Tron: Legacy (2010, Joseph Kosinski)

Tron: Legacy, de Joseph Kosinski, é um blockbuster interessante, sobretudo porque uma escolha estética fundamental sua leva a muitos caminhos que dão certo. Essa escolha é a nostalgia pelos anos 80, época na qual se passa a narrativa original do filme de 1982 Tron, uma odisséia eletrônica. Aqui, por causa disso, a sofisticação contemporânea dos efeitos visuais não serve, como de praxe em Hollywood, para levar a níveis cada vez mais altos a sensação do real, mas para construir um mundo que é precisamente, ele mesmo, digital, ou seja: simplificado, superficial, dividido em duas cores, com a coerência datada dos games dos anos 80 e do primeiro filme. As melhores sequências de Legacy são exatamente as dos jogos (dos discos, das motos), quando esquecemos o desenrolar do roteiro arquetípico do filme e somos suspensos numa experiência audiovisual onde o que importa é aquele único evento digital de luzes ritmado pela ótima trilha do Daft Punk. É quase como um convite à datada perda da humanidade pós-moderna num mundo de neon azul e laranja, mas o convite acaba revelando aspectos interessantes. Pois essa estética termina por criar um mundo virtual distópico, frio, onde podem brilhar apenas frágeis centelhas de humanidade, na tradição mesmo de um Fahrenheit 451 ou, melhor, de um Philip K. Dick. O interesse por essas distopias ficou pra trás com a literatura cyberpunk, mas acaba revelando uma atualidade notável na experiência pop mainstream que o filme é. Em uma sequencia que mais parece o início de um videoclipe de Lady Gaga, várias mulheres-programa de salto alto prateado trocam a roupa do protagonista para que este possa participar dos jogos. Elas são robóticas, mas há um rápido momento de resistência, de saída da programação e da ordem, onde uma delas olha de relance para outra e comenta, mesmo que ainda com um olhar sem vida e distante: “he’s different” – referência ao fato de ele ser humano. Outra sequência que merece destaque é a da boate, pelo trabalho na direção de arte e pela piscadela ao mostrar o próprio Daft Puk tocando o som eighties que compôs especialmente para o filme.


O que pode estragar esta sequencia é o personagem Zuse, extremamente afetado. Tron: Legacy, na verdade, oscila entre dois polos: o das coisas interessantes e o do roteiro previsível, da péssima escolha para a personagem de Quorra (onde está a frieza robótica que a tornaria infinitamente mais interessante?), do constrangimento que o forçado Jeff Bridges velho faz o espectador passar, mais que o Jeff Bridges digital. O vilão também é clichê, sentado em seu Coliseu vendo covardemente os good guys se destruírem. Mas pelo menos tem uma ótima cena (a da maçã espelhada) que revela o início e a fonte de sua atitude fascista. O filme acaba se revelando uma surpresa por sequências como esta e por escolhas cinematográficas que fazem toda a diferença e que são tão ausentes do cinema insosso que chega aos nossos multiplexes. Uma dessas escolhas: filmar a luz do dia apenas no final utópico (última cena do longa), em contraposição ao sombrio eletrônico em que estivemos mergulhados durante toda a sessão. Me fez lembrar New Order em 1987: “I used to think that the day would never come/ I’d see delight in the shade of the morning sun/ My morning sun is the drug that brings me near/ To the childhood I lost, replaced by fear”.

André Antônio

Dezembro de 2010


ISSN 2238-5290