O Convite ao Prazer (1980, Walter Hugo Khouri)

A objetividade e precisão da sequência que abre O Convite ao Prazer sintetiza em poucos minutos todo o motivo de um filme que, por sua vez, também evoca todos os (não-)princípios do cinema de Khouri. Há uma sinceridade no sexo fortuito, gozado pelos dois protagonistas com uma prostituta, capaz de iniciar o espectador no sinistro mundo revelado, neutralizando predisposições contrárias e identificando no público, desejos perigosamente semelhantes, assustadores.

É a partir do reencontro de Luciano e Marcelo (isso mesmo, aquele Marcelo) e o insaciável desejo que ambos sentem pelo sexo, que todo o filme se desenvolve, entre orgias das mais diversas. O convite de Luciano para que o amigo aproveite a prostituta em seu consultório odontológico, posteriormente retribuído por outro convite de Marcelo a que ambos se satisfaçam em sua cobertura de luxo mantida apenas para encontros sexuais, pode bem associar-se a um convite do próprio Khouri, interessado em que revisitemos suas obsessões, que relembremos seu cinema num novo gozo, mais irreverente e desprovido de limites. Na verdade, toda a relação entre Luciano e Marcelo, no ponto em que ela se insere narrativamente, ou seja, no retorno de uma amizade nunca esquecida, mas sempre saudosa, é o que faz do filme de Khouri muito mais do que um prazer corriqueiro, o que o constitui como um momento de avaliação da vida e, por que não, do cinema deste autor.

A ambigüidade que cerca a amizade destes homens permite, em certa medida, enxergar neles uma só identidade, ainda que multifacetada. Não é preciso que os dois copulem de fato para percebermos que, sob muitos aspectos, eles significam uma só carne, isto porque todas as observações que fazem um sobre o outro, todas as lembranças que ainda pulsam neles, torna as cenas concentradas num cinema de uma só imagem. A imagem de Khouri, aqui, mais do que nunca, é uma imagem de cavidades, de orifícios, de fendas penetráveis que precisam ser preenchidas, não necessária e exclusivamente representadas pelos corpos femininos. Curiosamente, há muito mais sentido nos corpos dos dois homens do que no desfile de beldades que percorre o filme para satisfazê-los. Não é demais concluir que a satisfação da carne dos corpos de Luciano e Marcelo só se concretiza na reaproximação que um exerce sobre o outro. Nesse ponto, uma das cenas mais importantes é o brutal momento em que os dois penetram uma mesma mulher, num significativo coito anal, reconfigurador de todas as expectativas criadas sobre os corpos em cena. E no final deste ato, assim como de vários outros, Khouri não os poupa de serem filmados no gozo, no olhar orgástico desfalecido, na pequena morte (petit mort) do ser.

Engana-se quem pensa ser O Convite ao Prazer um simples filme de volúpia e desejo. Com esta decisiva obra, Khouri reafirma seu cinema, que, antes de tudo, é um cinema de medos. Filmar poderia mesmo ser compreendido como um ato de puro temor, mas os medos de Khouri são específicos, definidos, como em vários dos melhores gênios que ousaram expor uma insegurança primordial e motora para o gesto criativo. O convite de Khouri vem, dessa forma, unir-se a cinemas que enfrentaram o medo do passado, da memória, do corpo envelhecido, da morte, essencialmente, o medo do tempo (Resnais, Visconti, Aldrich, tantos nomes podem ser lembrados). Desenfrear a carne de seus personagens nos prazeres do sexo é a maneira que Khouri encontra para fazer suas imagens resistirem ao terror original; e se ele recorre à permanência da memória, não só neste, mas em tantos outros de seus filmes compostos com imagens-lembranças, é porque acredita que, de alguma forma, a resposta que o cinema deve aos seus medos está na possibilidade que a imagem tem de vencer o esquecimento.

Fernando Mendonça

Outubro de 2010


ISSN 2238-5290