Fora da Lei (2010, Rachid Bouchareb)

Fora da Lei encontra-se no ramo de co-produções franco-africanas que tem como missão mostrar outra visão da história colonial francesa moderna – em especial a do século XX -, numa perspectiva dos colonizados. Um bom exemplo disto talvez seja o de Dias de Glória, que narra a história dos africanos que combateram pela França durante a Segunda Guerra Mundial e que, em recompensa, ganharam apenas a sepultura nos cemitérios de guerra.

O mesmo diretor Rachid Bouchareb, que dirigiu com competência Dias de Glória, volta agora, em Fora da Lei, a tratar de mais um tema polêmico da história francesa, voltando-se para as guerras da Indochina e da independência da Argélia, fatos que causaram um enorme choque na sociedade francesa. O filme se concentra na vida de três irmãos argelinos que são expulsos das terras onde viviam e passam a levar vidas distintas: um torna-se soldado e vai combater pela França na guerra da Indochina; outro se torna cafetão e o terceiro revolucionário que busca por todo custo a independência de seu país.

A guerra de independência da Argélia já rendeu bons filmes ao cinema. O melhor exemplo foi a obra-prima do italiano Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel, que exibe um panorama excelente dos dois lados da guerra. Fora da Lei, ao contrário, não pertence ao grupo dos bons filmes sobre o assunto. É um filme abarrotado de cenas melosas e de sentimentalismo forçado que não conseguem escapar de clichês baratos. No conteúdo histórico o filme é tendencioso ao ponto de criar um cenário de bem e mau. Os argelinos são sempre exibidos como heróis cheios de ódio que lutarão pelo seu povo, e os franceses como demônios prontos para matar qualquer árabe que aparecer na sua frente. O diretor ainda tenta amenizar essa visão colocando cenas de questionamentos pessoais entre os personagens centrais, mas acaba tornado o filme ainda mais cheio de ódio e revanchismo.

Se posso dizer que gostei de alguma coisa do filme, direi sobre os créditos iniciais que mostram cenas em preto e branco da comemoração francesa da vitória na Segunda Guerra ao mesmo tempo em que acontece um protesto na Argélia a favor da independência. Rachid possivelmente tentou fazer deste um bom filme ao utilizar o mesmo elenco de Dias de Glória, mas errou em todo o resto. Nem as cenas de ação conseguem ser envolventes ou tocantes como em seu filme anterior. São cenas típicas de blockbuster, feitas para tentar acordar o espectador em meio aos 140 minutos de filme. O filme é fraco em todos os sentidos, o que nos leva ao desejo de ainda termos um bom filme africano sobre o tema. Quem sabe Bouchareb consiga, com a mesma competência de Dias de Glória, falar de outro tema sem ter que cair no emocional tendencioso de Fora da Lei?

Nuno Balducci

Janeiro de 2011


ISSN 2238-5290