Vincere (2009, Marco Bellocchio)

Vincere, de Marco Bellocchio, é um filme dividido em duas partes; partes temporais comandadas pelas vicissitudes e encadeamentos de sentimentos. Tal projeto pareceria até infértil não fosse a natureza fidelíssima ao próprio tempo que pigmenta a segunda parte.

É que, nesta, concilia-se a regência estagnadora da emotividade ficcional e a avaliação conversora, embasada na onisciência e na instintividade de quem está atrás da câmera.

Antes de dissertar, adianto que Vincere não se realiza através do tom literal da paixão. A quantidade que dela se propaga só é o bastante para se abandonar numa cegueira perante o infortúnio de sua ocasião, e para aceitar, confundindo com tons de compensação, os atributos insensibilizadores de sua comunicabilidade desvairada. Decerto, por isso, todos os instintos concorrecionais e rivalizadores que deveriam acoplar-se a figura da primeira mulher de Mussolini, são absorvidos, sem descanso, pelo desencontro do ”tempo arbitrário” e do “tempo ocasional”, ou seja, o afeto de Ida Dalser por Mussolini, que está desenredado de sinônimos temporais; e do de Mussolini por sua ideologia, que apenas naquela específica época poderia haver se erguido.

Embora, à sombra duma primeira vista, a segunda parte pudesse representar a metáfora da primeira parte, a grosso modo, ambas as partes são metáforas de si mesmas, à medida que acompanham seus paralelos que, explicita e contraditoriamente, também são seus paradigmas. A sentença que redunda nessa pseudo-independência se solidifica por meio da debilidade do alcance dos sentidos; por meio da resolução encarceradora envolvendo o teor sensorial. É porque o olfato ocupava-se nas emanações da volúpia pugnaz e afortunada, que passou a apreender a “frialdade inorgânica” das grades e a frialdade orgânica das freiras; e é também porque a ilustração física de Mussolini foi-se, que o tato e a visão desataram-se; daí restando apenas virtualidades, em cujos fluidos uma imaginação preparada a partir do real vivido reage mais habilmente do que uma disposição sensorial, já dedilhada por sentimentos conseqüentes do fato passado.

Para finalizar, acha-se um trecho que merece inúmeras leituras e sondagens, dentre tantos trechos que retratam o quão Vincere paira além do que quis se afeiçoar.

Tal trecho é aquele onde o filho de Mussolini o imita, após assistir um vídeo de um de seus comícios. Em verdade, faz-se menos uma imitação do que uma macabra tentativa de cercar as heranças genéticas e populares de Mussolini ou repropor, sob instantes de clareza, a vileza mascarada pela impetuosidade do mesmo. Durante essa cena, o filho assume explicitamente os tópicos elaborados e assimilados gradualmente pelo pai; desde a eficiência aforismática do olhar da juventude até os fatídicos e circenses trejeitos da maturidade. Jovem, o pai vivia com um dos lados da face acompanhada por penumbras e vacilantes escuridões; imitando-o, o filho assume isso de acordo com o balanço fremente dos seus lisos cabelos agregados ao suor que desliza da testa.

Bruno Rafael

Novembro de 2010


ISSN 2238-5290