As Cariocas – Segundo Episódio (1966, Walter Hugo Khouri)

Quando a bela Jacqueline Myrna abre os olhos na abertura do episódio dirigido por Khouri para o filme As Cariocas, somos imediatamente conduzidos a identificar uma conexão com a obra anterior do diretor, Noite Vazia (1964), pelo prosseguimento no gesto que completa o adormecer dos personagens no outro filme; agora numa situação avessa ao motivo anterior, pois se lá enfrentamos a noite, aqui será o decorrer de um dia o que movimentará o interesse narrativo. Foi o próprio Khouri quem declarou sentir um tom deslocado na relação com os outros dois segmentos do filme (dirigidos cada um por Fernando de Barros e Roberto Santos), e isso acontece principalmente porque o diálogo potencial desse breve entreato deve se dar, antes de tudo, com a obra primeira do Khouri, com seu mundo pessoal, rigorosamente estético. O despertar da protagonista também vem representar uma condição perseguida por seu autor, filme após filme, condicionada pela impossibilidade do sono, do repouso. Ainda que o cinema de Khouri seja de um imaginário predominantemente noturno e de aparência visualmente estável, não há espaço em suas imagens para um estado que não seja o de plena e consciente atividade. Assim, pelo paralelo traçado com Noite Vazia, encontramos em As Cariocas uma mesma resistência ao inevitável esvaziamento do ser; a mulher que preenche toda a duração do filme opõe-se a conformidade da rotina, desdobrando o significado deste termo numa incontável razão de variáveis, concretizando-se pela condução única de imagens, na maneira como seu criador as orquestra. Aquele despertar, a lânguida abertura de um olhar, termina por abrir caminho para um enigma que ultrapassa a complexidade do feminino, do identitário ou do documental; sua valia será nutrir o posterior suceder do filme num torpor de mistério, semelhante ao desagradável e, ao mesmo tempo, prazeroso, conhecido estado de sonolência.

Pode-se considerar indecente resumir um filme como As Cariocas, mas em linhas gerais, o enredo nos apresenta o cotidiano de três mulheres distintas, num único dia, encarnadas por uma única atriz (Myrna), sem o espaço para rupturas no encadeamento desta inusitada trindade. Ao contrário do que se poderia esperar desse tipo de desdobramento (algumas vezes já visitado pelo cinema), não lidamos aqui com um caso típico de múltipla personalidade; em nenhum momento se exacerba a diferença das mulheres através de truques excessivos como figurino, gestualidade ou falas discrepantes; antes, nos três registros específicos é perseguida uma neutralidade do corpo protagonista, evitando-se as evidências de que existem cisões entre uma mulher e outra – os corpos alterados, na verdade, serão os dos homens com quem ela(s) se relaciona(m). É por isso que torna-se muito mais pertinente observar o múltiplo, não pelo viés do caráter, do que nos é narrado, mas sim na maneira como estes eventos serão suportados pela imagens de Khouri, imagens que, como a mulher, também se conservarão numa mesma linha, discreta e ambígua. Voltemos ao que Khouri afirmou de seu filme, sobre enxergá-lo num outro tom.

Há quem se atreva a acusar o cinema de Khouri como um cinema de mesmo tom, desprovido de variações; também é preciso reconhecer que tal comentário não é de todo infundado. Na verdade, o que se deve ter em mente ao considerar a trajetória de coerência excessiva deste cineasta, é que o tom, antes de ser mesmo é outro, ou para nos valermos de um dos princípios deleuzianos, ele traz no mesmo o outro. A prática exemplar da repetição na carreira de Khouri, seja no estilo ou nos temas trabalhados, assim como no futuro nascimento do emblemático personagem Marcelo, é justamente o que configurará a identidade da diferença (aquela mesma perseguida em Noite Vazia), e nos permitirá concluir de suas imagens que elas são, a partir de um único tom, polifônicas. As Cariocas, ao instituir um universo narrativo que é de princípio polifônico (bastante semelhante ao que herdamos do literário em Virginia Woolf), também torna possível este princípio para a razão de ser da imagem cinematográfica. O tom alcançado por Khouri gera uma imagem múltipla que não se sobressai por sua característica, mas pela maneira como a partir dela, poderá enxergar o mundo. Enxergar este que, inclusive, também pode ser remetido ao último gesto de Myrna, quando, num plano idêntico ao inicial, ela fechará os olhos para aguardar o retorno de um mesmo outro dia.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290