Pequeno abecedário de filmes brasileiros

O Cinema Brasileiro sempre enfrentou períodos difíceis e sempre ultrapassou os obstáculos. A verdade é que o Cine BR é quem é de fato o grande espelho que reflete verdadeiramente este País e sua gente. É ele que fomenta idéias e capta a poesia, desencadeia emoções e provoca reflexões sobre o nosso vasto e rico imaginário, seja ele ameno ou duramente real.

O abecedário que vem a seguir na sua parte registra uma produção mais próxima do nosso tempo, pois nos capítulos anteriores referentes ao Cine BR, foram expressivos títulos de outras épocas. Mesmo que a nominação alfabética fique restrita a um filme, no corpo do texto vários entraram. Aqueles que sentiram algumas ausências sabíamos disso, como também citamos algumas produções que alguns desconheciam ou escaparam pelos desvãos da memória. Mas, valeu a generosidade no tocante a expressiva diversidade do Cine BR.

Elinaldo Barros

ABRIL DESPEDAÇADO – dirigido com muito talento e sensibilidade costumeiras pelo cineasta de “Diários de Motocicleta”, Walter Salles. Uma história sobre brigas sanguinolentas e vinganças entre famílias do sertão nordestino brasileiro. A base do roteiro é o livro do escritor albanês Ismail Kadaré, radicado na França. Por sua participação no papel do jovem jurado de morte, o ator Rodrigo Santoro teve abertas as portas para entrar no cinema internacional, depois da passagem do filme pelo Festival de Veneza. Atuam, José Dumont, Luis Carlos Vasconcelos, o menino Ravi Ramos Lacerda e Wagner Moura.

BAILE PERFUMANDO – Os diretores pernambucanos Lírio Ferreira e Paulo Caldas retomaram o tema do cangaço narrando a arriscada aventura do fotógrafo e cinegrafista Benjamim Abrahão. Libanês, ex-secretario do padre Cícero Romão, ganhou deste uma carta, que serviu de passaporte e salvo-conduto para cruzar o sertão nordestino, até encontrar o temido bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O resultado da empreitada está no registro foto-cinematográfico de alto valor histórico-cultural, feito exclusivo que mexeu com autoridades políticas e militares. Luiz Carlos Vasconcelos (Lampião), Duda Mamberti (Benjamim Abrahão) e Aramis Trindade (tenente Rosa) comandam o elenco desta produção que revela um Lampião vaidoso, bebedor de fino uísque, cheirando a perfume e espectador de cinema.

CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRASIL – No ano de 1975 o Cinema Brasileiro passava por maus momentos. Atriz de cinema, teatro e TV, Carla Camurati empreendeu uma aguerrida cruzada pela realização e exibição deste seu primeiro longa-metragem. Mas valeu apena. A história da garota espanhola de dez anos que, inocentemente, cumpre os acordos das realezas e é enviada a Lisboa para casar com o príncipe português Dom João; em 1785. Quando as tropas do imperador as tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte invadem Portugal em 1808, Don João e mais 15 mil lusitanos fogem em caravelas rumo ao Brasil. O azedume, as infâmias, os desejos, as crises da Princesa do Brasil ganham dimensões dramáticas na intensa atuação de Marieta Severo.

DOIS CÓRREGOS – Certamente é o mais poético e mais equilibrado dos filmes do cineasta gaúcho Carlos Reichenbach. Dono de vasta filmografia em que demonstra coerência artística, o diretor de “Anjos do Arrabalde”, “Garotas do ABC”, “Bens Confiscados” e “Falsa Loura”, aborda as paixões juvenis de amigas adolescentes, paixões clandestinas, as feridas e as desilusões da luta armada nos tempos da ditadura militar. Pungente o desempenho do ator Carlos Alberto Ricelli. Ele é o ex-guerrilheiro foragido, amargurado com um bocado de decepções. É marcante a influência do cinema italiano de Valério Zurlinne.

ESTRADA DA VIDA – Ao alvorecer dos anos 1980 o cineasta brasileiro Nelson Pereira dos Santos resolveu saber as razoes do bruto sucesso das duplas de cantores sertanejos nos municípios interioranos do sul brasileiro e da região central do país. Feiras, rodeios, campos de futebol repletos de platéias animadas e embevecidas com os artistas. O gênero não era novidade, pois de há outras duplas pontificavam, sendo Tonico e Tinoco os maiorais. Nelson foi buscar em Milionário e Zé Rico o facho de luz para clarear e desvendar o fenômeno. O filme estourou nas bilheterias palmilhando o circuito dos cinemas populares do centro da cidade de São Paulo e os das cidades do interior. Praticamente este circuito cinematográfico quase já não mais existe. Os cinemas se mudaram das ruas do centro da cidade para dentro dos shopping centers, os novos templos de consumo da classes media e alta. As outras não sabem o prazer quase proibido de assistir a um filme na sala escura. Nem mesmo os populares “O Menino da Porteira” e “Os Dois Filhos de Francisco”, filhos diretos do trabalho de Nelson Pereira dos Santos, o mais velho cineasta brasileiro em atividade nos seus quase 82 anos.

FOR ALL, O TRAMPOLIM DA VITÓRIA – Simpática e agradável comédia tendo como ponto de suporte a presença de topas militares de soldados norte-americanos no estado do Rio Grande do Norte. Devido a sua estratégia posição dentro dos planejamentos de ataque e defesa da Segunda Guerra Mundial. A chegada e permanência dos norte-americanos mexem com os potiguares. Todos buscam tirar proveito: o futuro garantido, negócios imediatos, vida sentimental e até mesmo sonhos com astros e estrelas de Hollywood. A direção, em quatro mãos de Luiz Carlos Lacerda; e as presenças, dentre, Betty Faria, Paulo Gorgulho, Luiz Carlos Tourinho e José Wilker.

GÊMEAS – Uma das melhores adaptações de um conto de Nelson Rodrigues para o largo retângulo luminoso do cinema. Aqui, o intrincado e perverso jogo maldoso entre duas irmãs que vai do mínimo ao máximo, explodindo numa tragédia anunciada. O diretor Anducha Wadington explora muito bem a trama, tirando partido da ambigüidade dos duplos desempenhados por uma notabilíssima Fernanda Torres. Além do bom elenco onde se agiganta o veterano Francisco Cuoco, como um atormentado e impotente pai, percebe-se que o jovem diretor aprecia o suspense e é um legitimo aprendiz das lições do mestre Alfred Hitchcock.

HANS STADEN – Um dos poucos, e bom filme, com base na História do Brasil. No ainda pouco desbravado Brasil, colônia portuguesa, em 1954, no litoral sul, um viajante alemão de nome Hans Staden é capturado pelos índios Tupinambás. Condenado à morte para ser servido num ritual de canibalismo, o alemão vai adiando sua sentença e conquistando a amizade da tribo. Noves meses depois é trocado por mercadorias, graças a intervenção de um capitão de uma caravela francesa. O filme conta com uma boa cenografia, ótima trilha musical de Marlui Miranda e Lelo Nazário e bons desempenhos de Carlos Evelyn e Ariana Messias. A direção é de Luiz Alberto Pereira, adaptando o relato do sobrevivente.

INDEPENDÊNCIA OU MORTE – Em 1972 o país foi tomado de febril entusiasmo patriótico pela passagem do ano do sesquicentenário da independência do Brasil. Afirmou o diretor do filme, Carlos Coimbra no livro da coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Governo de São Paulo, “Carlos Coimbra – Um Homem Raro”, ao autor Luiz Carlos Merten, que não fez um filme “chapa branca”, com arroubos patrioteiros. O produtor do filme, Oswaldo Massaíni, um ano e maio antes deu a idéia ao perceber que estavam próximos dos 150 anos da independência. A Cinedistri, sua produtora, contratou professores e após variadas leituras. Coimbra criou o argumento, transformando depois em roteiro. Pinturas da época foram analisadas e os atores Dionísio Azevedo (no papel de José Bonifacio) e Tarcisio Meira (Dom Pedro I) ficaram bem caracterizados. O quadro do pintor Pedro Américo sobre o grito às margens do rio Ipiranga, foi bem concedido. Coimbra assertiu não houver financiamento governamental e só depois do filme feito houve uma sessão especial em Brasília, com os artistas e a cúpula presidencial. O filme foi um retumbante sucesso.

JOANA FRANCESA – Rodado nas terras e canaviais alagoanos de União dos Palmares, Murici, São Miguel dos Campos, no mar e na paria do Francês e na cidade de Marechal Deodoro, esta produção do cineasta alagoano Carlos “Cacá” Diegues é um marco da cinematografia nacional. Realizada em 1975, a obra registra aspectos do ciclo da cana de açúcar com o declínio dos engenhos, as lutas políticas tingidas de sangue, os dramas existenciais – familiares, à luz da sociologia, da Literatura Brasileira e do realismo mágico. Para o papel titulo a atriz Jeanne Moreau, dublada pela voz de Fernanda Montenegro. Ainda no elenco: Carlos Kroeber, Leila Abramo, Helber Rangel, Eliezer Gomes e o início do jovem de Quebrangulo, Beto Leão (Alberto Leão Maia) que contracenou com a diva do cinema francês e fez assistência de produção. A canção tema, belíssima, é de Chico Buarque de Holanda.

KENOMA – A história se desenrola no povoado de Kenoma, lugarejo atrasado e entre seus habitantes a figura de Lineu, um rústico inventor. O seu sonho é transformar o maquinário de um velho moinho num motor perpetuo, produzindo energia sem uso de combustível. Mas o seu sonho tem um opositor. Boa estréia da diretora Eliane Caffé, que depois fez o ótimo “Narradores de Javé”. Fazem parte do elenco de “Kenoma”: José Dumont, Enrique Diaz, Jonas Block, Mariana Lima e Mateus Nachtergaele.

LINHA DE PASSE – Mais um filme dentro da linha humanista desenvolvida por quem se preocupa com os rumos do homem. O cineasta Walter Salles desta feita aponta suas lentes para o universo periférico da cidade de São Paulo, enfocando uma família e suas lutas, sonhos, quedas, desilusões, e a irrefreável gana de seguir em frente. Uma empregada domestica, mãe de quatro filhos de pais diferentes e grávida de mais um. O mais velho é um moto-boy, outro é frentista de um posto de gasolina e membro de uma igreja evangélica; o terceiro é um jogador de futebol, um boleiro aspirando uma oportunidade num clube profissional. E o último, o caçula, que deseja ser motorista de ônibus, como o pai que ele não conhece. As qualidades do diretor Salles ficam mais uma vez patenteadas: bom condutor da narrativa, bom diretor e elenco e revelador de talentos, aprumo na linguagem cinematográfica e um acurado e sensível olhar na realidade brasileira. Seu filme tem como co-diretora Daniela Thomas, com a qual atuou em “Terra Estrangeira”. A atriz Sandra Coverlone (a mãe) conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, 2009. O filme trouxe de volta Vinícius de Oliveira, o menino de “Central do Brasil”, aqui, na linha de passe do gol de seu personagem.

MADAME SATÃ – Um dos mais famosos malandros da boemia do Rio de Janeiro, da região da lapa. Foi o filme da estréia do diretor Karin Ainouz no longa-metragem. E o primeiro papel de destaque do ator Lázaro Ramos. O malandro Madame Satã foi uma figura fascinante, contraditória. Homossexual, pai adotivo de uma menina, dividia a casa com uma prostituta e um empregado doméstico que trabalhava grosseiramente. Mulherzinha e machão ao mesmo tempo. Ficou famosa uma frase de sua autoria: “– Eu sou viado, mas sou homem, muito homem”. E, valente e brigão, enfrentava um, dois ou mais adversários tendo como arma uma navalha, e os golpes de capoeira. O talento do diretor Karin Ainouz manifestou-se novamente no ótimo “O Céu de Sueli”.

NAVALHA NA CARNE – O ator teatral Plínio Marcos foi um explosivo acontecimento na segunda metade dos anos 1960. As montagens de suas peças incendiavam a ribalta: “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Navalha na Carne”, “Homens de Papel”, “Quando as Máquinas Param”, “Barrelas”, etc. as duas primeiras e a última aqui citadas foram adaptadas à tela do cinema. Coincidentemente, tanto “Dois Perdidos…” quanto “Navalha…” ganharam, cada, duas versões cinematográficas. No caso do filme em pauta, há a versão dirigida por Braz Chediak, 1970, com Emiliano Queiroz, Jece Valadão e a extraordinária atriz Glauce Rocha, todos num duelo cruel pela mesquinha sobrevivência no pardieiro de um cortiço. Na versão do diretor Neville de Almeida, 1997, a luta pela sobrevivência ganha novos contornos com as aparições da prostituta vivida por Vera Fischer.

ORFEU – A saga lírica e trágica do poeta Orfeu, da Mitologia Grega, recebeu duas versões cinematográficas. Em 1958 o diretor francês Marcel Camus adaptou a peça de Vinícius de Moraes, “Orfeu da Conceição”. Como produção francesa recebeu o nome de “Orfeu Negro”. No Brasil foi batizado para “Orfeu do Carnaval”. No elenco, Breno Melo, Marpessa Dawn, Lurdes de Oliveira. Ganhou a Palma de Ouro de Cannes e foi ao Oscar em 1960, vencedor como melhor Filme Estrangeiro.

POLICARPO QUARESMA, HERÓI DO BRASIL – Em 1998, o diretor Paulo Thiago filmou o roteiro adaptado por Alcione Araujo do clássico da Literatura Brasileira, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto. No período entre o fim do Brasil Império e a Proclamação da República transita o herói quixotesco. No Congresso discursa em favor da mudança do idioma português pelo tupi-guarani. Compra um sitio e doa as terras aos flagelados – “desde que trabalhem”. Nas ações do jogo labiríntico da política. O ator Paulo José está irrepreensível. “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

QUEM MATOU PIXOTE? – O garoto Fernando Ramos da Silva, morador de uma favela do ABC paulistano, saiu da miséria graças ao seu trabalho no filme de Hector Babenco, “Pixote, A Lei do Mais Fraco”. Participou de mais dois filmes brasileiros, em pequenas aparições: “Gabriela”, direção de Bruno Barreto; e “Eles Não Usam Black Tié”, de Leon Hirozman. Houve uma telenovela da TV Globo e por ter dificuldades na leitura e compreensão do texto foi afastado. Crescendo, o tempo passando, se mete com o irmão vagabundo e ladrão. Conhece na cadeia a jovem Cida Venâncio, com a qual se casa e tem um filho. Tenta novamente ser ator, pega apenas trabalho de faxineiro. Ganhando mal volta ao crime sob o domínio do irmão. Numa ação policial é perseguido alvejado por oito tiros. O filme de Joffily foi baseado no livro “Pixote Nunca Mais”, de Cida Venâncio. O seu papel foi interpretado por Luciana Rigueira e Cassiano Carneiro desempenhou Pixote.

RITA CADILAC, A LADY DO POVO – O Cinema Brasileiro tem produzido nos últimos anos, vários e bons documentários, tendo consequentimente bons diretores: Vladimir Carvalho, João Moreira Salles, Lyrio Ferreira, Eduardo Coutinho e, dentre outros expressivos nomes, Toni Ventura. É de sua autoria o longa “O Velho”, documentário sobre o líder comunista Luís Carlos Prestes.

Saltando para um lado opostao, o diretor Venturi foi perscutar a figura fascenina de Rita Cadillac. Atriz em alguns filmes, como “Asa Branca”, ao lado então jovem ator Edson Celulari; cantora “sexy”, dançarina do antigo programa do Chacrinha, de boates e, de presídios. Tanto que o titulo de a rainha dos presidiários. Num momento de muitas dificuldades participou de um filme pornô. Com o cachê sanou as dividas e aprumou a vida. Seu marco é a bunda. Quando morrer, pediu para ser colocada de bunda pra cima…

SÁBADO – Para muitos Ugo Giorgetti é o mais paulistano de todos os diretores de cinema de São Paulo. Seus filmes: “Festa”, “Príncipe”, “Boleiros, Era uma Vez no Futebol – 1 e 2”. O filme “Sábado”, de 1996, é sobre um velho edifício com sua variada fauna humana que recebe uma equipe publicitária que quer colocar ordem no favelão vertical para filmar um comercial sofisticado. A parti daí temos uma obra criativa, engraçada, repleta de situações inusitadas, com uma galeria de personagens ricas em esquisitices e aspectos insólitos, como o do morador que vive num apartamento cheio de pássaros. Sem falar no elevador quebrado, cheio de pessoas e o cadáver de um velho morador. No elenco: Maria Padilha, Otávio Augusto, Décio Pignatari, Tom Zé, Jô Soares e outros.

TODOS OS CORAÇÕES DO MUNDO – Este é um inusitado documentário sobre a Copa do Mundo de 1994, e lançado dois anos depois. Foi a Copa sediada nos Estados Unidos e que revolucionou as transmissões dos jogos pela TV, onde o cinema dos estúdios de Hollywood inseriu na tecnologia das câmeras buscando lances através de ângulos ricos em detalhes. Já o documentário sobre o grande evento esportivo que mexe com todos os corações do mundo procurou captar e revelar a beleza das jogadas, o talento dos craques, as emoções do goleador e do goleado e as tantas manifestações dos torcedores de diversos pontos do mundo. Foi o filme oficial da copa. Registrou com 18 câmeras de 35mm todas as 52 partidas. Utilizou 4 equipes de 16mm para apanhar cenas dos treinos e dos jogos. O resultado final é deslumbrante quanto um gol de placa. A direção é de Murilo Salles.

UIRÁ, UM ÍNDIO EM BUSCA DE DEUS – Uma história do antropólogo e professor Darci Ribeiro, que durante certo tempo de sua vida conviveu e estudou o comportamento de tribos indígenas brasileiras. No final dos anos 1930, o índio Uirá, da Tribo dos Urubus, no interior do Maranhão, desconsolado e inconformado com a morte do filho mais velho, parte com a mulher e dois filhos à procura de Maíra, uma divindade em busca de uma explicação que aplaque sua dor. Por onde passa é incompreendido. Direção e roteiro de Gustavo Dhal, com Érico Vidal e Ana Maria Magalhães. Produzido em 1974.

VILLA LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO – Um belo trabalho do produtor e diretor cinematográfico Zelito Viana (irmão do humorista, ator, autor e pintor, Chico Anísio), o pai de Marcos Palmeira. Cinebiografia sobre a figura do músico, maestro e compositor, Heitor Villa Lobos (1887- 1959). Um gênio – ousado, arrebatador, polemico, inquieto. Incompreendido, intuitivo, apaixonado, vibrante, perturbador, polêmico, melodioso, brasileiro. O filme começa em 1957 e, anacaronologicamente, vai apresentando um painel das fases da vida do magno artista. Um bom elenco dá suporte dramático ao filme: Marcos Palmeira e Antônio Fagundes vivem Villa Lobos; Ana Beatriz Nogueira (Lucila, a primeira mulher) e Letícia Spiller (a segunda). Um filme obrigatório nas salas dos cursos de Música.

XICA DA SILVA – Quem melhor resumiu a personagem histórica Xica da Silva foi o compositor Jorge Ben Jor: Xica da Silva, a negra/ de escrava e amante/mulher, mulher do fidalgo tratador João Fernandes/ Ai, ai, ai,/ Xica da… Xica da… Xica da… Xica da Silva, a negra…” O diretor Carlos Diegues ainda emprestou á escrava mineira de Diamantina, um pouco da malícia palmarina de Jorge de Lima e sua “Nêga Fulô”: “... A nêga tirou o cabeção/ E de dentro dele pulou nuinha a negra Fulo…” História do Brasil, paixões ardentes amorosas, conspirações políticas, jogos de sedução pelas tentações da carne e da gula. E atores e atrizes afiados e sob a regência harmoniosa de Carlos “Cacá” Diegues: Walmor Chagas, Elke Maravilha, Rodolfo Arena, Stepan Nercessian, José Wilker, Altair Lima, Beto Leão. Pairando sobre todos, o dengue, o charme, a força e o veneno da talentosa Zezé Motta. Ela é a rainha de ébano do Cinema Brasileiro.

YNDIO DO BRASIL – o diretor Sylvio Back começou em 1968 com o longa “Lance Maior”, crônica urbana sobre as paixões amorosas e as relações inter classes sociais. Um ótimo começo com as presenças de Reginaldo Faria, Irene Stefânia e Regina Duarte. Impactou ao apresentar a presença do nazismo no sul do Brasil em “Aleluia Gretchen”, com Miriam Pires e Carlos Vereza. Produção dos anos 1970, ainda hoje pertubador. Back vai para os documentários: “República Guarani”, “Rádio Auriverde”, “Yndio do Brasil”, 1995. as expedições do cinegrafista major Thomaz Reis, em 1912, filmaram o índio brasileiro pela primeira vez. Em seu filme, Syvio Back fez uma colagem de filmes e músicas nacionais e internacionais formando um mosaico que vai do romantismo ao preconceito. Um filme para pensar e discutir.

ZUZU ANGEL – Um assunto delicado e difícil. Afinal, o fato aconteceu no Rio de Janeiro, logo após a decretação do Ato Institucional N° 5, pelo regime ditatorial militar. O diretor Sérgio Rezende, realizador de “O Sonho não Acabou”, “O Homem da Capa Preta”, “Lamarca”, “Guerra de Canudos” e do recente “Salve Geral”, fez um eficiente “Thriller” político sobre a morte do jovem Stuart Angel. Filho da estilista de moda Zuzu Angel, o rapaz foi preso, torturado e depois amarrado e arrastado por um veiculo jipe. Com um detalhe escabroso. Sua boca foi colada no cano de escape do veículo pertencente à Aeronáutica. Zuzu Angel bate nas portas de muita gente e gabinetes em busca do filho. Até a embaixada dos Estados Unidos ela apelou, implorou. De repente vieram as ameaças, as perseguições. Sua morte foi outro ato de violência. Sabotaram o sistema de freio de seu carro. Ao retornar, à noite, para casa, o automóvel, numa descida ganhou velocidade e, sem controle, capotou. Patrícia Pilar interpretou Zuzu Angel. A composição musical, “Pedaço de Mim”, de autoria de Chico Buarque de Holanda, é uma tocante homenagem a esta mãe tão sofrida e corajosa.

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290