O Grito (1957, Michelangelo Antonioni)

Outra vez a enfermidade da evasão. Agora alavancada pela repentina ruptura com o sentimento celebrado dia a dia para algum ápice. Um homem, e apenas uma imagem que ele reconhece: sete anos de truques emocionais de uma mulher. O Grito, de Michelangelo Antonioni, põe quatro mulheres diante desse homem, cuja rentabilidade humana tende a perfazer cada relação sem nenhuma compostura emocional.


Na primeira mulher, a filha, o peso de conduzir a fuga através duma transmutação da memória; a cada lembrança uma angustia quase disfarçada da vaidosa consciência. A filha, a própria cruz.


Na segunda mulher, uma antiga conhecida, aquela exclamativa ternura que foi lapidada durante anos sob uma falida aventura de amorosos flertes. E então esse homem de fato no lodaçal de dois passados. Voltado para o passado mais distante com a máscara nauseabunda de um passado que lhe abandonou. Na antiga desconhecida, pregos para as mãos.


Na terceira mulher, a proprietária de um posto, um despontar dalgum desejo, mas um despontar assensual, ocupado desde a herança da filha até a pura identidade do machismo. Na proprietária do posto, pregos para os pés.


Na quarta mulher, a prostituta, o capricho da impassibilidade durante a aceitação do destino sem toques de moldar. A prostituta, a “coroação”. Nada o toca. À sua agridoce passagem se associa apenas alguns paralelos. Junto ao DNA do Neo-realismo Antonioni põe esses paralelos vinculados às lamúrias sociais: são trechos débeis e quase discrepantes, posto que pouco de profundidade conquistam no eixo da trama. Esse homem? Nada o toca ─ talvez o regresso, o volver… e no regresso, nesse volver no entanto…

Bruno Rafael


Setembro de 2010



Outra vez a enfermidade da evasão. Agora alavancada pela repentina ruptura com o sentimento celebrado dia a dia para algum ápice. Um homem, e apenas uma imagem que ele reconhece: sete anos de truques emocionais de uma mulher. O Grito, de Michelangelo Antonioni, põe quatro mulheres diante desse homem, cuja rentabilidade humana tende a perfazer cada relação sem nenhuma compostura emocional.

Na primeira mulher, a filha, o peso de conduzir a fuga através duma transmutação da memória; a cada lembrança uma angustia quase disfarçada da vaidosa consciência. A filha, a própria cruz.

Na segunda mulher, uma antiga conhecida, aquela exclamativa ternura que foi lapidada durante anos sob uma falida aventura de amorosos flertes. E então esse homem de fato no lodaçal de dois passados. Voltado para o passado mais distante com a máscara nauseabunda de um passado que lhe abandonou. Na antiga desconhecida, pregos para as mãos.

Na terceira mulher, a proprietária de um posto, um despontar dalgum desejo, mas um despontar assensual, ocupado desde a herança da filha até a pura identidade do machismo. Na proprietária do posto, pregos para os pés.

Na quarta mulher, a prostituta, o capricho da impassibilidade durante a aceitação do destino sem toques de moldar. A prostituta, a “coroação”. Nada o toca. À sua agridoce passagem se associa apenas alguns paralelos. Junto ao DNA do Neo-realismo Antonioni põe esses paralelos vinculados às lamúrias sociais: são trechos débeis e quase discrepantes, posto que pouco de profundidade conquistam no eixo da trama. Esse homem? Nada o toca ─ talvez o regresso, o volver… e no regresso, nesse volver no entanto….


ISSN 2238-5290