Eu (1987, Walter Hugo Khouri)

Desde o título, fica claro que Eu propõe uma abordagem muito particular de Khouri ao seu já particular modo de utilizar o cinema para questionar o lugar do indivíduo e a possibilidade de expressão subjetiva através de imagens. Do particular ao particular, o peso deste intimismo confere ao filme um desequilíbrio imprevisto, radical, à beira do constrangimento.

Falar de si mesmo, desde sempre, é a atitude esperada de uma obra de Khouri, mas poucas vezes tal expectativa foi cumprida com tamanho excesso e rigor. Ignorando as nuances, os silêncios, e toda a capacidade enigmática que uma imagem exerce, aqui, o diretor retrocede alguns passos para se enxergar melhor. Do título ao tratamento renovado de Marcelo (Tarcísio Meira), nada escapa ao reduzido mundo falso criado por Khouri e forçosamente mitificado por sua maneira de olhar. Olhar o mundo, diferente de outros inesquecíveis tempos da carreira Khouri, já não traz qualquer relação com horizontes desconhecidos, aberturas e esperanças novas; pelo contrário, o olhar de Marcelo é justamente o que fecha o filme numa redoma de vidro, prestes a se quebrar diante de qualquer oportunidade de gozo, de estilo.

A fragilidade da trama, baseada num incesto pai/filha, além de relegada a um irônico estado de pudor pela presença de tantas mulheres em cena, ainda sofre com os parcos recursos cinematográficos, ridicularizados a cada repetição. Monólogos de consciência, super incidência de closes, sonoridade ininterrupta da trilha, todas as articulações do diretor afundam seu projeto numa solidão, como se o próprio filme vagasse perdido no imaginário já bem estabelecido do nome Khouri. Até mesmo seus mais caros temas, simbólicos, sexuais, fetichistas, desfilam numa ingenuidade infantil.

Numa das diversas e desnecessárias afirmações do protagonista ao acentuar sua individualidade e egocentrismo, ele reitera que gosta de brincar sozinho. Sinceramente, essa observação nem precisaria ter sido proferida por Marcelo, o alterego de Khouri, para que fosse identificada como um jogo do próprio diretor. Eu, mais do que tudo, não passa de um brinquedo nas mãos de uma criança mimada, fechada em seu mundo e egoísta o suficiente para não deixar ninguém mais se divertir com ela.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290