O Bem Amado (2010, Guel Arraes)

Numa das cenas com as famosas beatas de O Bem Amado (aqui atualizadas por Guel Arraes num registro bem distinto ao original de Dias Gomes), vemos duas delas conversando a respeito do significado de um casamento. A primeira, de mais idade e maior pudor, define casamento numa palavra: Respeito. A segunda, já casada e infeliz com sua vida sexual, prefere outra definição: Amor (obviamente em sua manifestação de Eros). O diálogo decorre com as mulheres sentadas uma ao lado da outra, folheando revistas que condizem com seus gostos pessoais. A primeira, segura um periódico chamado Lar Doce Lar, de onde enxergamos várias fotografias do que pode ser imaginado como a ‘casa dos sonhos’, um lugar sereno, impecável, cheio de conforto e recato. A segunda, por sua vez, passa os olhos por uma fotonovela um tanto quanto escandalosa, com vários casais se beijando ardentemente. Uma e outra revelam no objeto de suas leituras os mesmo significados expressos pelo diálogo, demonstrando que suas opiniões partilham de profunda relação com aquilo que lêem, seja recebendo uma influência do lido como determinando a decisão do que escolher ler.

Aceitando a prerrogativa de que o mundo é apreendido e enfrentado pelo homem a partir da perspectiva em que este mesmo o lê, percebemos que já não há mais mundos a serem revelados pelo cinema de Guel Arraes. A cada novo filme lançado, fica bastante claro que Guel se comporta como aquele leitor primário que deslumbrou-se com o ABC e as primeiras palavras aprendidas, mas não se preocupou em adquirir vocabulário para avançar nas possibilidades infinitas que as letras podem oferecer. Se muitas vezes é possível perceber num desenvolver de carreira que o artista limita-se a satisfazer seu público com mais do mesmo, em Guel ocorre o oposto, pois a cada filme vamos recebendo menos do mesmo.

Chega a ser constrangedora a zona de conforto encontrada por Guel naquilo que, é preciso concordar, já pode ser chamado de seu estilo. O belo sopro de fôlego em O Auto da Compadecida (2000) prometia excelentes alternativas para este cinema-televisivo que consegue angariar públicos massivos (sempre um objeto de desejo do cinema nacional) e conservar certa originalidade no tratamento dos temas populares. Mas assim como o político de O Bem Amado, Guel nunca cumpriu suas promessas preferindo permanecer na mesmice da estética escolhida pelo povo, repleta de excessos, pressa e humores que podem ser encontrados facilmente em vários dos semanários cômicos Globais.

Ao continuar revisitando peças narrativas já consagradas revestindo-as de sua eterna mesma leitura, Guel priva seu público de realmente aproximar-se dos originais aos quais deseja prestar homenagem. O chavão caricatural dos personagens em jogo (trabalhado aqui num nível insuportável) termina voltando-se contra o próprio diretor, homem de mesmos gestos, risos e cores, dono de um cinema com muito palavreado sobre o mundo e que sobre este impõe uma verborragia desintegradora, de mesmos gritos e expressões. Guel e seu cinema precisam aprender a ler mais algumas palavras pra voltar a falar do mundo, seja ele qual for.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290