La Vie de Bohème (1992, Aki Kaurismäki)

E eu que, pela boemia, achava que a lua era um divino seio!

APÓS A FONTE

Ah, boemia, milagre aritmético da noite! Quem, dentre nós (inda pobres para ti), já não ouviu fábulas de tuas gangues, tuas dinastias, teus banquetes. Quem, dentre nós, já não ansiou ser um desses teus homens loquazes, apetecidos, cujas palavras buscam teor nas artes, no amor, nas estrelas! Quem, ó boemia? Quem? Vai, diz-me logo. Grita-me algo. Apareces! Onde estás tu? Tens de pronunciar-te. Nestas linhas que se seguirão, converter-me-ei em teu algoz… Irritar-te-ei… Blasfemarei contra tua fama e, afinal, terei desdenhosas nostalgias do que tu aparentaste-me sempre ser: adamantina e acolhedora.

LUCIDEZ

Comunico-me agora com vós, ó leitores. Só com vós. O timbre pelo qual iniciei esta crônica pode bem confundir-se com suplício, despeito ou semelhantes; porém não é senão uma bruta invocação dos ares tão boêmios. Perdoai-me, leitores, pela encolerizarão, por minha verbalização inescrupulosa. Só eu precisava disto. Eu apenas. Agora, ao menos, a clandestinidade da minha razão na minha lucidez finalizou-se. Disponho já da clareza com a qual explicitarei donde todo o meu desencanto é originário. Mais exaspero não haverá. Prometo-vos.

FONTE

Marcel (o escritor), Rodolfo (o pintor) e Schaunard (o compositor). Essa é a tríade; uma pura fonte do que houve acima! Criados a mais de um século e meio pelo escritor francês Henry Murguer, em sua obra Scènes de la vie de bohème, esses três personagens assombraram-me como se fossem o que, sendo mortais, já seriam: fantasmas! Devo confessar-vos que a abra eu não desfrutei, não a li; o que vi foi sua adaptação cinematográfica (a de 1992): La vie de bohème, esta nos é apresentada em preto e branco e que é conduzida por Aki kaurismaki. ─ Ah, claro, e decorre sobre a vida de pobres peripécias dos personagens já citados.

BEBENDO NA FONTE

Alerto-vos: o início do filme tem duas bocas: a que dirá como os três artistas virão a se conhecer; e a que fará a primeira reprodução dos ludíbrios que comungaram junto a nossa percepção. A leitura duma sinopse, ou a nossa intuição romanesca regada por esses instantes de apresentação da trama, irá levar-nos até a crença de que a amizade intercorrida entre os três terá sua hidratação máxima no louvor à arte. Mas, ó leitores, isto é meia mascara. As imagens adiante, em posturas um tanto ternas, comunicará o dinheiro a encarnar o ponto de atração para a viabilização de encontros. Deste modo, os trechos de excelência e consistência da amizade (tão esquematizada nas promessas iniciais), não conquistam viço nos espaços da primeira metade do filme senão como pedagogia dum humor portátil, de cujas aparições não resultam nem locomoção das feições nem ações conseqüentes.

E digo-vos mais: bordando isso tudo, quem há? Sim, a Boemia ─ isto mesmo, a tal! Aquela a quem fiz o chamado agonizante. Ela, a mais pura fonte do que houve acima! Ah, leitores, se ela enganou-me, foi para prevenir-vos! Em seu limiar ela ofertar-se prodigiosa. E para que? Logo se estampa calamitosa, degenerada, migalha da rotina. Poucas vezes pode-se ter êxito num vislumbre de sua autentica raça, de seu tão nobre repertório. Nenhuma seqüência dá-nos a fresquidão de ventos; a lavoura de brilhos entre a noite; a efervescência; a engrenagem das aventuras que perfazem madrugadas. A noite, aliás, quase não se sente. Os diálogos erguem-se já presos entre paredes de botecos, desvirtuados, embrutecidos na proliferação do corriqueiro. Oculta-se todo aquele inchaço maroto da virilidade artística. Tudo se consigna às avessas, em lições caóticas. Citam-se os nomes de Baudelaire e Balzac pela manha. Tudo um caos. Um achado não se pode fazer de algo estabelecido em seu encaixe, ou melhor, no seu ideal estofo. Ó boemia, onde estás tu? Onde estivestes? Ah, claro, recordo-me… Cita-se Rimbaud, este sim em aura dita boemia! Mas só este… Ah martírio meu!

OBS: Paremos um pouco aqui, amigos leitores. Deste ponto, direcionar-me-ei para a dissecação analítica de um só dos três personagem: Rodolfo. O porquê disto? Ora, escolhi-o, pois nele sangra um signo que tanto mais esclarece sobre seu idioma existencial quanto mais se acopla precisamente à consecução de atmosferas do enredo. E sendo eu vosso anfitrião, indicar-vos-ei o tal signo:

Baudelaire foi o grande Avatar da poesia francesa do século XIX. Ele foi a voz que, em atos poéticos, bradou: “Vedes, no comum e no vulgar também pode preponderar poesia”. Em La lie de bohème seu nome é o nome do cão de Rodolfo. A Obra-Prima de Baudelaire (o poeta) é o livro As Flores do Mal. O nome de Baudelaire (o cão) é citado apenas duas vezes; a primeira é ouvida segundos antes de, num cemitério, Rodolfo apanhar um ramalhete de flores que estava sobre um sepulcro; e a segunda no momento em que este ramalhete se encontra afinal entre as mãos de Mimi, a mulher por quem Rodolfo enamorou-se e a quem o ramalhete sempre fora destinado.

Procedendo numa depuração racionalizante disto, podem-se formular notáveis cogitações acerca do transcorrer de cenas posteriores. Por exemplo, quais os recantos onde a câmera se fixará; o porquê dum movimento resfriar-se ou concluir-se em tal tempo; a fim de que uma simplória imagem passa a ser, em seus acabamentos, ancestral de outra; ou até quais emoldurações uma cena nos traria, não houvesse um abrupto corte. Dando-nos essa regalia de prévia sabedoria dos acordes cênicos, Kaurismaki põe na narrativa vértebras indisciplinadas, isto é, seu fantoche (o filme) firma-se aquém dalgum manejo elástico que ele talvez possa fazer. “Então donde brotam as enganações que tanto tu falaste?”, vós me perguntareis. Ora, leitores, não há retornos, mas há a possibilidade de concertos e amparos. E esses vêm, sobretudo, dentro das sutilezas adeptas da peculiaridade do diretor que, como o início do filme, também tem duas bocas ─ aquela que se ajusta num eixo onde a palpabilidade sardônica melhor se sacia ao nosso lado que ao lado dos personagens; e aquela que, abordando substancialmente a associação do discurso Baudelairiano, custodia menos o catecismo deste do que a ossificação do atestado de cumplicidade e compartilhamento de fados entre Rodolfo e a insígnia de Baudelaire.

Desde sempre, Kaurismaki, por meio de minúcias, reage retoricamente diante dos planos que cria, convencendo seu filme a estabelecer-se num grau de sutil observador do que, nas ações, se deflagrará externamente. E mais: o diretor, temerariamente, propõe-nos um jogo: realiza uma auto-pacificação defronte o descontrole da trama; a parcelarizada autonomia do filme então se afasta e nos põe gerenciando as tantas matizes faciais, desintegrando-se assim das tutelas explicativas dos mundos interiores. Logo após, retorna já noutro plano com investimentos cênicos ora ingênuos, ora neutros, onde, através do produto de nossas percepções, iluminamos a métrica interna dos personagens. Chegamos assim a esclarecermos o filme para o filme, de maneira que, antes disto ocorrer, estamos sempre carentes do que ele venha a nos ofertar. Que belo, leitores, oh que belo. É como que uma dança, brincadeira bidimensional dentro do qual, mesmo vencendo, tem de se assediar a vitória certa, que pulsa entre uma constelação de afetações ─ destreza humorística, ócio bordado com desencanto, miserabilidade mitigada, inconsútil arregimentação capitalista… etc.

La vie de boheme é uma obra que vai se encobrindo de precisão e opulência, à medida que vai se desenhando uma cirurgia melancólica e alheia ao alvoroço fecundado por violência ou absurda peleja. No fim (outro dos enganos), a anatomia que se abrira é a que cristalizamos não para a boemia, e sim para aqueles que, por dogmatização, tem de possuí-la.

Porém, não vos assusteis, leitores. Esse logro que nos faz o filme talvez seja ainda menor que o logro admitido dentro da constatação inicial ─, ou seja, a de que por haver uma amostra, na trama, de três vocações que, unidas, possibilitariam uma geração cinematográfica, e por cada uma possuir o seu particular depósitos de exposição (os três personagens artistas), o filme se dividiria severa e igualmente entre esses personagens. Oh leitores, isto sim é inteira máscara.

EPÍLOGO

E tu, boemia, nem me apareceste!

Bruno Rafael

Junho de 2010


ISSN 2238-5290