Eu Matei a Minha Mãe (2009, Xavier Dolan)

Embora Wong Kar Wai não tenha se atarefado o principal tema exposto no filme do jovem cineasta francês Xavier Dolan, Eu Matei Minha Mãe, sua influência em inúmeras tomadas dessa produção é afortunada.

Naquelas lentidões de câmera que, pela musicalidade inserida em si, destila fremências flutuantes, Dolan ritualiza a enormidade de cada impressão que o cerca quando percebe que ocupa o centro de uma aliança entre a incandescência e arbitrariedade, e quando castiga, por vezes se auto-flagelando, a transitoriedade d’alguma emoção que considera pouco auxiliadora mas bastante significativa.

O ponto de desleixe desse acorde técnico evidencia-se quando o diretor dispõe-no sobre duas reflexões (a da influência e a sua), e inevitavelmente tem sua fixidez questionada dentro do paralelo injusto, ou seja, quando repousa no desespero inquestionado (Dolan), e quando desertifica atmosfera para profanar o arcaico e embriagar a generosa humildade.

Junto com essa freqüência de Kar Wai ainda poderiam ser lembrados alguns outros: como gestos que sancionam a sutileza do pensamento sem cinismo; as colunas confessionais; espaços fechados e disponíveis que vibram nua composição inusitada e liberal – mas, desta vez, todos juntos pra o centelhamento estilístico de jovem Frances.

Outro diretor que emana das entranhas de Eu Matei Minha Mãe é Gus Van Sant. Este, aliás, muitas vezes contornando ou semeando as freqüências de Kar Wai.

Van Sant civiliza o vácuo da existência através da impassividade; Dolan pega esse vácuo, eleva sua incomunicabilidade até combates mais encarnáveis pelo perceptível, e causa insolação na impassividade, deixando-a ser devorada pelo contraste entre formulas de carinho e a concavidade das cóleras.

Por vezes, a relação entre mãe e filho – relação que se abre ante um repertório atemporal – comunica o claro enigma do tempo: de que modo utilizar (ante o que se apresenta) a substância de certa experiência muito condicionada ao período onde foi composta surge então como pergunta clarificada na perspicuidade da errância obscura; e de qual modo causar ao menos fomes de devotamento a compreensão numa ardente expansividade da experiência sugadora do que se apresenta surge então como pergunta mais perto da obscuridade encontrada dentro da rivalidade do multicolorido com o clarificado.

A MÃE

Ela diz: “você não sabe nada da vida! A gente podia conversar às vezes, mas nem isso você quer. Fica aí trancado no quarto, só fala quando quer me pedir ou a gente vai comer. Em meu tempo, se obedecia mais, agente ouvia mais os pais…”. Partindo desse dialogo, ou melhor, monólogo, posto que o destinatário dessas palavras já as escutara vezes por conta, pode-se vislumbrar a resposta que virá, e que também será incorruptível, onde a única originalidade do signo de observância provém do nível em cuja vontade de silencio está semeando-se; nível que sempre está diferente, na maioria das vezes por sutilezas, tal qual são diminutas as diferenças encontradas em cada folha de arvore que sempre caem.

Analisando o que ela disse, notamos que o primeiro é um total equívoco. Pois como se pode obter vivência, se não a viver? No segundo, o desejo de dialogar é compartilhado por ele, mas a identidade desse desejo é exercitada na plataforma onde a “divinização” do emblema da família. No terceiro, não há nenhum equivoco: a fuga é o regente do sono, e o embate é o silencio sistêmico do ato alimentar; assim, o que há faz parte duma reflexão sonolenta indigesta. No quarto, guilhotina-se a semântica do tempo.

O FILHO

E ele no quarto…

Bruno Rafael

Dezembro de 2010


ISSN 2238-5290