Resident Evil 4: Recomeço (2010, Paul W. S. Anderson)

2010 está um ano difícil para que filmes de ação encontrem lugar, isso porque Os Mercenários já foi lançado. As convencionais e ultrapassadas fórmulas de um gênero que cada vez mais falsifica o movimento em favor de uma movimentação estéril foram de alguma forma (re)conscientizadas pelo mítico Stallone; feito que pode não resistir ao tempo, mas que coloca em brutal desvantagem toda e qualquer tentativa de gênero que ignore a bem humorada reflexão do pseudo-mestre, pelo menos até o fim deste ano.


Tudo bem, é verdade que pode ser trapaça comparar Resident Evil 4: Recomeço com um filme recém-lançado, mas é impossível não perceber que em vários sentidos essa continuação da franquia chega com atraso aos cinemas. Na verdade, essas ferrugens já podiam ser percebidas nos números anteriores. Se voltarmos o tempo em uma década e nos lembrarmos de Matrix (de fato inesquecível), concluiremos rápido que, tecnicamente, todos os REs são exercícios dispensáveis e fora de seu tempo, o que conta muito para filmes que depositam todas as suas fichas na técnica (entenda-se tecnologia). Sem exageros, poderíamos muito bem retornar mais de um século e perceber que o pioneiro Meliès lidava com o deslumbramento inicial das pirotecnias cinemáticas (os vulgos efeitos especiais de hoje), mesmo aquelas mais amadoras e potencialmente risíveis, com um sentido de necessidade que justificava cada excesso.


Certo, ainda podemos descontar a comparação de Resident 4 com obras tão definitivas para o cinema enquanto técnica. Mas ainda assim, ou talvez justamente por isso, fique evidente que seu atraso se dê mesmo em todos os sentidos possíveis. Sim, porque se a condição apocalíptica da trama central desta saga (consideremos trama e saga dentro de seus aspectos narrativos mais rasteiros) já coloca toda sua idéia como um pálido reflexo do escatológico livro bíblico, Resident 4 afunda ainda mais suas referências ao comparar o navio Arcadia, lugar onde permanece a esperança do recomeço da vida, com a Terra Prometida do êxodo de Moisés (implicitamente também relacionada à arca de Noé).


Mas o que Moisés, ou mesmo Noé, teriam a ver com Resident 4? Obviamente: nada. Assim como em nada RE4 possa se relacionar a Meliès, Matrix ou Stallone, já que estes 3 últimos são exemplares de cinema, arte que também não chega nem perto do filme em questão. E em tempo, pouco pode ser dito ou justificado pela aproximação do cinema com os games, HQs ou videoclipes, porque até estes seriam injustiçados pela excelência que alcançam em tantos casos. O fato é que Resident 4 situa-se num terreno inclassificável, impossível de analisar ou refletir, tamanha a perversidade do vazio que o ocupa.


Falar sobre um filme assim termina por ser não falar nada, permanecer no nada e dele se alimentar. A imagem postal acima, única pausa do filme inteiro, lembra-nos que os mares não se abrem mais ao mando de Deus. Resident 4 também confirma, o fim dos tempos está próximo, e ao menos para o cinema ele já começou.


Fernando Mendonça

Setembro de 2010

2010 está um ano difícil para que filmes de ação encontrem lugar, isso porque Os Mercenários já foi lançado. As convencionais e ultrapassadas fórmulas de um gênero que cada vez mais falsifica o movimento em favor de uma movimentação estéril foram de alguma forma (re)conscientizadas pelo mítico Stallone; feito que pode não resistir ao tempo, mas que coloca em brutal desvantagem toda e qualquer tentativa de gênero que ignore a bem humorada reflexão do pseudo-mestre, pelo menos até o fim deste ano.

Tudo bem, é verdade que pode ser trapaça comparar Resident Evil 4: Recomeço com um filme recém-lançado, mas é impossível não perceber que em vários sentidos essa continuação da franquia chega com atraso aos cinemas. Na verdade, essas ferrugens já podiam ser percebidas nos números anteriores. Se voltarmos o tempo em uma década e nos lembrarmos de Matrix (de fato inesquecível), concluiremos rápido que, tecnicamente, todos os REs são exercícios dispensáveis e fora de seu tempo, o que conta muito para filmes que depositam todas as suas fichas na técnica (entenda-se tecnologia). Sem exageros, poderíamos muito bem retornar mais de um século e perceber que o pioneiro Meliès lidava com o deslumbramento inicial das pirotecnias cinemáticas (os vulgos efeitos especiais de hoje), mesmo aquelas mais amadoras e potencialmente risíveis, com um sentido de necessidade que justificava cada excesso.

Certo, ainda podemos descontar a comparação de Resident 4 com obras tão definitivas para o cinema enquanto técnica. Mas ainda assim, ou talvez justamente por isso, fique evidente que seu atraso se dê mesmo em todos os sentidos possíveis. Sim, porque se a condição apocalíptica da trama central desta saga (consideremos trama e saga dentro de seus aspectos narrativos mais rasteiros) já coloca toda sua idéia como um pálido reflexo do escatológico livro bíblico, Resident 4 afunda ainda mais suas referências ao comparar o navio Arcadia, lugar onde permanece a esperança do recomeço da vida, com a Terra Prometida do êxodo de Moisés (implicitamente também relacionada à arca de Noé).

Mas o que Moisés, ou mesmo Noé, teriam a ver com Resident 4? Obviamente: nada. Assim como em nada RE4 possa se relacionar a Meliès, Matrix ou Stallone, já que estes 3 últimos são exemplares de cinema, arte que também não chega nem perto do filme em questão. E em tempo, pouco pode ser dito ou justificado pela aproximação do cinema com os games, HQs ou videoclipes, porque até estes seriam injustiçados pela excelência que alcançam em tantos casos. O fato é que Resident 4 situa-se num terreno inclassificável, impossível de analisar ou refletir, tamanha a perversidade do vazio que o ocupa.

Falar sobre um filme assim termina por ser não falar nada, permanecer no nada e dele se alimentar. A imagem postal acima, única pausa do filme inteiro, lembra-nos que os mares não se abrem mais ao mando de Deus. Resident 4 também confirma, o fim dos tempos está próximo, e ao menos para o cinema ele já começou. Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290