Às cinco da tarde

Nota: Mais do que nos textos acadêmicos ou qualquer tipo semelhantemente metodológico, o meu prazer está na escrita puramente, no que surge na alma e se transforma em letras no papel. Pode não falar de cinema, mas o texto abaixo traz a imagem abstraída dos pensamentos, traz o tempo, que não deixa de ser linguagem e ação da chamada sétima arte.

A tarde vai caindo e a noite surgindo. Nesse período de transição, parece que tudo se torna mais notável, cada detalhe parece passar pelos nossos olhos como em câmera lenta, como num filme antigo de nossas vidas. Mas, o que mais se sente (e nem sempre se nota), é aquela sensação de angústia, aquele clima de retirada que vai se construindo a cada minuto que vai passando. E os minutos, esses parecem passar também de forma mais lenta, quando as cinco da tarde vão se aproximando.

Tudo parece constituir uma cena de angústia: nas ruas, os passos se apressam e as conversas diminuem, pois em breve se deve ir para casa; no céu, os pássaros cantam o canto de retirada e o Sol sonolento ilumina suas notas musicais. No corpo, o coração bate mais rápido. Quem está longe parece ficar ainda mais… Quase sumindo no horizonte alaranjado. Quando esperamos alguém, as cinco da tarde tornam o tempo de espera ainda mais longo, pois o tempo precisa se ajustar à noite que chega e não tem ele tempo (mais uma vez) para acalentar os corações de quem se angustia.

Se o dia que está por vir não for tão esperado, da tarde para a noite os sentimentos de solidão parecem se aflorar, espremer-se naquele espaçozinho aparentemente curto que separa o Sol da Lua. E nesse pequeno espaço… Ah! Cabe tanta coisa! Cabem lágrimas, sorrisos, pensamentos, sofrimentos, lembranças. Cabem os ouvidos que esperam o sinal de chegada de alguém, os olhos repletos de saudade, os braços já abertos para um abraço que há tanto se queria dar e, também, receber. Cabe também o desprezo, a raiva, a ignorância. Cabe de tudo, onde parece caber tão pouco.

O relógio é mais observado quando seus ponteiros descem lentamente, das cinco para baixo. Quando descem, falta muito; quando já estão subindo, falta pouco. A noite nem sempre é esperada, podemos então supor que se queira prolongar ao máximo os 60 minutos que se vão de uma hora para outra. Desse jeito o tempo não entende, uns querem, outros não. O tempo fica confuso e, por isso, as cinco da tarde trazem um sentimento de característica confusão, de agitação, de dúvida. Talvez o tempo esteja nesse dilema desde o seu próprio começo, condenado a prosseguir, quando não sabe se deveria parar.

O tempo não tem escolha, e muitos o culpam pela sua ligeireza, pela sua falta de sensibilidade com os que dele precisam. Por que dizem que ele passa mais rápido quando se quer o contrário? Talvez porque ele se anime tanto com o nosso ânimo que não se dê conta de tanta euforia e acaba se exaltando, indo mais rápido quando deveria ir mais devagar. Ao contrário do que dizem, o tempo é sensível. E quando gostaríamos que ele passasse rápido e ele não passa? O tempo também sofre, também se retira em silêncio, em consideração a nós, ao próprio sofrimento do qual ele se apodera.

Mas e as cinco da tarde de que falava? Agora ela parece tão pequena, diante da imensidão do tempo.

Ana Clara Martins

Novembro de 2010


ISSN 2238-5290