A Anti-Fantasia de Martin Scorsese

No centro do cinema de Martin Scorsese – ou, ao menos, nos seus filmes mais conhecidos – podemos encontrar decerto um homem. Um homem atípico. Nesta figura, localizamos um mundo individual em conflito constante com aqueles que a rodeiam e, problema ainda maior, com as noções e regras sociais que estruturam o meio social vital no qual ela está inserida e é violentamente obrigada a viver. De alguma forma, os filmes de Scorsese haverão sempre de tratar (e retratar, porque falamos também num cineasta que sabe encenar como poucos – continuando a tradição dos grandes diretores radicados nos EUA), em maior ou menor incisão, sobre rupturas, sobre cessões graves com o que se chama de realidade (ou de realidade de um meio), sem, no entanto, recorrer à fantasia, mas à doença, à incompreensão.

Duas cenas: em Taxi Driver, não bastasse toda a desorientação (ou orientação total: a sociedade está doente e é necessário estar numa guerra, como Travis esteve, para perceber isso) do protagonista ao sorver a elementar pulsão suja das ruas de Nova York, existe ainda aquele momento em que ele é mais afastado do convívio com o seu meio, composto por outros taxistas, quando se distrai num universo de pequenas bolhas criado por um efervescente jogado num copo d’água; em Touro Indomável, entre tantos conflitos de Jake La Motta com o meio (os mafiosos, sua família, todos um problema insolúvel), sobressai-se a inesquecível sequência em que a cessão é inteiramente filmada: ele espanca o irmão, o único que de alguma forma ainda o apoiava apesar de suas explosões de violência (e, claro, incompreensão). A cessão na verdade aparece duas vezes: no fim da família, e em certo rompimento físico, nesta cena, do que é a estrutura de filmagem de uma briga em Hollywood. Nos dois casos, as questões passam e vivem do corpo do ator (no caso, Robert De Niro) que expressará o desacordo mental/espiritual com o meio.

Não falamos em Scorsese, certamente, nos termos da fantasia do cinema, da magia no sentido mais simples e artesanal. A fantasia, ao contrário de Tim Burton, é aqui uma doença, um delírio, um aprisionamento. Trata-se de um cinema anti-fantástico, onde o que há de fantasia é ao mesmo tempo aquilo que há de morte (o tom de recordação é o de uma fábula em algumas cenas de Gangues de Nova York, com o menino revendo a morte do pai e com Scorsese retornando às caricaturas como ele as via nos seus filmes dos anos 80); que há de caricatura e formalismo (a iminência da morte, do ferimento e da cessão física: Depois de Horas) vem do universo urbano, das suas formas de comunicação, de agregação social.

Na oficina A Anti-Fantasia de Martin Scorsese trataremos, entre outras coisas, desta cruel relação entre o homem e seu meio, de sua impossibilidade de fantasiar (o local feliz está sempre além, Travis Bickle nos atestará), dos estilos com os quais Scorsese flertou nesses 50 anos de carreira e de sua paixão sem medidas pelo cinema.

Aula 1: Anos 60 e 70: As ruas, o estúdio, os documentários: narrativas pessoais de um cinema intimamente pessoal: os primeiros curtas; Quem Bate à Minha Porta?, Caminhos Perigosos; Italianamerican; Alice Não Mora Mais Aqui; Táxi Driver; New York, New York; American Boy: A Profile of: Steven Price; O Último Concerto de Rock.

Aula 2: Anos 80 e 90: A biografia, a caricatura (comédia + perigo), o retorno do pai, o videoclipe, o novo olhar para a religião, um média-metragem, a máfia e aprofundamentos da montagem na narrativa, o olhar sobre o cinema: apontamentos para depois dos emblemas: Touro Indomável; O Rei da Comédia; Depois de Horas; A Cor do Dinheiro; Bad; A Última Tentação de Cristo; Lições de Vida; Os Bons Companheiros; A Época da Inocência, Cassino; Uma Viagem pessoal pelo cinema americano; Kundun; Vivendo no Limite.

Aula 3: Anos 00 e 10: A fantasia é a vingança e a violência; a música; a biografia megalômana; a narrativa estritamente policial; o filme de gênero: Gangues de Nova York, The Blues, O Aviador, No Direction Home: Bob Dylan, Os Infiltrados, Shine a Light, A Ilha do Medo.

INSTRUTORES: Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

DATA: 13 14 e 15 de janeiro, das 10h às 12h da manhã (no Cine SESI Pajuçara)

INSCRIÇÕES: de 07 a 13 de janeiro na bilheteria do Cine SESI Pajuçara

VALOR: R$ 30,00

> Carta aberta

Falência de uma ideia?Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290