Cão sem Dono (2007, Beto Brant)

Valorizando a rentabilidade do que se interpõe entre o sofrimento do protagonista, em vez do que o confrange, o limita, Cão sem Dono, de Beto Brant, reconhece-se como apologia ao redescobrimento e reanimação dos tempos amortalhados por objetivos, cujas visões se vão emurchecendo a partir da alienação, que em foco causa. E da marginalização, que uma simplicidade de enfrentamento causa.

Cão sem Dono é um daqueles filmes onde sua maior delícia pode ser sugerida por sua sinopse e conferida por sua projeção. Trata-se de um tradutor que se relaciona com uma modelo, mas que tal relação não ultrapassa nem se deixa ultrapassar, em graus de importância, as relações organizadas paralelamente.

Aliás, a relação principal (do tradutor com a modelo) apenas pode oferecer suas colorações quando recebe dessas outras relações o alimento do desassombro que, embora ligado a ela, desfoca-a através duma espécie de coloquialismo de exorção, onde os diálogos estão tão despreocupados em presumir conexões para uma sequência dramática, quanto preocupados em aceitar os recursos didáticos das energias (alegrias) adormecidas do protagonista.

Deste modo, o filme não desenvolve um drama; auxiliado pelos constantes pelos fade in, o fade out que se agregam num transcorrer pouco inflamatório, ele decodifica as muitas mornidões da vida diária, ao passo que recebe propostas de desenvolvimento dramático e cúmplices introspecções.

Dizendo que Cão sem dono é concêntrico para ser excêntrico, também caberia dizer que o filme põe-se sobre uma mornidão, para pulsar em meio a uma lentidão e uma brusquidão.

Bruno Rafael

Novembro de 2010


ISSN 2238-5290