Se Cuida, Tatiana (1994, Aki Kaurismäki)

Provavelmente é a obra mais incompleta do Kaurismäki. Como ele próprio afirmaria depois num de seus ataques de auto-depreciação, o filme é construído estritamente através dos improvisos do elenco e, como resultado, temos um trabalho demasiadamente vazio e desconexo, algo que não tem necessariamente a ver com a abundância do silêncio – afinal, o este é amigo tão íntimo da filmografia dele, geralmente usado de maneira criativa e desconcertante. Não é o caso aqui.

Seja como for, o filme ainda desperta interesse, primeiro por seu refinamento visual, um preto-e-branco de deixar os olhos rodando (algo surpreendente já que estamos falando de um cineasta que acredita na secura da imagem); mas, especialmente, pelo desenrolar do (improvisado) pedaço temático. Trata-se de um road-movie improvável em que dois sujeitos desajustados – Valto (um recluso viciado em café que, beirando a casa dos 40, ainda mora com sua mãe) e Reino (mecânico e, nas horas vagas, roqueiro invocado – por sua vez, amante constante de garrafas de vodka) começam a rondar toda a Helsinki sem destino certo, num desolamento e nilismo que indica a presença de Kaurismäki por de trás das câmeras com a eficiência de uma placa de trânsito. A grande virada acontece quando eles conhecem uma russa e uma estoniana, turistas a procura de companhia.

O filme começa então a versar sobre a dificuldade de socialização que esses homens lacônicos, aos quais o cineasta passou toda sua filmografia se debruçando, encontram ao tanger tragetória rumo à mentalidade adulta – em especial no que se refere ao alcance do tão desejado universo feminino. Se no início da jornada Reino se mostra seguro e acintosamente tagarela, ao ver seu mundinho azul ser invadido pelas fêmeas, passa a adotar o compartamento inverso, a introversão profunda. Comportamento esse que rende diversas tiradas cômicas, no melhor estilo Kaurismäki, claro.

O nível de desconforto chega a níveis inacreditáveis, algo que se acentua graças às diferenças culturais que separam ainda mais porção Bolinha da Luluzinha nessa trupe. Mas o filme não chega a realmente se aprofundar na questão do conflito social, como também não se aprofunda em temática alguma. As resoluções são simplistas: Reino, que apesar de suas limitações impostas pela timidez ainda consegue devolver minimamente afeto da estoniana (a tal Tatiana do título), consegue o amadurecimento ao fim da jornada; enquanto Valto, que se mostra ainda mais frio e indiferente às mulheres, não consegue levar nada de bom do ciclo ao qual é submetido. Tudo ganha contornos simplórios demais quando poderia ter sido, como o grosso da obra do Kaurosmäki, apenas simples.

Bruno Zanile

Junho de 2010


ISSN 2238-5290