Amor Estranho Amor (1982, Walter Hugo Khouri)

Quando em Amor Estranho Amor o protagonista, ainda criança, percebe-se fora de olhares libidinosos, timidamente leva os olhos ao chão. Porem, quando sua mãe comete a mesma ação, é quando se percebe afastada do foco libidinoso.

Mais que um amor estranho, existe uma estranha correspondência entre mãe e filho, que obedece a uma vassalagem fora da presença do parentesco.

Assim, ambos encimentam a relação na medida em que arrancam da atmosfera que cerca seus corpos tabuas doutrinárias de aceitação do encontro inesperado. Talvez isto se dê, sobretudo, porque a casa onde habitam está então como ensinamento maior; organizadora de fermentos mentais. Passando pelo crivo do “lar” o desafeto com convenções, adquire propostas de vigores lúcidos. Banqueteando-se na prosperidade dos cômodos, aquela intimidade pouco a pouco afigurada entra numa dormência que diverge do teor dos encontros entre mãe e filho, posto que é uma intimidade conquistada nas esferas extremas onde cada um se acha; ele passando a conhecer, ambicionando permanecer; ela já fatigada de seu conhecimento, ambicionando sair.

Quando em Amor Estranho Amor, o protagonista, já adulto, esboça seu maior sorriso, é quando se observa, ainda criança, na sua iniciação sexual. Porem, quando, tristemente, observa-se, ainda criança, em prantos, é quando está em paralelo aos planos que encenam a primeira relação sexual do filme – que é onde está sua mãe.

Então, tanto quanto um estranho amor existe uma estranha afeição do Hugo adulto direcionada para aquela passagem da vida do Hugo garoto.

Alem de celebração nostálgica, a ida do adulto à casa onde o garoto habitou alguns dias emociona a nomeação de tudo o que se desvirginara impassivelmente; aperta as essencialidades de cada nutriente promíscuo; encarna as expressões esquecidas no atraso do rosto que queimava; sepulta a tensão instrumental, logo suscitando um diagnóstico ainda luxuriante dos caprichos humanos; molda afinal a noção de regalia do destino tanto no que toca a experiência adquirida quanto que toca a figura de voyeur, pois que agora nenhuma observação transtorna seu corpo no charco da visibilidade.

Agora, devido à sua posição de voyeur do voyeur, não precisa ocultar-se: sua juvenilidade passada ali é sua janela indiscriminada e itinerante. O ritmo de argúcia contemplativa cria um ciclo de gradual harmonização, perpassando a memória da efêmera estadia, a atingibilidade templária da casa já há muito desabitada, o centro no qual o afeto praticara a síntese e a saturação, fecha-se esse ciclo, quando o corpo destemido e maturado traça um sorriso com o corpo juvenil isento de volúpia que é a plataforma de abalos – que é janela itinerante…

Bruno Rafael

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290