A Sétima Alma (2010, Wes Craven)

O interesse por A Sétima Alma, de Wes Craven, poderia surgir a partir da sua paradoxal falta de lugar no (mercado do) cinema contemporâneo. Trata-se de um filme de horror que não está nem alinhado à onda de sucesso que o gênero vem suscitando nos últimos anos (onda esta marcada a princípio pelos remakes norte-americanos das fitas de fantasma japonesas – O Chamado – e agora sustentada pela estética “realista-caseira” – Rec, Atividade Paranormal) nem a uma proposta cinematográfica que ponha em cheque o sistema estético-econômico que sustenta uma onda de sucesso como essa – afinal, é um filme mainstream até o último segundo. O interesse, porém e infelizmente, apenas se esboça e, rapidamente, morre como um personagem raso do filme. O problema, obviamente, não é o fato de o longa ser mainstream – o cinema é o dispositivo artístico que menos pode demonizar as formas da cultura e da sensibilidade de massa – mas pelo que Wes Craven se propõe aqui enquanto criador de imagens: ele não é um cineasta, mas um publicitário.

O filme parece não ter lugar: há algo dos longas de serial killer dos anos 80 que hoje são motivo de chacota e riso por parte do público e pelas comédias bobas/burras que satirizam filmes como o próprio Pânico, sucesso pós-moderno atrasado (1996) de Craven. Também não há nenhuma câmera tremida, com a bolinha vermelha da gravação, com imagens ruidosas e defeituosas. Mas isso, que a priori poderia ser um trunfo para o filme, apenas confirma sua condição de produto medíocre e espantosamente previsível que rapidamente se perderá em nosso mercado cultural ultraveloz. Craven não se interessa em construir o espaço, em estabelecer uma atmosfera. Em sua decupagem e montagem predominam tristemente a funcionalidade publicitária. O suspense se resume a sustos fáceis, o clima se resume a uma sequência que se passa num brilhante escuro de estúdio. Onde está o medo? Craven se preocupa pouco com a mise-en-scène e muito com sorteios e premiações no seu perfil do twitter.

Se – com nossa mania de crítica francesa – considerarmos os filmes de Craven uma “obra”, A Sétima Alma a princípio poderia trazer uma inovação interessante. Em Craven há sempre a luta do bem contra o mal. Mesmo que o “bem” sejam jovens brancos (embora haja sempre uma cota para as outras etnias) drogados e pervertidos do high-school estadunidense, eles não são o “mal” – um velho tarado que foi gerado a partir de um estupro a uma freira por centenas de loucos criminosos (A hora do pesadelo). Sidney, a CDF virgem de Pânico, não era o namorado dela, que via muitos filmes de terror e surtou (mesmo que Sidney enquanto personagem se justifique a partir da autoironia referencial e cínica do filme – ausente nesta última fita do diretor). Eis, porém, que neste A Sétima Alma, nosso protagonista parece sofrer a crise de ele próprio praticar o mal. O que, claro, não é nada de novo nem necessariamente bom (basta lembrar do péssimo O amigo oculto, que comoveu as bilheterias por estas bandas). Mas poderia dar um ânimo e um fôlego novo à carreira de Craven. No entanto até aqui nos decepcionamos quando a personalidade ambígua do nosso jovem herói se revela como um mero estratagema da trama para nos “enganar” sobre a identidade do verdadeiro assassino, que, portanto, continua sendo o outro, e nunca nós (espectadores) mesmos. Craven: o cineasta do tedioso e conservador “dentro (bom) X fora (mal)”.

Os personagens são estereótipos. Novamente não temos um problema aqui, se lembrarmos o que, por exemplo, Sofia Coppola fez com o high-school sem fugir dos seus emblemas clichês em As virgens suicidas em pleno ano de 1999 (com baile no final do filme e tudo). Em A Sétima Alma, a personagem de Fang sugere, enquanto estereótipo mesmo, enquanto imagem, a frágil possibilidade de o filme brilhar. Porém, nova decepção: é apenas uma (a mesma) “adolescente problemática” e que perde o sentido no fim da narrativa, que, em suas últimas sequencias, perde o chão, se evapora.

Jean-Louis Comolli diz que o medo é um dos sentimentos mais interessantes e poderosos a serem experimentados no cinema, porque coloca em cheque e desafia nossa relação com o outro, seja de classe (Assalto à 13ª DP), seja de sexo (Os pássaros – que, por sinal, é lembrado por um dos personagens do filme de Craven). O medo, como vimos, passa muito longe da recreação televisiva que é A Sétima Alma. Seu assassino é um misto anacrônico de Freddy Krueger (a feiura e a voz) com Gosthface (quem será o assassino no final das contas?), o que nos faz pensar se Craven não está ele mesmo, com esse filme de acabamento caprichado – para uma publicidade – , tentando se mostrar forçadamente como um verdadeiro auteur (a casa em miniatura no quarto de Fang, por exemplo, é quase a mesma, e uma referência explícita à casa no quarto de Kristen, de A hora do pesadelo 3: os guerreiros dos sonhos). Para o bem de nossas almas, esperemos verdadeiramente que não.

André Antônio

Dezembro de 2010


ISSN 2238-5290