sobre a obra monumental deste homem estranho, incompreendido em seu tempo, profundamente religioso e que deixou um legado arquitetônico sem igual para a humanidade. A visão mostrada no filme traz então a nostalgia afetiva desta primeira descoberta ao lado de seu pai, um escultor e artista renovador da tradição de Ikebana no seu país.

Podemos discernir a intenção do diretor japonês em nos conscientizar sobre as possíveis influências do catalão, indo da arquitetura primitiva àquela medieval gótica, passando pelo Oriente Médio, chegando aos elementos característicos de estilização da natureza típicos do Art Nouveau. Mostrou com sua câmara móvel e fluida, como Gaudi soube, como preconizou o pensador pré-socrático Heráclito, harmonizar contrários, ao associar elementos de conformação linear em curvas, espirais, hipérboles, e uma extremamente rica gama de texturas e materiais, aludindo a elementos da natureza como conchas, ondas, esqueletos e peles de animais, entre outros. Gaudi queria fundir sua arquitetura de tal modo à paisagem natural que temos a impressão que a organicidade de suas formas não param de fluir, em contínua metamorfose, em devir permanente. Da Casa Batlò e suas escadas semelhantes a uma vértebra arqueada à Casa Milla (La Pedrera), feito para ser um conjunto residencial, cujo perfil ondulado nos recorda uma colônia de abelhas, chegando à Casa Vicens e seus ornatos florais, além da impressionante entrada na forma de dragão na casa do seu mecenas Conde Guell, chega-se finalmente ao Parque Guell onde o entrelaçamento harmonioso entre natureza e estrutura atinge um mimetismo impactante. Será, no entanto, com a grande obra inacabada da vida de Gaudi que a visita se concluirá: o arquiteto trabalhou durante quarenta anos no projeto do Templo de Expiação da Sagrada Família, dos quais os últimos quinze lhe foram totalmente dedicados. Seus imensos arcos, torres, mosaicos e intrincadas figuras religiosas assombram a nossa imaginação como materializações da mente visionária de seu autor. Deixada inacabada pela morte prematura do arquiteto, permanece até hoje como objeto de especulações sobre a continuação de seus inúmeros detalhes, marcando para sempre a identidade cultural catalã e propiciando um imenso legado cultural para a humanidade.

Cada sociedade elabora as formas de sua própria sensibilidade, suas próprias categorias, seus próprios conceitos. É curioso que um artista oriental imbuído de toda a tradição nipônica pelas questões da natureza tenha se sensibilizado a este ponto com a imaginação delirante do artista catalão e, não apenas isto, que seu filme tenha suscitado no Japão um interesse inusitado por sua arquitetura. Talvez seja esta a razão que para mim seja profundamente sintomático que o filme se conclua enquanto a evidência de um pensamento de Gaudi apareça na tela: Tudo sai do Grande Livro da Natureza. Tudo criado por seres humanos já nela se encontra.”

Mª do Carmo Nino

Agosto de 2010


ISSN 2238-5290