As Feras (1995 – 2001, Walter Hugo Khouri)

Para melhor refletir sobre a pungência dos enfoques de As Feras, uma despreocupada inspeção nalgumas obras Walter Hugo Khouri – Digo isto porque, neste filme, se dignifica em expressão extremada e apaixonada. Depois de tantos olhares, tantos flertes, gestos e intermédios masculinos, o cinema de Khouri realiza as explorações de feminilidade e lesbianismo, raciocinado sobre as feições secundarizadas durante a confecção comunitária de sua própria obra cinematográfica. É afinal a liberdade adquirida na absolvição de cada lapso de fuga duma suposta impulsividade e involuntariedade da força que agora aplicada. É afinal a bastarda transigência com o acúmulo.

Em As Feras, evidencia-se que o abuso da imperial vertente não transtornou as juras de desenvolvimento do que dependia dela. Talvez por ser o lesbianismo, tanto quanto a misericórdia dos desejos latentes, a superabundância da afronta ante o desalinho padrão do homem, a magnetização tenha permanecido envergadora; ou seja, perfilando-se entre o fruto do acumulo e as intestinações desse fruto, o filme reconstitui, alem dessa desesperada proposta da inversão duma herança, a imagem do homem e encarcerou-a noutra audiência desgastante; uma da qual jamais participou, a não ser já rastreando onde poderia estar em desfrute.

Todavia (e isso é um ponto alto da obra), não é apenas que o poderio e a imantação da trama bebam na expressão dessa explosão, dessa expressão do acúmulo. À roda disso, alguns domínios pouco desbravados – posto que as óticas anteriores, inevitavelmente, negligenciavam muitos aprofundamentos e exorcismos – aparecem em ação combinatória, condescendendo agora com focos de experimentação. O ciúme, a vulnerabilidade na coloração da dependência, a rivalidade reciclam então os espaços, de cuja as compressões e desfigurações eram alvo. Assim, desencadeia-se uma psicologia pulsátil, sinuosa do homem, visto que esses espaços agora estão abertos e os espaços onde se resguardava de evidencias de debilidade agora estão raciocinando em um hermetismo irado.

Bruno Rafael

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290