As Deusas (1972, Walter Hugo Khouri)

Casal se cansa da cidade, por algum motivo desses que se arranja quando se escreve um filme, e procura guarida no meio do mato. Na verdade eles estão cansados do cotidiano, da sociedade e do capitalismo…

O fato de os personagens se embrenharem no campo não deixa de ser um paralelo com a sexualidade efervescente do filme (****** na moita?) que já revela um teor psiquiátrico elevado demais até para quem se interessa pelo assunto.

O discurso eventualmente tende também para o lado natureba da coisa. “Este planeta é nosso por acaso” é arremessado na tela. Fica faltando um “Salvem o Surucucu-pico-de-jaca”.

Anticristo vem imediatamente à mente, só que sem tesouras ou ovos quebrados. Na verdade As Deusas não deixa também de ser o inverso do filme de Lars von Trier, um filme que preza pelo fator elegância. Ouve-se muito jazz nele.

Diferente da cabana mandingada do Trier, a de Khouri conta com um terceiro personagem, a dona da casa de campo, psicóloga da esposa, que aos poucos se descobre despreparada para o trabalho.

É ela quem protagoniza a melhor cena, quando lembra dos antepassados que circulavam pelo casarão. Um dos momentos mais boêmios da chanchada.

Como é de se esperar nesses TCCs filmados, as metáforas andam sempre livres e soltas. A mais óbvia é a constante aparições de coelhinhos – uma clara alusão a natureza sexualmente aflorada dos personagens.

É bom lembrar que o bacanal poderia ser uma excelente terapia caso os personagens não fossem desses que trepam pra se olhar no espelho e chorar – uma mão na roda pra filme tão submisso a conceitos psiquiátricos.

Bruno Zanile

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290