Eclipse (2010, David Slade)

Eu precisei esperar. O último dia, exatamente a última sessão, para assistir Eclipse num cinema de rede Multiplex aqui em Recife. Somente assim poderia chegar ao filme ultrapassando a expectativa quase antropológica de enfrentar um produto de mercado que aceita o risco de só dar certo entre os suspiros de adolescentes, gritos excitados de um nicho de público particular e super lotação de salas que ofusca as limitações do objeto de culto. Foi assim, numa sala com no máximo uma dúzia de pessoas, das quais eu era o mais jovem (o que comprova um interesse potencial pela franquia por um público de mais idade que não é explorado pela mídia), que eu consegui assistir ao filme da maneira que um filme deve ser visto.

Não é possível ignorar um fenômeno de bilheteria como a saga Crepúsculo. Goste-se ou não, objetos desse tipo evidenciam condições muito particulares de público, de demanda econômica do espetáculo cinematográfico, e por que não, da própria situação estética que o cinema de caráter mais massivo enfrenta. O caloroso debate suscitado pelos bestsellers de Stephenie Meyer, há alguns anos, vem gerando questionamentos similares no mercado literário de consumo, e se acompanharmos alguns dados desta discussão concluiremos rapidamente que, aqui, o cinema enfrenta uma séria desvantagem. Além de os trabalhos de Meyer se esforçarem por alcançar um mérito próprio, seja no carismático desenvolvimento de sua prosa e na intertextualidade proposta com clássicos do literário (Shakespeare, Jane Austen, Emily Brönte), já foi identificado pela crítica especializada que o universo delineado pela autora é dotado de alguns sintomas específicos do momento histórico que temos vivido: relações e afetos que não ultrapassam a virtualidade dos corpos, eliminando qualquer possibilidade de contato carnal como consumação do amor erótico.

Na franquia de filmes, nenhuma dessas problemáticas permanece: a mudança de equipes técnicas desarticula qualquer qualidade de estilo tornando um filme absolutamente diferente do outro (apesar dos jovens intérpretes, aos quais nos deteremos mais adiante); desaparecem também quaisquer oportunidades de relação com outros cinemas de gênero, apesar do rico universo existente em filmes de vampiros e lobisomens; dilata-se a virtualidade a partir da exacerbação dos corpos, o que mais uma vez nos leva a considerar algo sobre o trio de intérpretes.

A imagem acima, popularizada pela divulgação, dá boa justificativa do sucesso crescente que os filmes alcançam ano após ano. Os rostos e corpos perfeitos destes três jovens podem mesmo ser compreendidos como a razão de ser das adaptações cinematográficas, centralizando em suas belezas uma coerência que dispensa o estilo, o reflexo histórico e o imaginário de produtos fílmicos irmãos. Não podemos falar do trio como uma composição de atores, pois a carência dramática de todos chega a ser constrangedora, muito menos é possível enquadrá-los como não-atores, opção de elenco que já rendeu frutos tão louváveis na história do cinema. Se falamos de corpos e rostos, também não o fazemos sob a perspectiva de um cinema sensorial, epidérmico. Pois como demonstra a imagem, os rostos se valem de princípios mais intimamente ligados à publicidade que ao cinematográfico. O que resta é a dubiedade de imagens que não se definem enquanto aparato audiovisual.

Ainda que seja possível identificar que Eclipse é o único filme que supera os escritos de Meyer (note-se a otimização dos flashbacks que renovam a duração não econômica do filme enquanto atrasam a estrutura truncada do livro), ficam suspensos enormes problemas relacionados ao tipo de cinema consumido à exaustão pelo efêmero e mega-quantitativo nicho de público que infla as salas de exibição sem exigir coerência que exceda os rostos enquadrados. A impressão que fica é a de que os rostos/corpos são aceitos e desejados pelo público, mas não atingem o papel intermediário das imagens, não são sequer realmente vistos por elas. E convenhamos, imagens que não vêem os corpos que comportam podem até construir uma ilusão que funcione, mas jamais transmitirão qualquer estado de espírito ou de alma que deveria fluir de um ente filmado.

Fernando Mendonça

Novembro de 2010


ISSN 2238-5290