Luzes na Escuridão (2006, Aki Kaurismäki)

A química!

(que não é a que eu odiava na escola!)

A palavra foi dada ao homem para esconder seu pensamento”, disse Stendhal, lá pelo seu primeiro romance. Que isto é a puríssima verdade, leitores loucos, talvez não se possa dizer, posto que este pensar solidifica-se ao passo que se arregimenta no seu contrário ─ que é pela palavra que o homem desinstala obscuridades. Porém, tampouco se pode constatar que esses dois extremos dicionarizaram-se em uma tal moldura que jamais se legitimem numa mútua articulação, posto que, embora raros, haja descortinamentos de sublimes obras fecundadas entre eles. E isto é exeqüível, sobretudo por um fator às vezes tão ignorado na sua altivez quão delinquentemente manobrado quando percebido ─ de que elementos opostos, se amalgamados, além de poderem preservar seus teores para contrastes, podem, se separados, permutar influências sem atrofiações na arquitetura individual.

O tal filme chama-se Luzes na Escuridão, e fez-se assim… Instrumentalizou-se congruentemente entre esse “dizer para mostrar” e esse “dizer para esconder”. Para isto ocorrer, no entanto, teve de haver um grito… esse grito primeiro metrificou o acolhimento dos ares a se respirar; depois, coagulando-se, fez-se percussão das paisagens. Em seguida se dissolveu, convertendo-se já em sussurro, deslizando onde as demais substancias características dos personagens tinham existência.

Afinal, Uma proveitosa lição de química, leitores!

E estão aí, estes são os estágios por Kaurismaki arquitetado: o limiar é gasoso, o meridiano é sólido e o terminal é liquido. A carnadura fílmica sabe-se assim, embora aparente mesmo se constituir sólida em todos os três estágios; isto, sobretudo, porque todos os elementos que cercam o filme notabilizam-se por algum parentesco metálico ─ a moeda ida ao recipiente, o copo nalguma superfície posto. E, por conseguinte, dão vazão também a ecos; escutamos aquele rumor duas ou três vezes como se assim pudesse ser a vida naquele espaço duplicada ou triplicada. Torna-se então lógico: mais que ao silencio, a soberania ali se afeiçoa ao saariano, ao inóspito, cuja formação tem como esmalte mestre os banhos da frieza. E é por isso que se dá tão caprichosamente andrógina, sendo, paralelamente, o alfaiate e o vândalo do espectro silencioso. Concebendo a atmosfera desta forma, é demais crível que seja ela a artesã dos sangramentos das cenas e que, ironicamente, os “cortes” elaborados pela edição tenham que ser os únicos estancadores. Certo que isto não corra a causar uma organicidade, mas, ao menos, causa uma vigilância despretensiosa desta ─ miudamente cobiçosa de que o próximo a outorgar um estancamento venha a ser uma cólera, alguma febre.

Digo-vos mais, leitores: pobremente nos adiantará os nutrientes de um ritmo expectante, em vez de nos convertermos em inquilinos da atmosfera em voga. Desde o início, Luzes na Escuridão é todo um espelho desvirginado por Koistinen, o protagonista. Porque este não surge desnutrido pelos filtros ilusórios. O pensamento no qual ele é palpável é o de que sempre fora aquele ser posto à parte. O filme, com ele e para ele, Intimida esse fluir de reviravolta, invalida arroubos heróicos, empalidece paixões! Não raro, me apercebi indagando: “já que não obteve a loira, porque ele não vai para a morena?”. Ou então: “Porque até essa minúscula vingança não se consumou?”. Mas, oh leitores, se isso ocorrer com vós, deixai para lá; são torpes respingos daqueles nossos olhos viciados em tramas irrespiráveis de tantos malabarismos. Não ligais muito, pois é por meio de algo que mortifica essa raça de olhos que o filme assegura sua atingibilidade emocional, ou seja, é por meio das expressões. Isto mesmo que ora vos digo; da contextura delas, a qual se presume ser desvirtuada de pontos de vitalidade. Não, leitores, Luzes na escuridão nem um pouco carece de preciosos comparecimentos faciais. Quem haverá proclamado que um olhar para comunicar sua plenitude se deve sacramentar na totalidade comunitária dos traços duma expressão? Equivoco bruto! Imaginemos o seguinte: que alguém tem no rosto o tino febricitante do amor. Dentro dessa expressão de amabilidade interagem inúmeros traços. Desses tantos traços, porém, só três ou quatro chegam a ser substancias. A maioria serve então para ambientar lealmente a nossa atenção àquele instante; são ornamentos reforçadores da memória ─ mais diretamente falando: são para cultivadores de distrações. Vejamos o primordial exemplo de Koinstinen: este personagem vai de uma sensação a outra sem que haja uma maciça apreensão nossa disto. Ao ouvir, no inicio, uns homens a falar de Gorki, Tchaikovsky e Tolstoy, cujas vidas de penúria não os transviaram do esplendor, Koinstinen, sentindo-se enfim revitalizado por saber-se num semelhante rumo ao dos insignes homens, acende então um cigarro ─ símbolo de sua auto-parabenização. Já quando comenta sobre seu possível negócio e, por conseguinte, sobre amigos que lhe poderiam auxiliar nele, Koinstinen abaixa obliquamente a cabeça, emoldura amolecidamente o olhar e negligencia até um ínfimo mover de pálpebras ─ símbolo de sua desesperança. Esse mapa simbólico do filme se cadencia até Koinstinen ser rejeitado pela mulher a quem estava relacionado. Depois, os símbolos se interseccionam, confundem-se, e quem já estava a acostumar-se neles, regressa a desempenhar o papel de presa exclusiva das expressões, que ainda pensam não lhes moldar nada frutífero, proveitoso. Para mim, infelizmente, provaram-se assim duas coisas: que aquela minha atenção dedicada às minúcias é demais acomodatícia, caso os detalhes aos quais me enredei desoficializem sua origem, formatem-se ou findem-se; e que, algumas vezes, a minha avidez por detalhamentos é tão-somente o desgoverno de vibrações partidárias da ojeriza direcionada ao cinema dito fast-food.

DESCULPAS

Desculpais-me, leitores árduos. Esqueci-me de dizer algo importantíssimo acerca do filme Le Vie de Boheme, em cuja natureza eu me entranhei na crônica anterior. Como já estou cá, dir-vos-ei o que lá me fugiu, conjugando uma identificação com o que estou averiguando agora. Sejais cordatos comigo e apreciais…

ENFIM

No filme Le Vie de Boheme existe ainda um segundo signo pelo qual Rodolfo manifesta-se ─ esse é o signo de Bresson e coexiste desassombradamente com o primeiro: o de Baudelaire. Rodolfo é niilista, centrifugo, tem feições pétreas e está sempre a apalpar dinheiro recolhido como se estivesse assim entre as sagas de Pickpoket ou o Diabo, provavelmente. Além disso, tem seu destino muito maculado em um roubo que lhe ocorre. Roubo esse que é circuncidado por um patente assenhoramento de um altivo elemento do glossário Bressoniano ─ a filmagem limitada à ação manual.

Atentai então para isto, leitores: vejamos agora tanto Rodolfo quanto Koinstinen!

Vê-se bem que o protagonista de Luzes na Escuridão é análogo a Rodolfo e distinto do mesmo. No decorrer dos dois filmes há ponderações, ângulos, secreções de silêncios que comunicam um personagem com o outro e, ao mesmo tempo, os distancia. Para dar-se a um exemplo, basta invocar duas cenas: aquela em que Rodolfo queima seus antigos poemas, para deste modo acalentar sua amada; e aquela em que Koinstinen, em uma boate, decerto por não ser afeito a danças, permite que sua angélica companhia divirta-se a dançar com outro alguém. Em ambos os casos, portanto, há sacrifícios; mas enquanto o sacrifício de Rodolfo faz-se por algo cuja importância equilibra-se com um indiferentismo, o de Koinstinen faz-se pelo que poderia ser… pelo que, lamentosamente, queria Koinstinen que fosse.

Kaurismaki como que ambicionou criar uma ponte sem muitos ecos ao frutificar Koinstinen e Rodolfo ─ moldo-os ao lustre de décadas distintas. Assim, o que é soberbo notar está em assistirmos aos dois filmes consecutivamente ou, ao menos, sem que se passe tempo por demais. Não fazendo isso, certamente não se irá ao jubileu da mais forte paisagem das semelhanças partilhadas entre os personagens ─ que fica mesmo sendo a de que ambos não se permearam em alterações, tampouco em adulterações; permearam-se em conservações.

Koinstinen é o irmão cordialmente rebelde de Rodolfo. Irmão porque aquele, como este, peregrina dentro dum idêntico DNA de frialdade; e cordialmente rebelde porque aquele, ao invés deste, dá-se esperançoso, almeja ser integrante, comove (ou dá ganas de pena) e, enfim, tem seu destino maculado pela mesma privativa filmagem manual ─ só que desta vez são duas mãos e o foco não está em uma carteira, mas no contato acalentador entre ambas.

OBS: Leitores, que vós noteis ao assistirdes os dois filmes o quão têm maciças bases essa minha associação. Caso não ocorra isto, fico eu sendo aqui um mero tapeador.

Bruno Rafael

Junho de 2010


ISSN 2238-5290