Comer, Rezar, Amar (2010, Ryan Murphy)

SER.

Este é o verbo que realmente importa à protagonista de Comer Rezar Amar; o que poderia justificar suas ações tolas, pois toda jornada empreendida por ela consiste numa busca do ser, num entendimento mínimo de suas motivações e anseios, algo que, por si, é inteiramente digno de tornar-se tema narrativo. Acusar de estéril a roupagem vinculada ao filão da auto-ajuda é uma solução crítica fácil, que pode estar mais relacionada ao Best seller adaptado do que ao filme em questão. Não é este exatamente o problema do enlatado de Ryan Murphy (seu texto); o grande e perceptível problema em jogo está muito mais relacionado aos parcos recursos visuais oferecidos, ao sentido que o cinema pode adquirir quando ele próprio desconhece sua razão de ser.

O problema de Comer Rezar Amar, por outro lado, está justamente em sua constituição cinemática, uma estrutura que demonstra claramente não passar por inquietações que deveriam de alguma forma contaminar o interior da imagem para que o ponto de vista da narradora fosse devidamente expresso. Ora, há muito se sabe que o estatuto da imagem também é passível de enfrentar problemas semelhantes ao que nós, humanos, chamamos de existenciais. Vanguardas, movimentos, indivíduos, são incontáveis os exemplos de experiências cinematográficas que representaram o homem em sua busca interior através de uma busca da e pela imagem, refletindo naquilo que podia ser visto, tudo o que, em outro nível, seria sentido pelo enredo. Mas não é por esse caminho que Murphy constrói seu super-produzido aparato visual. Antes, o que ele nos dá, não passa de um parâmetro estético inflexível, que atravessa a superfície mais externa de diversas culturas e países sem se deixar transformar em nenhuma postura de filmagem.

Se a transformação da personagem não é crível, isto deve-se principalmente porque todo o registro fílmico não se transforma nem abre espaço para qualquer mudança possível. Falar sobre transformação de vida requer mudanças no próprio discurso, neste caso, na própria constituição fílmica, mas não há receptividade ou abertura em Comer Rezar Amar, o que torna sua existência, seu Ser, só mais um problema para o cinema carregar na consciência.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290