Paixão Perdida (1999, Walter Hugo Khouri)

No ultimo filme de Walter Hugo Khouri o homem não esta mais no centro, embora ainda continue sendo o foco. A abordagem trabalhada diante do homem agora é inerente à metamorfose de sua figura. Khouri não segue a perspectiva a que seu histórico levava, mas a perspectiva que se deu a partir da secreção da unidade, e das medições dum complexo que está desapaixonado pelos rudes sabores do sabor.

A identidade continua: Marcelo. A matéria duplica-se: dois corpos. O corpo que deriva do núcleo volta à infância; formula uma deformação em si mesmo para acomodar um paradoxo: é e não é, mas é.

A mulher agora é o centro. Talvez se seu corpo não se bifurcasse, ela conseguisse até muito das flechas que vão pra o foco; casa-se apenas como tratamento sentimental que deseja dar ao(s) Marcelo(s), e não com ele(s). Por isso não há bigamia. Há seu balouço; sua bandagem – sua bifurcação.

Quer-se agora da mulher a compreensão do desgaste mercenário (ou espelho agoniado). Para ela, ocorre a substituição da lassitude pela solicitude. Uma mansão pode voltar a se a progenitora dos cenários. Uma festa pode novamente expor os elementos sobre o quais se assentarão o flerte preso à conquista e o atrito forjado anteriormente, já que dissertado pela tensão. A mulher, entretanto, entorpece o dogma; analisa os extremos advindos disto. Porque ambos guardam semelhanças cabais, ela os acaricia; um com os extremos de seus cabelos (as pontas), e o outro com os extremos de sua pele (os pelos).

Paixão Perdida é o réquiem ou o ultimo canto do cisne; é a Hosana do que finda… a ascese do que saboreia… Khouri adere à síndrome do mártir desincumbido de o ser. Crucifica-se, e quem lhe cospe é próprio. Faz isso porque deste jeito conhece os intervalos aos quais deve se submeter e para saber até onde deve ir a fim de que a admiração não se converta em piedade. Sua cruz é a impossibilidade da locomoção que ama… que devora… que espolia. Sua cruz é a angustia de ter a um lado aquela de quem não pode intrometer-se nos íntimos suores, e o outro aquele que sustenta a robustez, a destreza, a constelação das sedes e fomes da languidez – todos os viços que poderiam fazer descer seu sonho de crucificado dos céus. Paixão Perdida é o sudário…

Bruno Rafael

Dezembro de 2010


ISSN 2238-5290