As Amorosas (1968, Walter Hugo Khouri)

Juventude, amor, incertezas, sexo, liberdade, insatisfação são palavras que se associam muito bem, principalmente quando nos remetemos aos anos 60. No Brasil o diretor Walter Hugo Khouri produziria nessa década alguns de seus filmes mais significativos entre eles Noite Vazia (1964), O Corpo Ardente (1966) e As Amorosas (1968). Este último dirigido no auge da ditadura militar, mas não num momento menos propicio.

O país estava vivendo uma renovação cultural e em especial o cinema nacional acompanhava tais mudanças batendo de frente ao autoritarismo que havia se instalado no país. O cinema novo produziria algumas de suas obras mais radicais e o cinema marginal florescia como o movimento cinematográfico radical e urbano. Dos grandes filmes produzidos nesse momento se instalava uma critica mais dura as instituições e ao estado. Khouri que sempre procurou exibir angústias e crises humanas, não fez diferente ao dirigir As Amorosas. O personagem central Marcelo (Paulo José) é um jovem que vive em constante crise com si mesmo e com o mundo e procura nas mulheres um refúgio para suas angústias. Aqui em especial três: Sua irmã, uma garota propaganda e uma universitária. Em cada uma Marcelo busca sentimentos e prazeres diversos. O personagem de sua irmã é seu maior refúgio e proteção, onde ele vê como sua própria imagem buscando afeto e atenção. Com a amiga de sua irmã, que trabalha como atriz numa rede de televisão, busca o prazer carnal, tornando-a apenas num simples objeto sexual. Na garota documentarista da universidade é a pessoa que ele escolhe para ter um rápido relacionamento.

Cada uma dessas mulheres afeta de formas diversas o personagem de Paulo José que a cada momento torna-se mais avesso ao mundo em que vive. Busca escapar dos vícios burgueses, mas não consegue abandonar seu conformismo e conforto. Dessa forma o personagem passa a se tornar não só indiferente ao mundo, mas principalmente a si mesmo. A capital paulista torna-se uma jaula sem escapatória, como ao personagem de Walmor Chagas em São Paulo: Sociedade Anônima (1965). O declínio emocional e existencial de Marcelo passa a consumi-lo não só por seus relacionamentos sem grandes significados, mas também pela incompreensão consigo mesmo e as pessoas ao seu redor. As Amorosas pode não ter a força de Noite Vazia ou até mesmo de O Corpo Ardente, mas é o seu grande filme sobre a angústia e sentimento da juventude seiscentista.

O jogo de sons e musicas que inclui a apresentação do grupo Mutantes, cria uma atmosfera de uma época marcante e de fortes incertezas entre os jovens que o viveram. Ainda que os anos 60 seja tão marcante no longa, ainda assim é uma obra sobre jovens e acima de tudo sobre ser jovem, independente da época.

Nuno Balducci

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290