A Montanha Sagrada (1973, Alejandro Jodorowsky)

Se El Topo (1970), filme mais conhecido (e cultuado) do Jodorowsky, é um desfile de bizarrices, A Montanha Sagrada é o carnaval completo – com a comissão de frente, bateria, ala das baianas, a Sapucaí inteira.

No filme-topeira, a narrativa se desenvolvia em forma de fábula, com centenas de signos rondando as imagens que, potentes que eram, batiam o pé. Em A Montanha fica a sensação de metralhadora giratória, daquelas que Rambo andou usando pra despixelar tailandeses. Não há mesmo espaço pra respirar: em questão de segundos vemos passar por nós um trem-bala de problemas, revoltas e anarquia da época.

A fome de bola do cineasta parece acompanhar o ritmo frenético dos anos 70 e nisso ele acerta em cheio. Tudo é meio atropelado, alucinado e colorido, como se a gente estivesse vendo o filme no meio de uma passeata hippie em movimento. E com a polícia baixando o porrete.

Montanha, filho de A Chinesa (1967, Godard), é ainda filme-irmão de Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo mas Tinha Medo de Perguntar (1972) do Woody Allen. Os dois apostam alto na sátira, nos comentários sobre a carnalidade, no nonsense (piada envolvendo uma tal de máquina do orgasmo está presente em ambos). Os filmes compartilham também a soberania do texto sobre a imagem.

Numa comparação, o filme do Jodorowsky sai perdendo. Sua verborragia – ao menos aqui – não é tão afiada quanto a de Allen e seu conteúdo político soa infantil e superficial na maior parte do tempo. Um comercial com armas em formato de guitarras elétricas é exibido, a trajetória de Cristo é parodiada. Muito dessa piração vira cenas difíceis de desgrudar o olho (mais pela nossa curiosidade mórbida, do que pelo que nos é apresentado como cinema, o que é um problema), mas muito também se perde na falta de objetivo.

Dar ao americano o que ele quer ver: o carnavalzão, o produto de exportação. Parece que o interesse aqui era isolar as excentricidades e o exotismo latino de El Topo e anabolizá-los artificialmente – algo que não acontece em Santa Sangre do próprio Jodorowsky, um grande filme, naturalmente estranho.

Bruno Zanile

Setembro de 2010


ISSN 2238-5290