A imagem nacional

Das variações semânticas que o termo imagem se permite ter, duas interessam ao título proposto para este desabafo. A primeira, relaciona-se ao aspecto residual do objeto imagem, sua manifestação física, aquela que enxergamos, tocamos e apreendemos sensorialmente; a segunda, aproxima-se mais do sentido imagem conotado pelo campo das idéias (o eidos platônico), a qual pode perfeitamente distinguir um sentido para a imagem objeto, sendo possível falar de uma imagem da imagem.

O inevitável trocadilho veio-me a mente durante a organização do presente especial sobre Walter Hugo Khouri, o primeiro cineasta nacional especificamente focado pelo Filmologia e, curiosamente, aquele que, até o momento, nos foi o de mais difícil acesso à obra. Não bastando a impossibilidade de acesso a muitos de seus filmes, ainda entrou em jogo a má qualidade de preservação daqueles que se encontram disponíveis (os que formam o corpo crítico dessa edição). Obstáculos que me levaram a alguns incômodos questionamentos, referentes ao descuido que o patrimônio cultural de nosso país enfrenta e o consequente desinteresse obtido pela população, em outras palavras – e num sentido estritamente cinematográfico –, problemas que dizem respeito ao objeto imagem (filme), descuidado em nosso país, e ao sentido imagem, desinteressado pelo nosso público. Afinal, não será a má qualidade de imagem do nosso legado cinematográfico um dos principais fatores responsáveis pela má imagem que nosso público faz do cinema nacional?


Ter o prazer de guardar no acervo pessoal um filme raro de um bom diretor possui um valor incalculável, mas perceber que um bom diretor tem toda sua carreira relegada ao mercado quase negro das raridades, nos remete muito mais a desvalorização e banalização do raro. O total descaso que a filmografia do Khouri enfrenta, não limitado ao nome deste autor, pode ser observado em incontáveis casos de nosso (?) cinema. E por mais que iniciativas venham surgindo no cenário da preservação audiovisual brasileira nos últimos anos (destaque-se a criação, em 2008, da ABPA – Associação Brasileira de Preservação Audiovisual), é preciso reconhecer que o resgate da memória do cinema brasileiro engatinha a passos curtos.


Tais fatos podem ser constatados sob diversos pontos de vista, mas para ficarmos em nosso ambiente de circulação, a web, podemos perceber algumas conseqüências graves, das quais menciono duas: a não preservação dos filmes acarreta o não compartilhamento virtual dos mesmos pelo universo cinéfilo que, cada dia mais, vem descobrindo cinemas diversos dos comercialmente lançados; esta mesma inacessibilidade acarreta um indesejável esvaziamento crítico, pois aquilo que não se pode ver, não se pode pensar. Assim, a nova geração cinéfila brasileira, apesar de estar cada dia mais antenada, assistindo e refletindo os cinemas do mundo, permanece alheia a muito da história cinematográfica de seu país, sendo condicionada a acompanhar com um olhar semelhante ao do estrangeiro os acontecimentos de uma cultura que custa a reconhecer como sua.


Como expus inicialmente, as presentes palavras nada são além de um desabafo. Contribuir na organização deste especial, pessoalmente, foi passar por cima da dolorosa interrogação que intercalei ao questionar a idéia de nosso cinema. Falar de Khouri, bem sei, é mais do que falar em demarcações geográficas ou culturais; e por reconhecer em suas imagens um cinema que todos podem chamar de meu, independente de nacionalidades, mantenho a esperança de que algo mude, de que essa história esteja longe de conhecer um ponto final


Fernando Mendonça

Outubro de 2010

Das variações semânticas que o termo imagem se permite ter, duas interessam ao título proposto para este desabafo. A primeira, relaciona-se ao aspecto residual do objeto imagem, sua manifestação física, aquela que enxergamos, tocamos e apreendemos sensorialmente; a segunda, aproxima-se mais do sentido imagem conotado pelo campo das idéias (o eidos platônico), a qual pode perfeitamente distinguir um sentido para a imagem objeto, sendo possível falar de uma imagem da imagem.

O inevitável trocadilho veio-me a mente durante a organização do presente especial sobre Walter Hugo Khouri, o primeiro cineasta nacional especificamente focado pelo Filmologia e, curiosamente, aquele que, até o momento, nos foi o de mais difícil acesso à obra. Não bastando a impossibilidade de acesso a muitos de seus filmes, ainda entrou em jogo a má qualidade de preservação daqueles que se encontram disponíveis (os que formam o corpo crítico dessa edição). Obstáculos que me levaram a alguns incômodos questionamentos, referentes ao descuido que o patrimônio cultural de nosso país enfrenta e o consequente desinteresse obtido pela população, em outras palavras – e num sentido estritamente cinematográfico –, problemas que dizem respeito ao objeto imagem (filme), descuidado em nosso país, e ao sentido imagem, desinteressado pelo nosso público. Afinal, não será a má qualidade de imagem do nosso legado cinematográfico um dos principais fatores responsáveis pela má imagem que nosso público faz do cinema nacional?

Ter o prazer de guardar no acervo pessoal um filme raro de um bom diretor possui um valor incalculável, mas perceber que um bom diretor tem toda sua carreira relegada ao mercado quase negro das raridades, nos remete muito mais a desvalorização e banalização do raro. O total descaso que a filmografia do Khouri enfrenta, não limitado ao nome deste autor, pode ser observado em incontáveis casos de nosso (?) cinema. E por mais que iniciativas venham surgindo no cenário da preservação audiovisual brasileira nos últimos anos (destaque-se a criação, em 2008, da ABPA – Associação Brasileira de Preservação Audiovisual), é preciso reconhecer que o resgate da memória do cinema brasileiro engatinha a passos curtos.

Tais fatos podem ser constatados sob diversos pontos de vista, mas para ficarmos em nosso ambiente de circulação, a web, podemos perceber algumas conseqüências graves, das quais menciono duas: a não preservação dos filmes acarreta o não compartilhamento virtual dos mesmos pelo universo cinéfilo que, cada dia mais, vem descobrindo cinemas diversos dos comercialmente lançados; esta mesma inacessibilidade acarreta um indesejável esvaziamento crítico, pois aquilo que não se pode ver, não se pode pensar. Assim, a nova geração cinéfila brasileira, apesar de estar cada dia mais antenada, assistindo e refletindo os cinemas do mundo, permanece alheia a muito da história cinematográfica de seu país, sendo condicionada a acompanhar com um olhar semelhante ao do estrangeiro os acontecimentos de uma cultura que custa a reconhecer como sua.

Como expus inicialmente, as presentes palavras nada são além de um desabafo. Contribuir na organização deste especial, pessoalmente, foi passar por cima da dolorosa interrogação que intercalei ao questionar a idéia de nosso cinema. Falar de Khouri, bem sei, é mais do que falar em demarcações geográficas ou culturais; e por reconhecer em suas imagens um cinema que todos podem chamar de meu, independente de nacionalidades, mantenho a esperança de que algo mude, de que essa história esteja longe de conhecer um ponto final.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290