Noite Vazia (1964, Walter Hugo Khouri)

Procuram-se. Estes rostos, corpos, nomes, vidas, sombras; Motivações, diferenças, desejos, incômodos; Quem os conheça, os tenha visto, tenha sentido; Procuram-se imagens.

Há sempre uma imagem não encontrada. O lugar de um desejo. Aquele mundo visto, mas não guardado; atravessado, mas não vivido; aproximado, mas não tocado. Sim, é este. O mundo em que os filmes de Khouri habitam, onde eles dormem. O desconcertante mundo de Noite Vazia.

Apressar-se ao questionar a possibilidade do valor em ainda se pensar um filme já tão retomado como Noite Vazia, é um ato rapidamente vencido pelo (anti-)final do filme, por sua abertura, essa incompletude a que os personagens insatisfeitos se entregam. Isso porque o entregar-se também é próprio daquele por trás das imagens (Khouri) e do que as recebe de frente (espectador). É por elas e nelas – as imagens – que a procura se dá.

Os dois homens que iniciam a jornada colocam por diversas vezes a necessidade pelo diferente, por aquilo que se desconhece mas se espera, pelo que se sabe existente mas não se possui. Sua errância noturna, seu contato com a cidade e suas sombras, sua aproximação e interesse por mulheres estranhas, assim como o conseqüente anseio do sexo, são marcas de uma procura que não pode ser interrompida, e que, desde o início, já se sabe impossível de satisfazer, como diz um deles: “O que é diferente sempre tem dono.” Mas não é tal convicção que os impedirá de prosseguir, até porque neste mundo não cabem certezas ou verdades inquestionáveis.

Encontrar as duas mulheres com quem decidirão passar a noite, de alguma forma, altera o estatuto da busca anterior, pois toda ela se concentrará com mais vigor, no tempo (da noite) e no espaço (do apartamento). E o que antes era busca agora se torna espera, o que não afetará necessariamente a condição primeira das imagens, ou seja, aquilo que realmente nos movimenta à diferença, tornando-a cada vez mais sensível. Na verdade, é diante da renovada postura tomada pelos personagens – de esperar – que as imagens de Khouri intensificam seu motivo inicial – o de procurar. São elas que nutrem a continuidade do desejo, o que então lhes permite o acesso de possuir, não apenas o que filmam, mas aquilo de que se tornam donas: a diferença.

Walter Hugo Khouri, ao filiar-se a um cinema da busca, partilha de um mesmo anseio que permeia toda a sétima arte, dos Lumière aos mais jovens nomes deste novo século; um anseio que seria próprio de toda e qualquer arte. É assim que o espectador de Khouri (especialmente o espectador de hoje, que antes de tudo vive uma procura pelas imagens perdidas deste cinema), também se descobre um insatisfeito, um incompleto, que revisita um filme como Noite Vazia para lembrar-se que não é saudável adormecer sem encontrar uma nova razão para acordar na manhã seguinte.

A melancolia que contorna a cidade amanhecida ao final de Noite Vazia é uma das mais amargas que o cinema já conheceu. Há perigo na luz. E saber que todo o transcorrer de um dia não significa mais do que uma espera morta antes da chegada de outra noite, só pode mesmo ser suportado por um final que garante haver recompensa além das imagens, na força com que elas se preservarão dentro de nós.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290