Sobre a distância do olhar e da memória

“Neste lugar pode-se derramar uma lágrima em distintas ocasiões. Assumindo que a beleza consiste na distribuição da luz na forma que mais agrada a retina, uma lágrima é o reconhecimento, tanto da retina como da lágrima, de sua incapacidade de reter a beleza” – Joseph Brodsky, em A Marca D’água.

Em uma época assolada pela facilidade de visualização e armazenamento, o cinéphilie atual se depara com aquilo que talvez seja seu maior inimigo: a imagem-túmulo. Porque na mesma velocidade em que se torna possível assistir filmes raros, clássicos e atuais, o cinéfilo soterra o próprio debate cinematográfico no desespero da quantidade, que parece ser o grande motivo dessa “paixão”. Os raciocínios sólidos na defesa de um filme cedem seu lugar (que deveria ser insubstituível) para a distração, o debate se torna abstração, a imagem cinematográfica se torna o túmulo do olhar, porque em nenhum momento potencializa o cinema como memória-pensamento, mas somente como número-quantidade.

Na forma de um misticismo do sentido, da voz que segue por conta própria, estou há mais de um mês sem ver qualquer filme (um desafio que pensava até então ser impossível de superar – e ele ainda se alongará por mais cinco semanas). Mas no silêncio da distância, na memória da imagem-vida dos filmes da minha vida, descubro um bem valiosíssimo do cinema que desconhecia: o abandono. Mas não o abandono eterno, o literal. Falo de um abandono temporário, necessário, que só pode existir através da paixão, porque esse abandono temporário é legitimado como tal quando há saudade, a indispensabilidade da volta, do retorno como fragmento amoroso e irreversível. Não há retorno mais triunfal e humano do que o retorno pela saudade. Então distante do cinema, abandonando-o, descobri o mais genuíno modo de amá-lo: através da memória.

Memória, essa espécie de imagem-túmulo, cujos fragmentos cinematográficos ecoam num refinado sentido da natureza, das estações da alma que sucedem dentro do seu universo inatingível para qualquer outra coisa que não seja nós mesmos. A memória tornando-se túmulo (porque dos milhares de filmes vistos, apenas uma parte irrisória permanece para sempre intacta) encontra no abandono o seu caminho revigorante, o seu além-túmulo.

No abandono, nesse exercício memorial da busca pelos filmes que amamos, vamos dolorosamente nos tornando cinematográficos: tentamos buscar, mais do que nunca, uma certa imagem-túmulo daquelas cenas crepusculares dos filmes que nunca esqueceremos, e tal como um paciente com Alzheimer em estado terminal que chora quando por alguns segundos retoma a consciência do seu estado vegetativo, ao lembrarmos pela memória de alguma imagem-túmulo e sem forças para reagir, talvez só nos restem as lágrimas – porque no final, uma lágrima é o reconhecimento, tanto da retina como da lágrima, de sua incapacidade de reter a beleza.

A aproximação do fim desse meu abandono temporário causa mais alívio do que temor, porque na distância do cinema, desse objeto de amor incondicional, descobri que não existe nada tão dolorido quanto a saudade, ao passo que também descobri que não existe recordação mais soberba do que aquela que vem da memória e de sua imagem-túmulo que só pode ser acessada por duas vertentes: a do amor e a da saudade. Nesse abandono, a única coisa que temo é me transformar em uma câmera – porque como disse o crítico carioca Bernardo Krivochein: é somente quando abandonamos o cinema que nos tornamos cinematográficos.

Ricardo Lessa Filho

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290